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Cantinho da Poesia
Especial dedicado ao Dia da Consciência Negra

Olá, bom início de semana a todos nós.
A coluna Cantinho da Poesia é especial e dedicado ao Dia da Consciência Negra nesta terça-feira, dia 20 de novembro.
Pesquisei alguns sites para trazer uma poesia à data e gostei muito do Demonstre – Atividades para Professores (link ao término da postagem).

Me gritaram negra
Victoria Santa Cruz

Tinha sete anos apenas,
apenas sete anos,
Que sete anos!
Não chegava nem a cinco!
De repente umas vozes na rua
me gritaram Negra!
Negra! Negra! Negra! Negra! Negra! Negra! Negra!
“Por acaso sou negra?” – me disse
SIM!
“Que coisa é ser negra?”
Negra!
E eu não sabia a triste verdade que aquilo escondia.
Negra!
E me senti negra,
Negra!
Como eles diziam
Negra!
E retrocedi
Negra!
Como eles queriam
Negra!
E odiei meus cabelos e meus lábios grossos
e mirei apenada minha carne tostada
E retrocedi
Negra!
E retrocedi…
Negra! Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Negra! Negra!
E passava o tempo,
e sempre amargurada
Continuava levando nas minhas costas
minha pesada carga
E como pesava!…
Alisei o cabelo,
Passei pó na cara,
e entre minhas entranhas sempre ressoava a mesma palavra

Negra! Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Negra!
Até que um dia que retrocedia, retrocedia e que ia cair
Negra! Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Negra!
E daí? E daí?
Negra!
Sim
Negra!
Sou
Negra! Negra! Negra!
Negra sou
Negra!
Sim
Negra!
Sou
Negra! Negra! Negra!
Negra sou
De hoje em diante não quero alisar meu cabelo
Não quero
E vou rir daqueles, que por evitar – segundo eles –
que por evitar-nos algum dissabor
Chamam aos negros de gente de cor
E de que cor!
Negra!
E como soa lindo!
Negro!
E que ritmo tem!
Negro! Negro! Negro! Negro!
Negro! Negro! Negro! Negro!
Negro! Negro! Negro! Negro!
Negro! Negro! Negro!
Afinal
Afinal compreendi
Afinal
Já não retrocedo
Afinal
E avanço segura
Afinal
Avanço e espero
Afinal
E bendigo aos céus porque quis Deus
que negro azeviche fosse minha cor
E já compreendi
Afinal,
Já tenho a chave!
Negro! Negro! Negro! Negro!
Negro! Negro! Negro! Negro!
Negro! Negro! Negro! Negro!
Negro, Negro
Negra sou!


Acesse o site e conheça outros poemas:

Victoria Santa Cruz

A poeta Victoria Eugenia Santa Cruz Gamarra é uma expoente da arte peruana; compositora, coreógrafa e desenhista, com destaque na arte afro-peruano e no combate ao racismo nos anos 60 a 70. Ela participou, em 1958 (com seu irmão, o famoso poeta Nicomedes Santa Cruz), no grupo Cumanana.



Estudou em Paris, na Universidade do Teatro das Nações (1961) e na Escola Superior de Estudos Coreográficos. Ao voltar a Lima fundou a companhia Teatro e Danças Negras do Peru, que se apresentou em inúmeros teatros e na televisão. Este grupo representou o Peru nas comemorações dos Jogos Olímpicos do México (1968), sendo premiada por seu trabalho. Em 1969 realizou turnês pelos EUA; quando voltou a Lima foi nomeada diretora do Centro de Arte Folclórica, hoje Escola de Folclore. No primeiro Festival e Seminário Latino-americano de Televisão, organizado pela Universidade Católica do Chile em 1970, venceu como a melhor folclorista. Foi diretora do Instituto Nacional de Cultura (1973 a 1982). 
Seu poema Me Gritaron Negra é uma bandeira na luta contra o racismo. Ele relata aquilo que todo negro já viveu, e o faz interiorizar uma autoimagem que nega sua autoestima, mas, num crescente, a palavra “negra”, que começa como insulto, se transforma em afirmação valorosa da identidade e da humanidade negra.  

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