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Conto: Instantes

 

Bom domingo a todos, aqui na Baixada Santista muita chuva desde ontem à tarde.

Para o dia de descanso compartilho o conto Instantes, espero que gostem de minha história.

Abraços e até amanhã!

Míriam

 

 

Sabe quando acontece algo inexplicável e você tenta de todas as maneiras arrumar uma resposta, um argumento para o que acabou de acontecer? Esses fatos, uma parcela de um mundo oculto, de episódios sem respostas, assim também acredito que muita gente tenha sua história sobrenatural...

 

F

im de tarde de 2001, aproveitei a saída um pouco mais cedo do serviço para ir buscar o documento do carro no despachante. Como de costume, ficou pronto em um dia, já que quase nunca tenho multas a pagar.

O despachante tem seu escritório em uma rua difícil de se achar lugar a estacionar, mas naquele dia encontrei fácil e bem na porta. Ao entrar, me deparei com um rapaz em cima de uma bicicleta amparado pelo braço apoiado no balcão. Meus olhos encontraram os dele; nos olhamos por questão de segundos. Eu insisti mais pela questão de estar dentro de um comércio montando numa bike, isso é que me chamou a atenção. E ele me olhou porque passei ao lado e tirei-lhe da zona de conforto.

Então fiquei à frente e no mais profundo silêncio, me apoiei também no balcão que fazia um L, isolando os clientes do proprietário, que ao computador, parecia atento ao serviço bem ao fundo da sala.

E assim, aguardei a minha vez sem fazer anúncio de que estava ali, apenas me distrai observando um aquário grande de água doce, bem arrumado e limpo com poucos peixes.  Sempre gostei de aquários e até mesmo já tive um, logo que me mudei para Santos. O aquário embelezava e completava o design moderno tornando a sala um local atraente e calmo, quase um ponto de meditação. A água parada dá uma sensação de calma, de paz espiritual.

E foi absorta nessa pequena parte de um passado da página de minha história, que não notei quando o despachante Carlos, também conhecido como Rick, me chamou duas vezes, na terceira, ele se levantou.

-  Oi, está aí quietinha... diz acenando para mim, me libertando de lembranças felizes de quando o mundo se entrelaçava em “paz e amor” - de quando as pessoas se conheciam em barzinhos, cinemas, teatros, bailes. De quando você tinha um problema pegava o telefone e marcava para sair com uma amiga a desabafar; ou ainda quando se podia subir a serra de trem, pegar um pico de caminho e seguir por uma trilha para acampar no “meio do nada”! Um passado sem essa violência que rouba quase todas as notícias de um telejornal. E, nestes dias, assistimos uma guerra “de camarote” - Te vi agora, entrou e não falou nada!

- Há sim, Carlos, vi que estava atento ao computador então pensei que estivesse verificando a documentação do rapaz, disse-lhe.

- Rapaz?

- Isso, do rapaz de bicicleta no balcão, falei-lhe.

- Não estou te entendendo, não tem nenhum rapaz aqui na loja, diz o homem com sorriso e olhar sarcásticos!

- Mas ele estava apoiado no balcão, então aguardei porque jurava que você o estava atendendo e esperei a minha vez.

- Nossa, já faz um tempinho que não entra ninguém na loja, só você. Por isso, não compreendo sua insistência sobre o que diz.




Olhei fixamente o rosto de Carlos e vi que dizia a verdade, realmente não havia entrado no período de uma hora nenhum rapaz, muito menos com uma bicicleta. Para não causar mais estranheza, peguei e paguei o documento do carro e me despedi.

Sai do local com uma grande interrogação em meus pensamentos, sem entender, como poderia? E ele também me viu.

No carro, até chegar a casa seguia no trânsito querendo saber. Não poderia ser um espírito, estava fora de cogitação, foi então que minha mente tentou outras ideias para o que ocorrera. Uma ruptura entre duas dimensões distintas em fração de segundos nos colocou em um mesmo local: eu, num despachante e ele, em qualquer lugar, lembrando-se da bicicleta, deveria estar na rua ou em uma garagem.

E o que deve ter acontecido para que nos encontrássemos? Ele era jovem, bem mais do que eu, vestia uma camiseta e shorts, em cima de uma bicicleta comum, sem nenhum detalhe especial.

A mente nos ajuda muitas vezes a desvendar os maiores mistérios, mas este não via uma solução plausível e a cena foi desaparecendo, assim como fotos antigas em álbuns vão perdendo a cor, brilho e nitidez.

Semanas se passaram, meses, anos. Os ponteiros do relógio do tempo, girando sem parar nos conduziu a 2024. A vida acompanha o tempo e após 23 anos, Carlos ainda lutava para manter a loja, no mesmo local. Assim como eu, o velho amigo que ao longo desse tempo todo tanta documentação fez para mim de carros vendidos e comprados, tantos licenciamentos e pesquisas de multas. A loja foi se modernizando e no lugar reservado ao móvel e aquário que um dia me trouxe boas recordações agora abriga um espaço para jogos, com telão e acessórios de games, movimentado pelo filho caçula de Carlos. A sala também estava diferente, só o antigo balcão em L relutava aos anos.

E mais uma vez deixei por conta do Rick a documentação do automóvel. Já estava pronto há dois dias, o profissional do seguro já me sinalizara que estava tudo certo na concessionária, assim fui de Uber à loja, tendo que na sequência ir buscar o carro novo.

Ao entrar, me deparei com um homem apoiado ao balcão olhando para o interior da loja, sem se preocupar com a agitação do game. Ao passar ao lado dele, nossos olhares se cruzaram e eu o encarei; ele, também fixou em mim seus olhos castanhos, movendo a sobrancelha como se me conhecesse.  Foi aí que caiu minha ficha, e ao escutar Rick chamar meu nome me virei para cumprimenta-lo e em questão de segundos, o homem já não estava mais dividindo o mesmo espaço que eu; desaparecera.

Corri até a porta e a rua estava deserta naquele momento. Ele deveria ter seus quarenta e tantos anos, não iria correr ou andar depressa, não tinha sentido esse pensamento.  

Estava na situação de anos atrás e sem respostas. Só uma coisa era certa, nos vimos porque estávamos no mesmo instante no mesmo local, atrás do balcão.  Agora um homem, ele aguardava alguma coisa ou alguém em outro mundo, essa era a certeza que minha mente me clareou como resposta. E por alguma razão, ou fração de instantes, as nossas dimensões se emparelharam novamente, e nos reencontramos.

Nesta oportunidade não perguntei ao Carlos se ele estava atendendo alguém, e ele também não perguntou nada, já que só eu estava ali.

Saia da loja para novamente pegar o Uber quando Carlos me diz que eu havia esquecido algo.

- Claudia, acho que você deixou cair da carteira estava aqui no balcão, diz balançando um papel.

Era uma foto. Numa casa simples, com um lindo jardim estavam sentados numa espécie de varanda, um rapaz, uma moça e duas meninas. Ao lado esquerdo da fotografia e ao fundo, pude perceber a bicicleta encostada na parede da casa.

Antes de sua partida, o jovem agora homem de meia-idade deixou a foto para apresentar a sua família. Nunca saberei seu nome e nem o porque de nossos encontros.

Guardei a foto em minha carteira com muito carinho, para quem sabe daqui a mais alguns anos a mesma cena possa se repetir, e mais uma vez, estarei lá para acompanhar o ciclo de nossas vidas. 

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