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Olá, bom dia e excelente início de semana a todos.
A coluna Cantinho da Poesia desta segunda é dedicada ao grande poeta Jorge Luis Borges, com a poesia Arte Poética, tradução de Rolando Roque da Silva. 

Arte Poética

Mirar o rio, que é de tempo e água,
E recordar que o tempo é outro rio,
Saber que nos perdemos como o rio
E que passam os rostos como a água.

E sentir que a vigília é outro sonho
Que sonha não sonhar, sentir que a morte,
Que a nossa carne teme, é essa morte
De cada noite, que se chama sonho.

E ver no dia ou ver no ano um símbolo
Desses dias do homem, de seus anos,
E converter o ultraje desses anos
Em uma música, um rumor e um símbolo.

E ver na morte o sonho, e ver no ocaso
Um triste ouro, e assim é a poesia,
Que é imortal e pobre. A poesia
Retorna como a aurora e o ocaso.

Às vezes, pelas tardes, uma face
Nos observa do fundo de um espelho;
A arte deve ser como esse espelho
Que nos revela nossa própria face.

Contam que Ulisses, farto de prodígios,
Chorou de amor ao avistar sua Ítaca
Humilde e verde. A arte é essa Ítaca
De um eterno verdor, não de prodígios.

Também é como o rio interminável
Que passa e fica e que é cristal de um mesmo
Heráclito inconstante que é o mesmo
E é outro, como o rio interminável.

 

 Jorge Luis Borges
Nascido em 24/08/1899, em Buenos Aires, Argentina, Jorge Francisco Isidoro Luis Borges Acevedo foi escritor, poeta, tradutor, crítico literário e ensaísta.
Em 1914, sua família mudou-se para Suíça, onde estudou e de onde viajou para a Espanha.
Borges faleceu em Genebra, Suíça, no dia 14/06/1986, deixando para o mundo vasta obra, e o Prêmio Miguel de Cervantes, dentre outras premiações.

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