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Conto: O mundo de Alice
Por Míriam Santiago



   A
lice estava sentada no chão de terra batida quando passou correndo um coelho branco com olhos cor-de-rosa dizendo para si mesmo: “Oh puxa! Oh puxa! Eu devo estar muito atrasado! E depois o coelho tirou um relógio do bolso do colete, e olhou para ele, apressando-se.
            A menina levantou-se rapidamente e pôs-se a correr atrás do coelho e ao vê-lo saltar para dentro de uma grande toca de coelho embaixo de uma cerca ela fez o mesmo. A toca dava diretamente em um túnel. E Alice andava devagar, o coelho, por sua vez, estava longe, já que estava atrasado!
            Mesmo no escuro do túnel, que parecia sem fim, sem medo, a menina foi caminhando, pois queria saber onde iria dar. De repente, o buraco foi recebendo uma leve claridade, que foi aumentando até aparecer uma saída.
            Alice ficou estarrecida ao ver a linda paisagem oriunda da estreita passagem de onde viera, e quem veio recebê-la foi o coelho.
            - Alice venha comigo quero te apresentar algumas pessoas.
            E a menina foi respondendo para um coelho. A princípio achou estranho, mas a beleza do lugar a encantou. Em fila, várias crianças uniformizadas, com suas mochilas às costas, lindas e sorridentes. A casa era imensa a perder de vista toda sua extensão.
            - Vamos Alice, quero te mostrar este lugar, falava o coelho, que não mais estava atrasado, já que deixara o relógio de lado.
            - Que lugar é este, nunca estive aqui.
            - Vamos andando, veja que a casa é muito grande e aos fundos, temos várias quadras de jogos, falava e apontava o coelho.
            - Nossa, e não vejo nenhuma criança correndo, tem duas piscinas!
            - É que as crianças estão em aulas, depois é que vão para as quadras, após o horário das aulas, explicava o coelho.
            - Como é seu nome? E porque me trouxe para cá? Argumenta Alice.
            - Me chamo Hélio, e assim que te vi sentada naquele lugar lendo, presumi que quisesse conhecer esta escola, não é legal? Responde o coelho.
            - Mas assim do nada, responde Alice, estou adorando conhecer tudo isso, sai correndo a menina, que nunca estivera em uma escola tão magnífica como aquela; aliás, há alguns anos não frequentava escola alguma.
            E os dois caminharam por todo o espaço. A área tinha belos jardins bem cuidados e floridos, com espaços para balanços, escorregadores e outros brinquedos. Tudo muito limpo, com várias pessoas cuidando do lugar, que sorriam para Alice.
            - Nossa, nunca estive em um lugar assim, e é uma escola, não é um clube, tudo isso para que todas essas crianças possam usufruir, gostaria de estudar aqui, falava Alice a Hélio.
            - Eu sei que é um ambiente novo para você minha cara, vou falar com a diretora, para que possam encaixá-la em uma classe, responde Hélio.
            E os dois caminhavam pelo lugar conversando, tão incomum por ser ele um coelho, e as pessoas não se importavam, tudo parecia um conto de fadas! Era, com certeza, um mundo perfeito do qual ela não pertencia, nunca havia estado, já que sua classe social não permitia, mas ali sentia-se bem-vinda, as pessoas não a expulsavam e sim, sorriam e acenavam para ela. No fundo de seu coração ela sabia que seu mentor coelho e ela não se encaixavam na perfeição, na riqueza e grandiosidade daquele todo, e mesmo assim isso não tinha a menor importância para aquelas pessoas, muito gentis.


            Alice estava tão feliz que mal se cabia. Podia andar sossegada, cheirar o perfume das flores, andar na grama sem que ninguém a enxotasse, se sentia querida, importante, normal.
            - Hélio, minha mãe nunca terá dinheiro para pagar, jamais poderei estudar nesta escola e em nenhuma outra, dizia cabisbaixa a menina.
            - Não fique triste, como te falei, vou dar um jeito para você estudar nesta escola, só desejo vê-la feliz. Você só diz minha mãe, e seu pai?
            - Ele faleceu, quando era vivo tínhamos mais chance, mas depois do acidente, nossa vida mudou.
            - Entendo, bem, vamos andando que ainda temos muito a explorar! Dizia o mentor à frente e a menina atrás saltitando de felicidade, já que o coelho era divertidíssimo e falava muitas coisas engraçadas. Os dois foram ter à cozinha da escola e uma senhora sorridente com um avental muito branco e um turbante azul a segurar os cabelos entregou à Alice um pedaço de bolo de chocolate, que estava delicioso. Há muito tempo não comia um bolo assim.
            - Venha Alice, lá está a diretora, vou apresentá-la para que você inicie seus estudos. E Hélio gritando a frente o nome da mulher, Laura se vira e acena para eles. A bonita e simpática diretora trajava um vestido rodado marrom-claro abaixo do joelho com um avental que complementava a roupa, cabelos penteados e presos à nuca davam um charme a silhueta esguia da mulher, que ficou parada a espera de Alice.
            Ao se aproximar da diretora, que esticara o braço para cumprimentá-la entregando-lhe um livro, um barulho estrondoso balançou a cabeça da menina, que desorientada escuta um som ao longe, alguém grita o seu nome bem devagar, e ao ouvir A L I C E! Ela se dá conta de que é a mãe, era a voz de sua mãe e mal apertara a mão da diretora ela se vira e começa a correr deixando para trás Laura, a diretora e Hélio, o coelho, que grita Adeus Alice!
            A menina então mais veloz do que nunca correra antes na vida vê de longe a abertura do túnel de onde viera e entrar em velocidade no buraco, esbarrando nas paredes em barro, mas ela não perde tempo, já que o som de seu nome parece estar mais próximo de seus ouvidos e num estalo, levantasse do chão!
            - O que foi mãe, você me assustou! Diz a menina.
            - Andei a sua procura e não te encontrava em parte alguma, pensei que tivesse partido! Fala a mãe com rosto sofrido.
            - E eu partiria para onde, não tenho outro lugar senão estar aqui, diz Alice.
            - É que está escurecendo, já fecharam a porta, as pessoas já foram embora e isso aqui é muito grande, fico preocupada com você andando por aí.
            E a menina se dá conta que retornara de sua agradável aventura conduzida por seu mentor coelho a um mundo tão diferente o qual mesmo não pertencendo seria aceita. Olhou ao redor e viu sua realidade, dormia juntamente com mais 50 sem-teto no cemitério da Vila Nova Cachoeirinha, na zona norte de São Paulo. O  abandono do local ao longo dos 350 mil m² do cemitério, o segundo maior de São Paulo, com 21 mil sepulturas e gavetas, parte delas encobertas por um matagal que atinge a altura da cintura de um adulto e foi justamente nesse lugar hostil que elas vieram parar no final de 2017 permanecendo já há um ano ali, juntamente com o resto das pessoas.
            - O que tem nas mãos Alice? Pergunta-lhe a mãe.
            - Um livro de história, diz a menina com lágrimas aos olhos.
            - E onde encontrou esse livro? Deixe-me ver, diz a mãe e a menina mostra a capa: “As Aventuras de Alice no País das Maravilhas”.
A menina abraça o livro com todo o cuidado e segue a mãe que vai a frente com outras mulheres do grupo.               
           


O início e a ideia de aventura do texto se basearam na obra célebreAs Aventuras de Alice no País das Maravilhas”, escrita por Lewis Carroll, pseudônimo de Charles Lutwidge Dodgson, publicada em 4 de julho de 1865.
Lewis Carroll é considerado precursor e um dos maiores impulsionadores da literatura nonsense (tipo de literatura que expressa situação ilógica ou linguagem absurda), um gênero literário que subverte os contos de fadas tradicionais, criando narrativas que não seguem as regras da lógica.
E precisamente nesse caráter de absurdo que parece estar a singularidade da obra, que se tornou um ícone literário e cultural, que tem sido representada e recriada na pintura, no cinema, na moda e nas mais diversas áreas. 

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