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Conto: Déjá-vu


Olá, bom dia.
Deixo para esta quarta-feira o meu conto, que faz parte da edição deste mês da Revista Conexão Literatura, espero que gostem, abraços.


M
 áscaras, máscaras e muitas máscaras!
Em menos de uma semana nunca vi tanto desse aparato por aqui.
Onde moro é tecnicamente um lugar sossegado, e nestes dias tornou-se ponto de gritaria, histerismo e vizinhos que corriam a encher a carroça com utensílios de mudança, tudo isso marcou os dias que antecediam o maior evento do ano, que marcaria de vez a passagem do Homem no planeta terra, assim como também o ano de 1910 terminaria com todos os seres, pois se aproximava o fim do mundo!
E esse fim de tudo veio impresso, em letras grandes e anunciado no Jornal do Brasil, que ocorreria na madrugada do dia 18 para 19 de maio. O periódico, assim como em tantos outros por essa vastidão de mundo trouxe pânico coletivo à população que em tudo acreditava.
Até meu melhor amigo Gabriel veio ter comigo uma despedida, dizendo que seus pais também deixariam o Morro do Castelo para se abrigarem em outro local mais confiável, dizia ele.
- Mas para aonde vão, afinal? Seu pai comentou?
- Não sei Rodolfo, ele está desnorteado, assim como também todas essas pessoas que não param de descer o morro com suas carroças cheias. O medo leva o ser humano à loucura, não é mesmo?
- Sim, meu amigo, creio que as pessoas se acostumam com um ritmo de vida, desde que nascem até quando morrem, bem velhinhos, sempre do mesmo modo, seguindo horários para tudo e a mesmice da rotina, e não se dão conta, pois acreditam que assim estão seguros e livres de qualquer ameaça, não se prevenindo em que tudo pode acontecer, basta estar vivo!
- Quanta filosofia! – Responde Gabriel.
- Sim, são as letras, os livros que me ensinam a pensar, saber e questionar, diz Rodolfo, que guardava em baixo do braço um exemplar de Euclides da Cunha, “Os sertões”, grande novidade na literatura naquela época, e também até os dias de hoje um importante livro, não é mesmo querido leitor?
- Gabriel! – grita de longe o pai, que arrumara a carroça e vinha descendo o morro. – Meu filho, onde estás?
- Venha comigo, grita Rodolfo, que pega na mão do amigo e o puxa para se esconderem do pai dele.
- Não posso ir embora sem esse moleque, grita o pai à esposa, que agarrada às filhas chorava sem parar, convencendo o marido que Gabriel era esperto e logo estaria junto deles. E assim prosseguiram com o “veículo” cheio de quinquilharia, panelas batendo ao fundo e roupas que saiam das malas.
- Ufa, diz Gabriel, você me tirou dessa empreitada! Eles não devem ter ido muito longe, meu pai não queria deixar a casa, mas minha mãe movida de desespero insistiu muito para que partissem, já que viu os vizinhos fazerem as trouxas e ela então se empolgou, tomou coragem.
- Em casa foi ao contrário, retruca Rodolfo, meu pai é quem falou em partir, mas minha mãe logo o fez mudar de ideia, afirmando que se for mesmo o fim do mundo, de nada adiantará essa correria de mudar sabe-se lá para onde.
E os meninos Rodolfo e Gabriel acompanhavam todo o movimento de vai e vem de pessoas que desciam e subiam sem saber ao certo o que teriam de fazer.
- Olha Rodolfo, tá vendo aquilo? É um aproveitador da situação? – diz o amigo.
- Sim, fala Rodolfo, tudo indica que é isso mesmo que você falou, vamos lá perto conferir.





E os dois adolescentes se aproximam de um homem cheio de malas, que abertas, ofereciam segurança à população. E assim o vendedor de ilusão ficou rodeado de moradores, que aflitos compravam máscaras para escapar dos gases; comprimidos que prometiam combater o veneno, garrafas de oxigênio e até guarda-chuva como proteção. Sem dúvida o tal homem era um charlatão se aproveitando da situação.
E quando bateu meia-noite no relógio que marcava a praça principal do morro, o prefeito grita para um dos companheiros para que subisse ao Observatório do Castelo para acompanhar observações ali feitas, durante o prazo da conjunção no aspecto do céu.
Nessa altura as ruas e praia estavam cheias de uma multidão que se sentia impotente e temerosa com a situação.
- Senhor prefeito, estou vendo algo, ele está se aproximando! – grita o homem de lá de cima do morro e o temor toma conta da situação. Todos choravam ao mesmo tempo ao apontar para a enorme luz que agora se deixava ver no céu estrelado, se aproximando a 70,6 km/s, um espetáculo, que mesmo espalhando terror, as pessoas fechavam um olho e a curiosidade deixava o outro bem aberto, tamanha era a beleza daquele “maligno corpo celeste”.
E a enorme cauda do cometa Halley media o dobro da distância entre a Terra e o Sol. Seu núcleo tinha um diâmetro entre 30 a 40 quilômetros. O cometa, que já vinha sendo observado por cientistas em 1909, passou a ser visto a olho nu no ano seguinte.
Assim como despontou no céu, o cometa foi embora sem que ninguém morresse, pois sua passagem não poderia envenenar, já que diziam que a longa cauda varreria nosso planeta por conta de seus gases mortais que devastariam a Terra e a pele das pessoas seria dissolvida.
Não se sabe quem começou com todo esse boato, que ganhou vulto em todo o mundo, e que ficou mais evidenciado por conta de charlatões que se enriqueceram com a venda dos produtos de proteção.
E tudo isso porque a descoberta científica sobre a composição química dos gases motivou uma serie de supertições e especulações sobre o cometa. E mesmo tentativas para explicar que a sua passagem não causaria nenhum dano, houve quem se aproveitasse da situação com vendas de máscaras, entre outros produtos mencionados ao longo da história.
Ao fim do espetáculo o clima já era outro, de felicidade, pois a vida continua! Os amigos, assim como a multidão, gritavam de alegria porque nada de ruim aconteceu com a passagem do cometa Halley! E o resto da madrugada foi de comemoração, de brindes até o sol raiar!
Gabriel, que se manteve em pé todo instante, viu Rodolfo dormindo em um canto da praia e foi acordar o amigo.
- Acorda, levanta, vamos! – dizia ele cutucando o braço de Rodolfo, que respondia com empurrões.
- ACORDA, RODOLFO! Grita Gabriel.
E Rodolfo acorda abruptamente, atordoado.
- Estamos vivos? Nada aconteceu conosco?
- Que papo é esse? Claro que nada aconteceu, acho que você continua a sonhar. – Diz Gabriel.
- E nós estivemos prestes a morrer! – Retruca Rodolfo.
- Nada disso, olha só – e Gabriel aponta para o livro em que Rodolfo se debruçara e pegou no sono, você ficou lendo e adormeceu, só isso.
Rodolfo esfrega os olhos e vê a ilustração do cometa Halley ao cruzar o céu da terra. – Mas foi tão real. E hoje é 19 de maio, pelas minhas contas, há exatos 110 anos ao grande acontecimento, não acha muita coincidência?
- Não, acho que você “mergulhou” fundo na leitura e sonhou com tudo isso. E ler é isso, é ir fundo, imaginar, ir além dos horizontes, pois só a leitura consegue nos transportar para tão longe assim, diz Gabriel.
- É você tem razão, mas ainda digo que foi tudo muito real, retruca Rodolfo.
- Vamos embora que já está ficando tarde. Vem, toma - e Gabriel bate com a máscara facial na barriga do amigo.
- E tudo começou com as máscaras! – diz Rodolfo.
- Sim, a situação a que estamos nos deixa essa necessidade, pois ainda não podemos andar sem elas, não agora que o pico do coronavírus ainda está por vir, acrescenta Gabriel.
- É, até engraçado, pois de minha leitura aos dias de hoje passaram-se 110 anos da passagem do cometa, e assim como o Halley naquela ocasião trouxe pânico pela ignorância da população da época, continuamos no mesmo nível, ou seja, as pessoas não evoluíram quase nada, fala Rodolfo.
E os amigos deixam a Biblioteca Nacional na Avenida Rio Branco e foram caminhando com distanciamento e as máscaras faciais.  

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