Pular para o conteúdo principal
Mundo verde
Conto comemora o Dia Mundial do Meio Ambiente

A
inda não eram sete horas quando meu filho de 15 anos, Miguel, me acorda excitadíssimo pela comemoração da data, mal tomara o café da manhã direito tal era a pressa para deixar a casa.
Tomei um banho rapidamente e na cozinha, minha mulher Alice já aguardava pronta. Os dois esperavam apenas que eu comesse para partirmos, então “engoli” uma torrada e uma xícara de café com leite, pois não havia tempo para mais nada.
  - Pai, depois que você aderiu à cápsula do relaxamento não consegue mais acordar antes das oito horas, é isso?
- Estou sentindo um tom de crítica em sua pergunta ou me enganei, questiona Arthur.
- Me desculpe, não queria ser rude, mas hoje é um dia sagrado, você sabe, ainda mais para nós.
- Sim, meu filho, você está certo, mas é que depois que comecei com o tratamento não sinto mais as fortes dores de cabeça de longos anos, a descoberta dessas cápsulas foi a melhor invenção! – Riu Arthur, revigorado do “santo remédio”, feito de ervas, mel e outras especiarias, que valia cada centavo de seu alto valor de mercado. Por não se comercializar em larga escala no Brasil pelo poder aquisitivo da população, as vendas foram ampliadas para os Estados Unidos e Europa. A cápsula do relaxamento era produzida no Amazonas, que juntamente com o nordeste, deixaram de pertencer ao Brasil, tornando-se países latinos independentes e ricamente sustentáveis. A ruptura dessas regiões com o restante dos estados já vinha sendo discutida há anos pelo sul do país, sendo concretizada em 2025. Em quinze anos o Amazonas foi o país latino do extremo norte, como ficou conhecida a região, que mais cresceu em tecnologia e associado à Bahia no nordeste que a cada ano ganhava espaço em robótica, ambos se tornaram líderes em biotecnologia, nanotecnologia, robótica, cosméticos e medicina alternativa.
E a família de Arthur pegou o trem leve sobre trilhos (VLT) que depois de muitos inquéritos, conseguiu novas linhas aéreas das antigas terrestres com velocidades até melhores, e assim em questão de minutos compareceram à usina de reciclagem de Arthur, construída com a esposa, empreendimento que tornou a reciclagem do “lixo limpo” cada vez mais em alta, separando e transformando o lixo descartado pela população e ampliando frentes de trabalho, gerando renda e despoluindo ruas e bairros, criando conceitos da importância da separação do lixo orgânico do inorgânico. O negócio ganhou êxito e mais usinas foram entrando no mercado criando uma rede de inovação, já que outras matérias-primas foram criadas com a reutilização de vidros, papel, baterias e eletrônicos. O plástico já abolido desde 2027 fez crescer novamente a utilização do vidro tomando lugar das garrafas PET, entre outros. E assim o mercado da reciclagem diminuiu o número de desemprego, adequando profissionais ora obsoletos a nova vida em 2040.




E o dia em questão anunciado no início do texto, que passou a ser feriado mundial é 5 de junho, Dia do Meio Ambiente, enfim, depois de muitas discussões sobre vários aspectos sobre o futuro do planeta, promovidos pela adolescente sueca Greta Thunberg em 2020, mais e mais movimentos foram iniciados, até que o meio ambiente, finalmente, começou a ser visto com outros olhos.
Na usina da família de Arthur os funcionários, amigos e empresários aguardavam por eles, para as comemorações, com duração de uma semana, com premiações, atividades, palestras e outras ações.
Também além de todos os benefícios proporcionados pelo lixo reciclável, ainda por meio da biodigestão anaeróbica dos resíduos orgânicos os países mundo afora passaram a produzir biogás ou biometano gerando energia elétrica, deixando de utilizar a água para este processo como também utilizado em veículos e na indústria. Em 20 anos houve muita evolução de conceitos a essas tecnologias e o Homem passou a respeitar e usar de forma correta o meio ambiente, melhorando significadamente a poluição do ar, dos oceanos e da mata. No Brasil, as leis foram revistas com a nova Constituição, que foi totalmente reformulada protegendo a mata atlântica expulsando e prendendo madeireiros de reservas indígenas, fechando garimpos e acabando de vez com todo tipo de pirataria.
E o melhor de tudo é que essas medidas conseguiram atenuar o aquecimento global, evitando que milhares de ilhas deixassem de desaparecer.
- Senhor Arthur, disse um dos técnicos, estamos quase na hora do grande evento.
O proprietário da usina se posicionou entre seus funcionários e familiares no discurso em honra ao mundo verde, atividade realizada anualmente para brindar a data especial.
Quando Arthur estava para iniciar seu discurso, o cenário foi se modificando, se tornando embaçado; as pessoas com rostos desfocados e sem voz, apenas lábios se moviam, tudo o que estava em seu redor começou a desaparecer, o céu límpido e azulado a escurecer, e o ar tornou-se sufocante, mediante a poluição atmosférica.
Antes que toda aquela utopia pudesse desmoronar de vez, Arthur acorda com o filho Miguel ao seu lado da poltrona chacoalhando-o.
- Pai, acorda! Nosso destino se aproxima. Você estava falando dormindo, sorrindo! A dor de cabeça passou, está se sentindo melhor?
- Acho que sim, responde Arthur ao filho. Onde estamos?
- Quase chegando à capital, responde Miguel.
- É muito difícil para mim meu filho, ver que perdemos tanto de nossas vidas, assim como essas pessoas porque governantes em todos esses anos nada fizeram para salvar o nosso planeta e as catástrofes estão devastando as cidades litorâneas por conta do aquecimento global. No meu sonho, o mundo era verde e foi tão real que até pensei ser verdade.
Ao descerem na Rodoviária do Tietê, em São Paulo, puderam acompanhar por aparelhos de televisão a enorme onda que se aproximava da costa de Santos e Arthur, com uma forte dor no peito, não conseguiu olhar mais nada, virou-se e ajoelhou-se com as mãos ao rosto em desespero e tristeza.
- Pai, ânimo, uma vida nova nos espera, nada podemos fazer, pois a natureza está nos retribuindo na mesma moeda.
- Isso, diz Alice, que esse triste acontecimento sirva de reflexão para as próximas gerações.
- Não falem mais nada, acrescenta Arthur, que enxugando as lágrimas do rosto levanta-se do chão, arruma a postura, pega as malas e começa a deixar a rodoviária.
– Vamos seguir o nosso caminho.


Conto de Míriam Santiago e imagem da Revista Conexão Literatura 

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

  Imagem pública Google Giro pela Cultura e História Hoje tem Sarau Literário-Gastronômico em Santos   Amantes da literatura brasileira não podem perder o sarau literário-gastronômico que se realiza nesta quinta-feira (18/06), das 19 às 21 horas, na Casa das Culturas de Santos.   Além de conhecer a biografia e poemas do poeta, cronista, cotista e jornalista Olavo Braz Martins dos Guimarães Bilac, mais conhecido como Olavo Bilac, considerado o "príncipe dos poetas brasileiros", os quitutes foram inspirados na tradicional e sem igual Confeitaria Colombo do Rio de Janeiro, frequentada pelo poeta.   O evento é totalmente gratuito e sem necessidade de inscrição basta comparecer no horário e participar, quem quiser leve seu poema e leia! A casa fica na Rua Sete de Setembro, 49, Vila Nova, Santos. Imagem pública Google   Olavo Bilac Olavo Bilac (Olavo Braz Martins dos Guimarães Bilac), jornalista, poeta, inspetor de ensino, nasceu no Rio de Janeiro/RJ, em 16 de dezembr...
Poesia Telha de Vidro Rachel de Queiroz Uma boa semana a todos nós! Ontem foi um dia complicado porque fui fazer um curso e no sábado estive numa festa. Só tenho a avaliar que meu final de semana foi ótimo! E nada melhor para relaxar na segunda com uma poesia, não é? Ainda mais depois da turbulência política de ontem, que começou na sexta (só lembrando que este veículo serve aos leitores temáticas culturais e não discuto aqui nada sobre política, somente uma pequena pincelada, para que este meu projeto não se torne um salseiro). Então vamos a Poesia Telha de Vidro da ilustre Rachel de Queiroz, espero que gostem. Tchau pessoal, até amanhã, Míriam Quando a moça da cidade chegou   veio morar na fazenda,   na casa velha...   Tão velha!   Quem fez aquela casa foi o bisavô...   Deram-lhe para dormir a camarinha,   uma alcova sem luzes, tão escura!   mergulhada na tristura   de sua treva e de sua única portinha... A moça nã...
Bom dia. Segue o conto “O homem que espalhou o deserto”, de Ignácio de Loyola Brandão. Importante texto que serve de reflexão sobre a prática danosa da derrubada de árvores indiscriminada, uma tendência mundial de devastação da natureza. O homem que espalhou o deserto Ignácio de Loyola Brandão Quando menino, costumava apanhar a tesoura da mãe e ia para o quintal, cortando folhas das árvores. Havia mangueiras, abacateiros, ameixeiras, pessegueiros e até mesmo jabuticabeiras. Um quintal enorme, que parecia uma chácara e onde o menino passava o dia cortando folhas. A mãe gostava, assim ele não ia para a rua, não andava em más companhias. E sempre que o menino apanhava o seu caminhão de madeira (naquele tempo, ainda não havia os caminhões de plástico, felizmente) e cruzava o portão, a mãe corria com a tesoura: tome, filhinho, venha brincar com as suas folhas. Ele voltava e cortava. As árvores levavam vantagem, porque eram imensas e o menino pequeno. O seu trabalho rendia pou...