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Conto: Médica da Alma

Bom dia,  deixo minha história que faz parte da Revista Conexão Literatura deste mês, espero que gostem do conto.
Abraços, Míriam.


           
            Todo sábado eu passava em frente daquela casa mal cuidada e velha da Avenida Francisco Glicério, nas proximidades da Avenida Senador Pinheiro Machado, canal 1, do bairro Pompéia. O sobrado, porém, não fazia parte de minha rotina casa-serviço até ao Centro de Santos. Mas a casa em questão me chamava atenção sempre que eu passava em frente, por estar entre dois prédios e pela linda árvore que emoldurava a paisagem, mesmo sendo tão mal cuidada.
            Outra coisa também era a quantidade de gatos que desfilavam pelo corredor e uns até ousavam ficar no portão, bem a mostra de quem passasse por ali. Sinistro cenário que não se via ninguém perambular ou estar à janela, nada, nenhum ser humano se avistava ali.
            Até cheguei a pensar que o lugar era mal assombrado, que eu poderia avistar algo sobrenatural, mas nada, o reflexo disso seria que o imóvel ficou esquecido no tempo. E a curiosidade do nada existir ali cresceu no meu íntimo. E nesses dias em que você não tem muito a fazer, resolvi investir por aquelas bandas para averiguar.
           
Numa tarde chuvosa que quase não havia ninguém pelas ruas, eu voltava de um curso e resolvi mudar meu trajeto justamente para passar pela calçada da casa. Parei em frente ao portão grande de ferro e ousei, muito trêmula, mexer na maçaneta, que para minha surpresa, estava aberta. Respirei fundo abri o portão e entrei. Com o coração batendo forte fui caminhando bem devagar e em minha mente ia formulando uma desculpa esfarrapada a falar caso os donos do lugar aparecessem. Passei da porta de entrada e fui até o final do corredor olhando aquela enorme casa de pintura cinza suja do tempo, com pontos de bolor, sem revestimento, os muros sujos e na cor cinza também. Vi o que me pareceu ser área de serviço, com varais estendidos de ponta a ponta, tanque de louça bege, baldes espalhados, mas nada, além disso.
            Foi quando escutei um barulho de janela abrir, e uma voz feminina perguntar:
            - Moça, tá fazendo o que aqui?
            Olhei para cima e vi uma senhora com os braços abaixados ao parapeito.
            Com a voz engasgada e vermelha de vergonha respondi uma bobeira, que até fiquei passada: - me falaram que nesta casa mora uma cartomante sensacional, então vim conferir.
            - Não seria benzedeira? Perguntou a mulher.
            - Me falaram cartomante, repeti toda sem graça.
            A mulher riu. Vou descer, me espere aí.
            Meu Deus, e agora? Que idiotice essa minha, que ridícula pensar que descobriria alguma coisa entrando assim na propriedade dos outros.  
            - As pessoas já se esqueceram dela, difícil vir alguém aqui procurá-la, disse a mulher. – Me chamo Clarice moro aqui com mamãe, em idade bem avançada. Anos atrás ela era bem procurada por pessoas que tinham problemas de saúde, uma espécie de benzedeira, como ficou conhecida, receitava ervas, chás. Mas, com o tempo, ela foi diminuindo o atendimento devido à própria doença até que esporadicamente vinha alguém em seu auxílio, até ninguém mais lembrar-se dela.
            - Bem, eu estou com problema com meu namorado, por isso vim consultar o que me falaram ser cartomante. Clarice riu, mas me convidou a entrar. – Venha conhecer minha mãe, ela gostará de conversar e só de saber que alguém ainda a procura, ficará muito feliz, disse ela.
            E assim entrei com Clarice até a sala para conhecer dona Nina. Ao caminhar pelo cômodo observei a pintura das paredes e móveis antigos, mas tudo limpo e em bom estado de conservação.
            - Mãe, esta jovem veio vê-la, quer uma consulta, disse Clarice.
             Dona Nina, pela aparência deveria ter uns 90 anos. Ela estendeu a mão para que eu pudesse cumprimentá-la.
            - Ela fitou-me nos olhos e apertou minha mão, depois pediu a outra e segurou as duas rindo. – Mesmo vindo até aqui por achar que a casa era mal assombrada, minha filha, mas eu gostei de você. Tem bom coração, mas se deixa levar pelo o que os outros falam. Coragem tem, já que entrou e foi vasculhando, disse dona Nina.
            - Bem, eu, respondi com voz trêmula e antes de ser interrompida, disse que estava envergonhada por ter ido até lá bisbilhotar.
            - Não se envergonhe, disse sorrindo Nina. Veja as fotos espalhadas na parede, disse a senhora. Estou na Cidade há quase 70 anos. Vim com dois anos da Espanha com meus pais, e nos instalamos em Curitiba, onde inicie este ofício de curar junto de outras mulheres. Nós curandeiras ou benzedeiras aplicamos a sabedoria ancestral em chás de ervas, banhos e benzimentos com rezas, são práticas de quem tem o dom consegue minorar muitos males. Naquela época éramos muito procuradas pelas pessoas que não tinham muitos recursos financeiros, que hoje vão se consultar no SUS.
            Notei que dona Nina, além de boa aparência naquela idade tinha também clareza na mente e se expressava muito bem.
            - Se você soubesse quantos atendimentos para curar quebranto, bucho virado e espinhela caída eu já fiz, ficaria de queixo caído, completou a senhora.
            E assim ela foi contando toda a sua história, seu rico passado ajudando a quem a procurasse. Foi uma tarde gostosa e não vi a hora passar.
            - Acho que já está na hora de você partir, não é mesmo? Indagou Nina. – Venha me dar um abraço, disse a senhora, e eu caminhei até ela e a abracei, e Nina me falou alguma coisa junto ao meu ouvido que mal consegui escutar.
            Agradeci pela boa conversa e tarde maravilhosa e parti.
Eis que, no dia seguinte, senti necessidade de retornar ao local para entender o que dona Nina havia me sussurrado.
Caminhei até o imóvel, e toquei a campainha, mas ninguém atendeu. Bati palmas e nada. Mesmo assim, novamente mexi na maçaneta e o portão se abriu. Caminhei pelo corredor de fora da casa e chamei pelo nome das duas, mas desta vez, Clarice não veio à janela.   
             Fiquei surpresa ao abrir a porta e a casa estar vazia, sem móveis, quadros e nada mais no local, somente muita sujeira, mofo e mau cheiro, pois o imóvel sofrera invasão de moradores de rua.
            Atravessei a avenida e fiquei olhando a casa do outro lado sem entender. Afinal, só havia passado um dia!
            E me veio à memória as últimas palavras de dona Nina sussurrando em meu ouvido:
            - Chegou a sua hora de partir. Nós também não estamos mais neste plano há tempos. Aceite o seu destino, você já passou tempo demais aqui e precisa ir embora.
            E de repente, uma dor forte em meu peito ativou a minha mente. Vi que realmente a casa de Clarice e dona Nina estava desabitada e com placas de vende-se. Num ritmo acelerado as duas foram se despedindo de mim e toda a minha vida foi sendo passada como se estivesse rebobinando...
... Vi que estava numa festa com os colegas do serviço e depois fui embora sozinha. Despedi-me de meus amigos no estacionamento e entrei em meu carro. Seguia sossegadamente quando parei num semáforo. Olhei o relógio, eram duas horas da madrugada e estava deserto. Um pensamento de seguir em frente mesmo com o sinal ainda vermelho foi tardio, pois encostou a janela do carro um homem armado, que gritou para que eu passasse minha bolsa. Tremi de susto e medo e ao passar a bolsa, buzinei sem querer, motivo que o fez atirar e correr. Vi que minha blusa foi mudando de cor, até que um carro da polícia encosta ao lado do meu e os homens vêm em socorro. Vi depois que estava num hospital e os médicos tentando me reanimar, sem êxito.
            Neste momento, me encostei a um poste e a dor no peito começou novamente. Respirava já com dificuldade e toda a paisagem da rua foi ficando embaçada, apenas conseguia enxergar a casa de dona Nina.
Nos poucos segundos que ainda restavam, vi, pela última vez, a simpática dona Nina acenar para mim e balbuciando consegui agradecer por seus serviços no astral.
- Obrigada Nina, jamais me esquecerei de você, a benzedeira, curandeira e também a médica da alma!
E todo o meu ser simplesmente desapareceu do plano terrestre, graças à senhora, consegui subir aos céus!    

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