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Procura-se
Conto da edição de maio da 
Revista Conexão Literatura

Olá pessoal, que o dia hoje seja excelente para todos nós.
“Procura-se” faz parte da edição de maio da Revista Conexão Literatura e disponibilizo aqui na página, espero que gostem.
Grande abraço,
Míriam

         E foi entre estações indo e vindo de Lucca para Firenze que eu a vi sentada em um banco na Firenze Campo di Marte. Quando o trem parou fiquei observando-a da janela e aquele rosto triste e solitário em meio a tantas pessoas que caminhavam apressadamente para embarcar, me chamou a atenção.
         E digo mais a vocês, meus queridos leitores, ela não tinha nada de excepcional, vestia uma calça justa preta, um sapato também negro baixo e uma camisa branca. De cabelos louros à nuca, o rostinho triste me deixou perplexo a me perguntar se alguma coisa não ia bem com a vida dela, que nem por um piscar de olhos ousou levantar o olhar fixo do chão. E foi essa a impressão que tive daquela garota, sem ao menos saber quem era. E lentamente o trem foi deixando a estação. Eu com o rosto grudado ao vidro da janela, ainda pude ver, mesmo com os últimos raios de sol que batiam em meus olhos, que ela permaneceu na mesma posição.
        
O trem tomou prumo e em seu balanço seguimos para a próxima estação. Meu coração e meu pensamento, contudo, inquietos só tinham uma coisa em mente, a imagem da moça desconhecida, e eu me questionava quem seria ela.
Ao anunciar que chegávamos à Santa Maria Novella, nome da estação ferroviária de Firenze, senti um vazio em meu coração, e assim desci em meu destino, era mais um em meio a tantas malas e pessoas que subiam e desciam dos trens e caminhei lentamente apenas com uma pasta me esquivando da fumaça mal cheirosa dos cigarros. E a estação foi ficando para trás, atravessei a rua e vi que o Burger King estava lotado e passei reto, comeria mais tarde e parti direto ao hotel, próximo à estação.
         Em férias na Itália, escolhi Firenze por ser uma cidade ricamente cultural e histórica, mas foi em Lucca ao visitar o Puccini Museum que resolvi fazer um curso rápido sobre o grande compositor, então, por três dias pegaria o trem para lá, às 12 horas.
         Sentei-me no mesmo lugar do dia anterior, rosto colocado à janela e o coração saltando à boca, pois o trem começara a diminuir ao entrar na estação Firenze Campo di Marte. Para saciar minha angústia, lá estava ela sentada no mesmo banco, cabisbaixa e trajando a mesma roupa. Rapidamente peguei o celular e registrei uma foto dela. A moça não percebeu que foi clicada, pois seu olhar parado e fixo refletiam apenas solidão e tristeza. Quando o trem novamente começa a movimentar-se, para minha surpresa, ela ergue o rosto e seus olhos encontram os meus como se fossem puxados por um ímã. E a sedução de olhares foi interrompida com o distanciamento do trem, que seguiu destino.
         - Ela me viu e me seguiu com os olhos, como se quisesse falar algo! – Murmurei em pensamento. E desci radiante em Lucca.
         No último dia do curso o que realmente me importava era ver a moça na estação. E novamente lá estava ela, no mesmo banco, com a mesma roupa e cabisbaixa. Desta vez, não hesitei, ao parar o trem me levantei e desci, pois precisava conhecê-la. Para atravessar ao outro lado da estação era possível por um túnel subterrâneo e caminhei o mais rápido que pude. Subindo ofegante e nervoso os degraus, para a minha surpresa, eis que o banco estava vazio.
         - Não! Meu grito chamou a atenção das pessoas. – Nenhum trem chegou deste lado, para onde ela foi? E comecei a andar por ali, a vasculhar cada pedaço do local. Com o passo rápido fui procurá-la pelas imediações, e nada, ela simplesmente desapareceu! Comecei a mostrar a foto do celular e a perguntar sobre a moça, mas ninguém a tinha visto caminhando por ali. Perguntei para alguns taxistas, no ponto de ônibus e nada. Frustrado, retornei à estação, pegaria o trem para Firenze, deixando o curso de lado.
        
No hotel, meu pensamento me consumia e minha cabeça não parava de pensar na garota. Minha agitação e nervoso me tirou o sono. Fui até a recepção pedir ajuda na impressão da foto; fiz um cartaz: procura-se.
         Retornei no mesmo horário na estação decidido a encontrá-la. Ao descer do trem, e ver o banco vazio, perambulei na ânsia de vê-la chegar, mas nada aconteceu. Depois de duas horas de espera, resolvi colocar o cartaz em uma das pilastras da estação e retornei ao banco. Com os olhos fixos no vazio da solidão, uma jovem se aproxima e senta-se a meu lado. Ela me toca o braço, me tirando do transe.
         - Ei, vi que você colou um cartaz - disse ela.
         - E então, você conhece a jovem da foto? – Perguntei-lhe com um sorriso no rosto.
         - Bem, é justamente sobre isso que vim perguntar-lhe, agora sei que você procura por uma mulher, disse ela.
         - Como assim, a foto, você não viu a garota nela? – Questionei-lhe, já com outro tom de voz.
         - Não tem ninguém no cartaz além deste banco, disse ela levantando-se e partindo chateada pela grosseria.
         Corri desesperadamente sem acreditar numa palavra se quer do que ouvi. Ao me aproximar da pilastra, esfreguei meus olhos e me amparei para não cair ao chão, pois a jovem tinha razão, não havia nada além do banco na foto. Arranquei o cartaz da parede e ao me virar, a moça estava atrás de mim e fez um sinal para que eu me sentasse.
         - Quando vi que você se levantou correndo vim para cá, pois sabia que você ficaria perdido, disse ela.
         - Não compreendo, e procurei no celular a foto da moça do banco. – Aqui está, veja e mostrei-lhe a foto.
         - Veja você com calma, disse ela, não tem nada além do banco, entregando-me o telefone.
         E ela tinha razão, o banco estava vazio.
         - Tudo não passou de ilusão, disse-me ela. – Nossa mente nos prega peças quando nos sentimos solitários e frágeis e a ânsia em conhecermos outra pessoa, em nos relacionarmos pode ter ocasionado tudo isso. Acho que o seu íntimo se projetou em alguém solitário como você. – Disse a moça, levantando-se para partir.
         - Por favor, vamos conversar mais um pouco, insisti.
         - Tenho compromisso e preciso pegar o trem para Firenze. – Mas se você quiser me acompanhar...
        
Retornei com ela. Fomos conversando e aos poucos me acalmei. Contei-lhe sobre meu problema em ter amigos, em me relacionar e ela me compreendeu. Por compaixão ou não, acabamos fazendo amizade e até o término de minhas férias nos vimos muitas vezes. Como sou estudioso em arte, Vittoria me levou a um lugar fantástico, o Palácio Pitti, o mais imponente da cidade, que contém museus e galerias de grande interesse e o belíssimo Jardim de Boboli, exemplo típico de jardim à italiana. E assim, a intelectual e graciosa jovem foi me apresentando as belezas de sua cidade, que me encantaram por completo, tanto a alma como o coração.
         De volta ao Brasil, a confiança em mim mesmo tinha melhorado, não por completo, como eu gostaria, mas me sentindo melhor a tal ponto, que deixei com Vittoria um convite por escrito num lindo cartão a sua vinda ao Brasil nas férias, proposta que ela felicíssima não conseguiu rejeitar.
E vocês devem estar se perguntando que fim levou a foto, não é? Eu a enviei para o laboratório de revelação para enquadrá-la.
         Peguei um martelo e prego e levei o quadrinho para meu quarto. Desembrulhei o pacote com cuidado e o pendurei. Ao olhar para a foto, um grito agudo saiu de minha garganta, assim como deixei cair ao chão o martelo. Para a minha surpresa, o banco da estação de trem não estava vazio.
Fui escorregando pela parede, ao perceber, que era eu sentado nele. 

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