O Mistério do Morro da Penha
Sextou!!! bom dia a todos nesta sexta-feira, dia 15
de julho.
Deixo aqui na página meu conto que figura na edição
deste mês da Revista Digital Conexão Literatura, espero que gostem. Grande
abraço,
Miriam
Para refletir: Tenha fortaleza de ânimo, para resistir a todos os embates e tempestades
do caminho.
Não se iluda: mesmo a estrada do bem está cheia de
tropeços e dificuldades.
Continue, porém!
Não dê ouvidos às pedras colocadas pela inveja, pelo
ciúme, pela intriga.
Marche de cabeça erguida, confiantemente, e vencerá
todos os obstáculos da caminhada.
E, se for ferido, lembre-se de que as cicatrizes
serão luzes que marcarão a sua vitória.
|
A |
pós minha formação no ensino médio, antes de cursar faculdade, me mudei
da capital paulista para Santos, queria tentar a vida sozinho e como sempre
gostei de praia, a cidade litorânea escolhida me ofereceu muitas oportunidades,
sem contar os finais de semana ensolarados à beira-mar!
Mas como não se vive só de curtição,
logo consegui em emprego com carteira assinada, iria acompanhar um especialista
quanto avaliações de moradias em locais de risco.
Maletas prontas com equipamentos, partimos, eu (Flávio Lima) e Renato Oliveira
para vistoriar imóveis no Morro da Penha, cuja história teve início no século
18 com imigrantes portugueses - fato facilmente comprovado pela presença
de alguns chalés de madeira - e mais tarde teve migrantes nordestinos.
Localizado entre os morros do Saboó e do Pacheco, em frente ao Cemitério da
Filosofia, o acesso ao Morro da Penha é feito somente pela Estrada João
Batista, que fica ao lado do referido cemitério, com ponto final no chamado
Largo da Caveira, local onde os primeiros estabelecimentos comerciais do bairro
surgiram.
Estacionamos o fusca, pegamos as maletas e partimos para visitar e conversar
com os primeiros moradores, tínhamos muitas ruas a percorrer.
Depois de duas longas e cansativas semanas entrando e saindo de imóveis para
avaliar o grau de rachaduras e outros problemas que poderiam comprometer a vida
dos moradores, chegamos ao Caminho do Mirante.
-
Hei, psiu, sim, quero falar com vocês! – Aponta para nós uma senhora, que
deveria ter quase 40 anos de idade. Ela abriu o portão e veio até nós
caminhando lentamente.
-
Pois não, logo fui em sua direção, para atender seu chamado.
-
Vocês que têm visitado e falado com a vizinhança, eu sou uma das residentes
mais antigas aqui do Morro da Penha, vim para cá com minha família nos anos 40
e nos instalamos nessa mesma casa, que já sofreu algumas reformas ao longo dos
anos. Mas não é da minha residência que venho falar, e sim quero contar um fato
inusitado que aconteceu com aquela casa – aponta a mulher para um imóvel que
ficava logo mais acima, quase imperceptível do ângulo em que nos encontrávamos.
-
Tudo bem, responde Renato, vamos primeiro verificar a casa, ainda temos várias
averiguações por aqui.
Ao
chegarmos perto, a mesma encontrava-se em ponto estratégico bem escondida entre
a mata, entre rochas, e próxima ao reservatório de água.
- Bem
Flávio, melhor deixarmos essa casa para o final, ainda temos mais a verificar,
além do mais, precisamos descobrir quem é o proprietário, pois me pareceu estar
desabitada.
-
Renato, temos que conversar com aquela doce mulher, pelo jeito dela, deve saber
muita coisa desta redondeza e o paradeiro do proprietário, disse-lhe.
E no
dia seguinte logo cedo Renato foi verificar na Prefeitura o tal imóvel, e para
sua surpresa, estava tudo em dia e registrado com único dono.
Como
tudo isso me intrigava e a Renato também, que mistério rondava aquele morro?
Nem
mal aparecemos e a jovem senhora nos convidou a entrar!
- Eu
sabia que vocês iriam me procurar, foram até lá ver a casa?
-
Sim, como não tem ninguém morando, quem será o dono e como conseguimos a chave?
Indaga Renato.
- Há
sim, pergunta prá lá de difícil, diz ela. Na verdade, ela é habitada,
sabemos que o dono aparece por lá, mas ninguém ainda conseguiu falar com ele.
Vocês querem começar “do início”? Isso seria saber o paradeiro daquele estranho
imóvel.
- Só
peço para que você seja o mais breve possível, diz Renato, pois como já deve
ter visto nosso serviço, temos ainda muitas casas a percorrer.
-
Sim, digo a vocês que esse morro, cujos antepassados foram portugueses que se
instalaram aqui, trouxeram da Europa muitas lendas...
- Como
falei ontem, minha família desembarcou no porto de Santos nos anos 40, eu ainda
não era nascida, sou a caçula de quatro irmãos, todos portugueses, a única
neste país. De um cortiço, meu pai conseguiu progredir e nos mudamos para este
morro. Meu pai e a maioria das famílias antigas ajudaram a construir os imóveis
e assim o Morro da Penha foi sendo habitado e todo o matagal foi dando espaço a
moradias, comércios, escolas e outros. Famílias crescendo com filhos casando e
erguendo seus imóveis também aqui.
- Em
1942, ano em que nasci, no Caminho do Mirante, próximo ao reservatório de água
da antiga companhia The City of Santos Improvements, empresa que comandava a
água e a luz da cidade de Santos naquela época instalou aqui no morro os dois
reservatórios de água que vocês já conhecem no ponto mais alto, para que o
abastecimento pudesse chegar a todos. E próximo a um deles fica aquela bendita
casa, tão solitária das demais e encoberta das vistas e ouvidos alheios. O
imóvel era para ser usado por uma espécie de zelador, mas não deu certo e
mudou-se para lá uma família com o casal e filhos, ia contando a mulher, que já
enchia nossas xícaras com chá.
- Até
agora, disse Renato, não tô vendo nada de mais, disse impaciente e preocupado
com o tempo.
- Há
sim, a família era estranha e não fez amizade com ninguém, viviam entre eles, o
pai saia para trabalhar e voltava sem falar com nenhum vizinho. A casa tinha
uma vantagem de construção em ponto que se amparava do vento e de possível deslizamento
de terra, aproveitando a família para plantar no terreno ao entorno do imóvel,
e tudo isso faziam sem entrosamento com ninguém.
-
Fora isso, o pior ainda estava por vir quando misteriosamente começamos a
ouvir, mesmo estando a família isolada naquela área, insistentes barulhos de
panelas caindo, pratos se quebrando, portas batendo sem que houvesse uma briga
ou discussão se quer ou outro motivo. Coincidência ou não, os sons eram mais
intensos nas madrugadas de lua cheia.
- Eu
sabia que lá vinha essas coisas... Pode parar por aí dona, disse rispidamente
Renato, que se levantou bufando. – Não me venha com essa história de...
-
Quieto, interrompeu a mulher, cale-se e me deixe terminar de contar.
Fiz
um sinal para que ele tivesse um pouco de paciência e mesmo contrariado, Renato
sentou-se novamente e a deixou continuar.
- Os
moradores começaram a ficar preocupados com a estranha vida da família e assim
como os sons começaram, também aos ruídos de objetos e portas, juntou-se a essa
“orquestra de terror” um silvar longo, agudo, parecia nascido do esgar
desesperado de uma garganta em sofrimento, parecendo tenebroso e triste.
- E a
cada lua cheia era sempre a mesma coisa com o agravante de mais barulhos,
aterrorizando toda a vizinhança. Ninguém sabia o que se passava na casa e
instintivamente, os vizinhos mais próximos começaram a trancar portas e
janelas, o que não se fazia. E o burburinho começou por todo o morro: o que
acontecia na casa próxima à City em noites de lua cheia? E a família que se
comportava de maneira estranha ficou ainda mais acentuada e misteriosa.
- Em
mais uma semana de lua cheia os sons foram mais intensos entre gemidos, choro,
e os silvos transfiguraram-se em uivos tão altos e estridentes, que não só a
casa estranha, mas todas ao redor tremeram, deixando ainda mais desesperados os
moradores, que trancados, ainda reforçaram janelas e portas com placas de
madeira. Eu tinha apenas cinco anos de idade, mas me lembro perfeitamente de
tudo isso, já que depois desse episódio não conseguia mais dormir sozinha,
tamanho o pavor disso tudo. Contava ela.
- E
vocês sabem o que aconteceu depois desse último episódio? Pergunta a moradora –
Nada. Veio a calmaria da madrugada, como se nada tivesse acontecido. E o
silêncio também tomou conta da casa no dia seguinte, com as cortinas cerradas e
uma paz de dar inveja!! E nos dias subsequentes a todos aqueles uivos também,
nada e ninguém se via por ali. Novamente o burburinho de que a casa estaria
vazia, de que a família foi embora de madrugada, sem que ninguém os visse
partir.
-
Pelo amor de Deus, diz Renato. – E vocês ficaram no achismo? Ninguém foi até a
casa para ver o que tinha acontecido? Isso é ridículo; aliás, toda essa
história. Renato sem paciência levantou-se, foi quando a mulher falou mais
alto...
- Meu
caro, e você acha que toda aquela gente não foi até a casa? Sim, juntaram-se os
moradores com paus e pedras e mesmo todos morrendo de medo foram até lá,
cercaram a casa e chamaram pelos donos. Foram chamando e se aproximando do
imóvel até que, de repente, as cortinas se abriram e alguém gritou de dentro da
casa mandando que todos fossem embora. Era uma voz grossa e firme. Rapidamente
o grupo de moradores foi dispersando até que todos retornaram a suas casas e
desde esse dia não se viu mais esse vulto de homem alto e forte.
-
Pelo o que sei sobre essa família: um casal e seus sete filhos todos homens
vocês sabem o que acontece com o sétimo filho, não é? O último sempre carrega
uma maldição. Sim, isso mesmo o que está escrito em seus rostos, os moradores
conviveram com um lobisomem!
Em casa, o assunto não saia de minha cabeça e tudo o que dona Eulália nos
contou. Como pode em 1970, um lobisomem?
No dia seguinte retornei sozinho ao Morro da Penha. Tinha ainda muitas ruas a
percorrer, deixei a lenda de lado e me concentrei no serviço, tocando as
vistorias.
Já eram quase sete da noite quando finalizei o último imóvel do dia. As mãos
estavam trêmulas, era a tremenda vontade de tentar entrar na casa e quando dei
por mim, parado em frente ao imóvel.
O medo tomou
conta do meu ser, mas mesmo assim, prossegui, andando quase parando. E ao
esticar o braço, abri o portão, entrei e fui até a porta que ao girar a
maçaneta, estava aberta, entrei bem devagar. Era uma casa simples, com móveis
antigos fui andando até os quartos, banheiro e tudo me pareceu normal como em
todas as casas.
Já estava indo embora
quando escutei passos e coisas quebrando como pratos e outras louças. Foi
quando me dei conta de que vinham por debaixo da casa, sim, em algum canto
haveria um alçapão para o porão, mas nem deu tempo e logo ao final da sala
vinha em minha direção um imenso homem com dois metros de altura e muito forte.
Veio rápido, me derrubou com um soco, se debruçando sobre o meu corpo. Ao som
de um apito, ele saiu de cima e me pegou no colo, me levando para o porão.
Ao acordar, estava
amarrado e amordaçado e vi que Renato estava do mesmo jeito, ao meu lado.
Descendo as escadas a mulher que nos conduziu ao imóvel, que contou toda a
história ela vinha em nossa direção.
- Como faço sempre,
vocês não ficarão sem saber o que está a acontecer. Curiosos e fáceis de
enganar com aquela estúpida lenda do lobisomem, da família e dos moradores,
vocês e todos os outros que acreditaram na história e vieram tentar encontrar
algum vestígio da besta serão enviados para fora do país, pois são jovens e
saudáveis com órgãos que valem muito. Nada do que contei faz sentido e desta
forma não levanto suspeitas, ninguém sequer sabe o que acontece aqui nessa
residência já que moro nesta casa. A outra casa vive minha avó com muita idade,
que não sabe de nada.
- As pessoas
acreditam em cada história e são fáceis de ser manipuladas, amanhã vocês já
estarão bem longe e ninguém saberá o que houve.
- Bem, agora me
despeço de vocês, tenham boa noite e, a propósito, a lua cheia está linda lá
fora, cuidado com o lobisomem!!!
Rindo, a mulher vai
embora junto com mais dois homens, deixando Flávio e Renato sob os cuidados do
desengonçado com dois metros, um pobre coitado com problemas mentais que nunca
fez mal algum a ninguém, apenas tomava conta para que não fugissem de seu
destino.
OBS: O conto se baseia na lenda do Lobisomem no Morro da Penha, que faz parte da “Memória Santista”, uma espécie de almanaque regional dos anos 70.


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