Palestra “A Presença da Água em
Guimarães Rosa”, abre os eventos de agosto na Casa das Rosas
Vá se
preparando, reserve espaço na agenda! A Casa das Rosas inicia sua programação
de agosto com o grande escritor Guimarães Rosa, com a palestra “A Presença da
Água em Guimarães Rosa”, na próxima terça-feira, dia 02/08, das 19h às 21h,
atividade realizada via plataforma Zoom.
Guimarães Rosa, com seu conto “A terceira margem do rio”, é o tema
da quinta palestra. Yudith Rosenbaum, docente de literatura brasileira na USP,
fará uma análise do conto, considerado uma pérola rosiana.
A atividade será realizada por meio da plataforma Zoom. A
inscrição compõe todos os encontros do ciclo "Literatura e Água: da
Odisseia às travessias de migrantes e refugiados". Serão emitidos
certificados aos inscritos que participarem de 75% dos encontros.
Serviço:
Palestra “A
Presença da Água em Guimarães Rosa”
Quando: dia
02/08 – terça-feira – das 19h às 21h
Promovida
pela Casa das Rosas
Atividade
gratuita e via plataforma Zoom
Para se
inscrever e participar, acesse o site:
https://poiesis.education1.com.br/publico/inscricao/e9805f420cf6313f17a4d807871d9938
Conto “A terceira margem do rio” de Guimarães Rosa
A
Terceira Margem do Rio João Guimarães Rosa Nosso pai era homem cumpridor,
ordeiro, positivo; e sido assim desde mocinho e menino, pelo que testemunharam
as diversas sensatas pessoas, quando indaguei a informação. Do que eu mesmo me
alembro, ele não figurava mais estúrdio nem mais triste do que os outros,
conhecidos nossos. Só quieto. Nossa mãe era quem regia, e que ralhava no diário
com a gente — minha irmã, meu irmão e eu. Mas se deu que, certo dia, nosso pai
mandou fazer para si uma canoa. Era a sério. Encomendou a canoa especial, de
pau de vinhático, pequena, mal com a tabuinha da popa, como para caber justo o
remador. Mas teve de ser toda fabricada, escolhida forte e arqueada em rijo,
própria para dever durar na água por uns vinte ou trinta anos. Nossa mãe jurou
muito contra a ideia. Seria que, ele, que nessas artes não vadiava, se ia
propor agora para pescarias e caçadas? Nosso pai nada não dizia. Nossa casa, no
tempo, ainda era mais próxima do rio, obra de nem quarto de légua: o rio por aí
se estendendo grande, fundo, calado que sempre. Largo, de não se poder ver a
forma da outra beira. E esquecer não posso, do dia em que a canoa ficou pronta.
Sem alegria nem cuidado, nosso pai encalcou o chapéu e decidiu um adeus para a
gente. Nem falou outras palavras, não pegou matula e trouxa, não fez a alguma recomendação.
Nossa mãe, a gente achou que ela ia esbravejar, mas persistiu somente alva de
pálida, mascou o beiço e bramou: — "Cê vai, ocê fique, você nunca
volte!" Nosso pai suspendeu a resposta. Espiou manso para mim, me acenando
de vir também, por uns passos. Temi a ira de nossa mãe, mas obedeci, de vez de
jeito. O rumo daquilo me animava, chega que um propósito perguntei: —
"Pai, o senhor me leva junto, nessa sua canoa?" Ele só retornou o
olhar em mim, e me botou a bênção, com gesto me mandando para trás. Fiz que
vim, mas ainda virei, na grota do mato, para saber. Nosso pai entrou na canoa e
desamarrou, pelo remar. E a canoa saiu se indo — a sombra dela por igual, feito
um jacaré, comprida longa. Nosso pai não voltou. Ele não tinha ido a nenhuma
parte. Só executava a invenção de se permanecer naqueles espaços do rio, de
meio a meio, sempre dentro da canoa, para dela não saltar, nunca mais. A
estranheza dessa verdade deu para. estarrecer de todo a gente. Aquilo que não
havia, acontecia. Os parentes, vizinhos e conhecidos nossos, se reuniram,
tomaram juntamente conselho. Nossa mãe, vergonhosa, se portou com muita
cordura; por isso, todos pensaram de nosso pai a razão em que não queriam
falar: doideira. Só uns achavam o entanto de poder também ser pagamento de promessa;
ou que, nosso pai, quem sabe, por escrúpulo de estar com alguma feia doença,
que seja, a lepra, se desertava para outra sina de existir, perto e longe de
sua família dele. As vozes das notícias se dando pelas certas pessoas —
passadores, moradores das beiras, até do afastado da outra banda — descrevendo
que nosso pai nunca se surgia a tomar terra, em ponto nem canto, de dia nem de
noite, da forma como cursava no rio, solto solitariamente. Então, pois, nossa
mãe e os aparentados nossos, assentaram: que o mantimento que tivesse, Tassos
Lycurgo www.lycurgo.org ocultado na canoa, se gastava; e, ele, ou desembarcava
e viajava s'embora, para jamais, o que ao menos se condizia mais correto, ou se
arrependia, por uma vez, para casa. No que num engano. Eu mesmo cumpria de
trazer para ele, cada dia, um tanto de comida furtada: a idéia que senti, logo
na primeira noite, quando o pessoal nosso experimentou de acender fogueiras em
beirada do rio, enquanto que, no alumiado delas, se rezava e se chamava.
Depois, no seguinte, apareci, com rapadura, broa de pão, cacho de bananas.
Enxerguei nosso pai, no enfim de uma hora, tão custosa para sobrevir: só assim,
ele no ao-longe, sentado no fundo da canoa, suspendida no liso do rio. Me viu,
não remou para cá, não fez sinal. Mostrei o de comer, depositei num oco de
pedra do barranco, a salvo de bicho mexer e a seco de chuva e orvalho. Isso,
que fiz, e refiz, sempre, tempos a fora. Surpresa que mais tarde tive: que
nossa mãe sabia desse meu encargo, só se encobrindo de não saber; ela mesma
deixava, facilitado, sobra de coisas, para o meu conseguir. Nossa mãe muito não
se demonstrava. Mandou vir o tio nosso, irmão dela, para auxiliar na fazenda e
nos negócios. Mandou vir o mestre, para nós, os meninos. Incumbiu ao padre que um
dia se revestisse, em praia de margem, para esconjurar e clamar a nosso pai o
'dever de desistir da tristonha teima. De outra, por arranjo dela, para medo,
vieram os dois soldados. Tudo o que não valeu de nada. Nosso pai passava ao
largo, avistado ou diluso, cruzando na canoa, sem deixar ninguém se chegar à
pega ou à fala. Mesmo quando foi, não faz muito, dos homens do jornal, que
trouxeram a lancha e tencionavam tirar retrato dele, não venceram: nosso pai se
desaparecia para a outra banda, aproava a canoa no brejão, de léguas, que há,
por entre juncos e mato, e só ele conhecesse, a palmos, a escuridão, daquele. A
gente teve de se acostumar com aquilo. Às penas, que, com aquilo, a gente mesmo
nunca se acostumou, em si, na verdade. Tiro por mim, que, no que queria, e no
que não queria, só com nosso pai me achava: assunto que jogava para trás meus
pensamentos. O severo que era, de não se entender, de maneira nenhuma, como ele
agüentava. De dia e de noite, com sol ou aguaceiros, calor, sereno, e nas
friagens terríveis de meio-do-ano, sem arrumo, só com o chapéu velho na cabeça,
por todas as semanas, e meses, e os anos — sem fazer conta do se-ir do viver.
Não pojava em nenhuma das duas beiras, nem nas ilhas e croas do rio, não pisou
mais em chão nem capim. Por certo, ao menos, que, para dormir seu tanto, ele
fizesse amarração da canoa, em alguma ponta-de-ilha, no esconso. Mas não armava
um foguinho em praia, nem dispunha de sua luz feita, nunca mais riscou um
fósforo. O que consumia de comer, era só um quase; mesmo do que a gente
depositava, no entre as raízes da gameleira, ou na lapinha de pedra do
barranco, ele recolhia pouco, nem o bastável. Não adoecia? E a constante força
dos braços, para ter tento na canoa, resistido, mesmo na demasia das enchentes,
no subimento, aí quando no lanço da correnteza enorme do rio tudo rola o
perigoso, aqueles corpos de bichos mortos e paus-de-árvore descendo — de
espanto de esbarro. E nunca falou mais palavra, com pessoa alguma. Nós, também,
não falávamos mais nele. Só se pensava. Não, de nosso pai não se podia ter
esquecimento; e, se, por um pouco, a gente fazia que esquecia, era só para se
despertar de novo, de repente, com a memória, no passo de outros sobressaltos.
Minha irmã se casou; nossa mãe não quis festa. A gente imaginava nele, quando
se comia uma comida mais gostosa; assim como, no gasalhado da noite, no
desamparo dessas noites de muita chuva, fria, forte, nosso pai só com a mão e
uma cabaça para ir esvaziando a canoa da água do temporal. Às vezes, algum
conhecido Tassos Lycurgo www.lycurgo.org nosso achava que eu ia ficando mais
parecido com nosso pai. Mas eu sabia que ele agora virara cabeludo, barbudo, de
unhas grandes, mal e magro, ficado preto de sol e dos pêlos, com o aspecto de
bicho, conforme quase nu, mesmo dispondo das peças de roupas que a gente de
tempos em tempos fornecia. Nem queria saber de nós; não tinha afeto? Mas, por
afeto mesmo, de respeito, sempre que às vezes me louvavam, por causa de algum
meu bom procedimento, eu falava: — "Foi pai que um dia me ensinou a fazer
assim..."; o que não era o certo, exato; mas, que era mentira por verdade.
Sendo que, se ele não se lembrava mais, nem queria saber da gente, por que,
então, não subia ou descia o rio, para outras paragens, longe, no
não-encontrável? Só ele soubesse. Mas minha irmã teve menino, ela mesma
entestou que queria mostrar para ele o neto. Viemos, todos, no barranco, foi
num dia bonito, minha irmã de vestido branco, que tinha sido o do casamento,
ela erguia nos braços a criancinha, o marido dela segurou, para defender os
dois, o guarda-sol. A gente chamou, esperou. Nosso pai não apareceu. Minha irmã
chorou, nós todos aí choramos, abraçados. Minha irmã se mudou, com o marido,
para longe daqui. Meu irmão resolveu e se foi, para uma cidade. Os tempos mudavam,
no devagar depressa dos tempos. Nossa mãe terminou indo também, de uma vez,
residir com minha irmã, ela estava envelhecida. Eu fiquei aqui, de resto. Eu
nunca podia querer me casar. Eu permaneci, com as bagagens da vida. Nosso pai
carecia de mim, eu sei — na vagação, no rio no ermo — sem dar razão de seu
feito. Seja que, quando eu quis mesmo saber, e firme indaguei, me
diz-que-disseram: que constava que nosso pai, alguma vez, tivesse revelado a
explicação, ao homem que para ele aprontara a canoa. Mas, agora, esse homem já
tinha morrido, ninguém soubesse, fizesse recordação, de nada mais. Só as falsas
conversas, sem senso, como por ocasião, no começo, na vinda das primeiras
cheias do rio, com chuvas que não estiavam, todos temeram o fim-do-mundo,
diziam: que nosso pai fosse o avisado que nem Noé, que, por tanto, a canoa ele
tinha antecipado; pois agora me entrelembro. Meu pai, eu não podia malsinar. E
apontavam já em mim uns primeiros cabelos brancos. Sou homem de tristes
palavras. De que era que eu tinha tanta, tanta culpa? Se o meu pai, sempre
fazendo ausência: e o rio-rio-rio, o rio — pondo perpétuo. Eu sofria já o
começo de velhice — esta vida era só o demoramento. Eu mesmo tinha achaques,
ânsias, cá de baixo, cansaços, perrenguice de reumatismo. E ele? Por quê? Devia
de padecer demais. De tão idoso, não ia, mais dia menos dia, fraquejar do
vigor, deixar que a canoa emborcasse, ou que bubuiasse sem pulso, na levada do
rio, para se despenhar horas abaixo, em tororoma e no tombo da cachoeira,
brava, com o fervimento e morte. Apertava o coração. Ele estava lá, sem a minha
tranqüilidade. Sou o culpado do que nem sei, de dor em aberto, no meu foro.
Soubesse — se as coisas fossem outras. E fui tomando idéia. Sem fazer véspera.
Sou doido? Não. Na nossa casa, a palavra doido não se falava, nunca mais se
falou, os anos todos, não se condenava ninguém de doido. Ninguém é doido. Ou,
então, todos. Só fiz, que fui lá. Com um lenço, para o aceno ser mais. Eu
estava muito no meu sentido. Esperei. Ao por fim, ele apareceu, aí e lá, o
vulto. Estava ali, sentado à popa. Estava ali, de grito. Chamei, umas quantas
vezes. E falei, o que me urgia, jurado e declarado, tive que reforçar a voz: —
"Pai, o senhor está velho, já fez o seu tanto... Agora, o senhor vem, não
carece mais... O senhor vem, e eu, agora mesmo, quando que seja, a ambas
vontades, eu tomo o seu lugar, do senhor, na canoa!..." E, assim dizendo,
meu coração bateu no compasso do mais certo. Tassos Lycurgo www.lycurgo.org Ele
me escutou. Ficou em pé. Manejou remo n'água, proava para cá, concordado. E eu
tremi, profundo, de repente: porque, antes, ele tinha levantado o braço e feito
um saudar de gesto — o primeiro, depois de tamanhos anos decorridos! E eu não
podia... Por pavor, arrepiados os cabelos, corri, fugi, me tirei de lá, num
procedimento desatinado. Porquanto que ele me pareceu vir: da parte de além. E
estou pedindo, pedindo, pedindo um perdão. Sofri o grave frio dos medos,
adoeci. Sei que ninguém soube mais dele. Sou homem, depois desse falimento? Sou
o que não foi, o que vai ficar calado. Sei que agora é tarde, e temo abreviar
com a vida, nos rasos do mundo. Mas, então, ao menos, que, no artigo da morte,
peguem em mim, e me depositem também numa canoinha de nada, nessa água que não
pára, de longas beiras: e, eu, rio abaixo, rio a fora, rio a dentro — o rio.
ROSA, João Guimarães. “A terceira margem do rio”
Ficção completa: volume II. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, p. 409-413.


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