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A Graça, poesia de Alexandre Herculano

Bom dia amigos, hoje é segunda e dia da coluna Cantinho da Poesia. Para hoje, uma poesia do Romantismo.

Que harmonia suave
É esta, que na mente
Eu sinto murmurar,
Ora profunda e grave,
Ora meiga e cadente,
Ora que faz chorar?
Porque da morte a sombra,
Que para mim em tudo
Negra se reproduz,
Se aclara, e desassombra
Seu gesto carrancudo,
Banhada em branda luz?
Porque no coração
Não sinto pesar tanto
O férreo pé da dor,
E o hino da oração,
Em vez de irado canto,
Me pede íntimo ardor?

És tu, meu anjo, cuja voz divina
Vem consolar a solidão do enfermo,
E a contemplar com placidez o ensina
De curta vida o derradeiro termo?

Oh, sim!, és tu, que na infantil idade,.
Da aurora à frouxa luz,
Me dizias: «Acorda, inocentinho,
Faz o sinal da Cruz.»
És tu, que eu via em sonhos, nesses anos
De inda puro sonhar,
Em nuvem d'ouro e púrpura descendo
Coas roupas a alvejar.
És tu, és tu!, que ao pôr do Sol, na veiga,
Junto ao bosque fremente,
Me contavas mistérios, harmonias
Dos Céus, do mar dormente.
És tu, és tu!, que, lá, nesta alma absorta
Modulavas o canto,
Que de noite, ao luar, sozinho erguia
Ao Deus três vezes santo.
És tu, que eu esqueci na idade ardente
Das paixões juvenis,
E que voltas a mim, sincero amigo,
Quando sou infeliz.
Sinta a tua voz de novo,
Que me revoca a Deus:
Inspira-me a esperança,
Que te seguiu dos Céus!...

Alexandre Herculano, in 'Antologia Poética' 

Alexandre Herculano de Carvalho e Araújo
Escritor, historiador, jornalista e poeta português da Era do Romantismo. O autor nasceu no dia 28.03.1810, em Lisboa, Portugal e faleceu em 13.09.1877, em Santarém Portugal.
Baseado no seu conhecimento sobre a Idade Média peninsular escreveu prosa de ficção de fundo histórico: “O Bobo” (1843), cuja ação transcorre na época da instauração da monarquia portuguesa em 1128, “Monasticon”, título geral que reúne dois romances de assunto monástico – “Eurico, o presbítero” (1844), sua obra mais importante, que tem como fundo a invasão de Portugal pelos árabes no século VIII, e o “Monge de Cister” (1848), cuja ação se passa no fim do século XVI.
Alexandre Herculano se destacou principalmente como historiador. Escreveu “História de Portugal” (1853), desde o começo da monarquia até o fim do reinado de Afonso III, e “História da Origem e Estabelecimento da Inquisição em Portugal” (1859).
Participou dos trabalhos de redação do Código Civil, tendo defendido o casamento civil em lugar do religioso, o que causou polêmicas junto ao clero. Em 1866 casa-se e retira-se para a sua quinta de Val-de-Lobos, próxima de Santarém, onde se dedica a seus escritos literários. Só saiu de lá para apoiar os jovens escritores quando foram proibidas as Conferências do Cassino Lisbonense (1871).
Alexandre Herculano faleceu em Santarém, no dia 13 de setembro de 1877. Seus restos mortais encontram-se sepultados no Mosteiro dos Jerônimos, em Lisboa. 

Comentários

Anônimo disse…
Quais as características do poema 'a graça'? de Alexandre herculano
miriam santiago disse…
Olá Rosilene Ferreira, obrigada por participar da minhá página. Sobre a sua pergunta, Alexandre Herculano foi um dos autores responsáveis pela introdução do Romantismo em Portugal, desenvolvendo por meio de sua importante obra, temas que abrangem a marcante influência religiosa, como podemos perceber no poema em questão. Obrigada, grande abraço e até mais.

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