Conto: O hospital
Olá, bom dia e excelente terça-feira.
O conto O
hospital de minha autoria faz parte da edição de novembro da Revista Conexão
Literatura, disponível para baixar gratuitamente.
Espero que gostem, abraços.
Depois de dias frequentando quase
diariamente o primeiro hospital do Brasil, a Irmandade Santa Casa de
Misericórdia de Santos - que inclusive no dia 1º de novembro completou 475 anos
de fundação por Brás Cubas, em 1543 - a vi pela primeira vez.
Tudo começou quando fiquei extremamente
doente com sintomas de gripe forte, depois suspeita de dengue, catapora e até
febre Chikungunya, mas descartando tudo isso sem diagnóstico definido porque
alguns vírus são difíceis de identificação, recebi alta depois de dias de
internação. Tantos anos de tecnologia e em pleno século XXI ainda não se
consegue saber tipos de doenças, transmitidas em transportes coletivos, em
filas de banco ou almoço por quilo são tantas possibilidades de contágio que
nem vale a pena ficar matutando onde peguei a bendita doença, que me deixou
prostrado e convalescido na cama. O pior foram dores pelo corpo todo, febre e
erupções avermelhadas.
E foi numa das vindas ao pronto socorro
antes da internação quando aguardava fazer exames que a vi passar no final do
corredor. Juntamente com vários pacientes que assistiam “Segundo Sol”, novela
das nove da noite da TV Globo, pois aguardavam para consultas ou exames naquele
corredor largo, com pé direito alto, bem ventilado e piso quadriculado marrom da
década de 40 (quando o novo edifício da Santa
Casa foi inaugurado no bairro Jabaquara, em 1945) eu vi a menina parada ao final desse
corredor.
Perguntei à minha esposa se tinha
visto, mas ela não.
Depois de procedimentos fui liberado.
Retornei ao pronto atendimento e na
espera do mesmo procedimento, avistei novamente a menina. Desta vez, quando ela
percebeu que estava sob meu olhar, correu. Aquilo me intrigou profundamente,
ainda mais porque eu não estava em condições de fazer nada, como por exemplo,
tentar correr atrás dela.
Eu e outro homem com problema
semelhante ao meu acabamos internados no mesmo dia, aliás, ficamos no mesmo
quarto. Aparentemente bem mais novo Gustavo estava com muito medo por não
sabermos o que tínhamos.
Quando se está hospitalizado os dias
são intermináveis, você fica vulnerável a doenças e tudo.
E o querido leitor deve estar se
perguntando, o que a menina do corredor tem a ver com isso? Sim, muita coisa,
pois bem...
- Ei senhor Luiz, me chamava de uma em
uma hora o companheiro de quarto Gustavo. – Eu já falei pro senhor que fiquei
doente porque minha mulher me deixou?
- Sim, meu caro, já me contou, no
mínimo, umas vinte vezes em tão pouco tempo que estamos aqui. Se acalme para
melhorar, não vê que sua inquietação só está piorando seu estado de saúde? -
Dizia eu, com a maior paciência, mesmo sentindo uma imensidão de dor pelo corpo
todo.
- Estou aqui e ninguém vem me visitar.
Começava ele em menos de cinco minutos, e a ladainha era arrebatadora! E só
parava depois de muito chorar. Um ser humano totalmente perdido em sua fraqueza
de espírito, em seus conflitos internos.
Já estávamos internados há dois dias.
Chovia muito naquela noite, o que deixou Gustavo ainda mais depressivo. E com
tanta agitação recebeu prescrição de remédio para dormir. E o bendito fez
efeito e ele nem se deu conta de mais nada. Eu na cama ao lado com o quarto
levemente iluminado porque Gustavo tinha medo de escuro, estava quase tentando
dormir quando vi um vulto se aproximando. Fiquei quieto como se estivesse
dormindo. O vulto vinha devagar. Já tinha parado de chover. Era a menina. E no
raio de luz consegui ver detalhes que de relance não notara: vestia-se com
blusa de renda branca, saia xadrez comprida, mas não até o chão, pois vi que
calçava botas e cabelo estilo “Maria Chiquinha”. Vendo-a de costas, pela
altura, deveria ter uns 10 anos de idade. Se aproximou de Gustavo e levemente
tocou-lhe a face.
Ela se virou para mim e quando vinha em
minha direção, ao ouvir o barulho da maçaneta, a menina correu novamente.
- Moça, disse à técnica em enfermagem,
para onde foi a menina?
- Menina? Acho que o senhor estava
sonhando quando cheguei, era um sonho com a sua filha? – Pergunta-me ela já
acendendo a luz para medicar-me.
- É verdade, era com minha filha sim,
disse-lhe sem detalhes, já que ela não iria acreditar mesmo. E também não
comentei com Gustavo para não deixá-lo ainda mais nervoso e ansioso. Mas aquela
“visita” me deixou intrigado e confesso, com certo temor!
Gustavo já dormia e eu estava na fase
de transição do estado desperto para o sono quando vi o vulto se aproximar
novamente. Era a menina vestida do mesmo jeito. Ela caminhou bem devagar e
parou ao lado da cama de Gustavo tocando-lhe levemente a mão e mesmo dormindo
ele apertou a mão dela soltando aos poucos até a mão cair na cama. A menina
então se aproximou do rosto dele acariciando-lhe a face. De repente, ela ergueu
as mãos para o céu e as posicionou sobre o corpo dele. Em seguida, se aproximou
da face dele novamente, mas desta vez, ao tocar-lhe a testa, a menina começou a
crescer até a altura de um adulto. Com o coração acelerado apertei forte com as
duas mãos a boca para não gritar e ela de costas não viu. A menina, ou melhor,
aquele ser, depois de tocar a fronte de Gustavo abaixou-se até o ouvido e
falou-lhe algo que não consegui escutar.
Eu suava tanto que a camiseta já estava
toda encharcada. Foi quando ela deixou Gustavo e se virou para mim. Daí eu não
aguentei e comecei a gritar e gritar conseguindo apertar o botão e chamar a
atendente.
Não consegui ver direito o rosto da
menina, se com aquela altura ela ainda permanecia com o rosto infantil ou não.
O medo me cegou por uns segundos e na gritaria o ser desapareceu.
Mesmo com todo o reboliço Gustavo não
acordou.
Eu gritava e chorava dizendo que alguém
entrara no quarto e havia feito alguma coisa para o Gustavo, dizia que ele
deveria estar morto, entre outras tantas bobagens. Sedaram-me as três
atendentes que vieram correndo e não vi mais nada.
Já passava das dez da manhã quando
acordei com o sol em meu rosto. Olhei e Gustavo não estava na cama. Gritei por
seu nome e ele não estava no banheiro também, pois não respondeu.
Pronto, morreu meu Deus! Comecei a
chorar e amaldiçoar aquela coisa infernal que viera sorrateiramente durante a
noite e tirara a vida do rapaz.
Gritava em ataque de fúria e choro
quando Gustavo entra no quarto.
- Senhor Luiz, fiquei preocupado as
moças disseram que o senhor teve um ataque no meio da noite, como está
passando? – Disse o rapaz, que estava barbeado e todo arrumado. Seu semblante
transmitia paz e serenidade.
Por um momento não soube o que falar,
mas ele não deixou no silêncio e disse que já havia recebido alta médica.
- Mas como? Disse eu, sem entender
nada. – Você estava com os mesmos sintomas, e as manchas nos braços?
- Olhe, ele arregaçou as mangas da
camisa e pude ver que pouco restava do estágio semelhante ao meu, que
permanecia do mesmo jeito.
- Não sei dizer, mas estão sumindo!
Também não tenho mais dor no corpo, nem febre. Estou me sentindo bem. E também
não pensei mais naquelas bobagens, o senhor sabe.
- Bobagens, quais bobagens que você não
me falou?
- Bem, fiquei muito deprimido porque
minha mulher me largou, ela foi embora para o Rio Grande do Sul, disse que
estava apaixonada por outro homem. Isso me deixou doente demais, só pensava em
morrer, que minha vida não tinha mais sentido... Acho que cheguei a comentar
alguma coisa. Na noite passada sonhei que um anjo havia entrado no quarto e
tocado em mim. E esse anjo me disse para ter fé em Deus e me agarrar no bem
mais precioso do mundo que eu seria curado. Como pode ver, entendi que minha
vida é esse bem.
Ele se despediu e partiu.
Nos dias seguintes em que fiquei
sozinho no quarto a menina não mais retornou. Pensei muito sobre isso, questionei
as enfermeiras se haviam casos paranormais no hospital, mas ninguém soube
informar.
Esta é uma história de ficção com
lampejos de verdade dos personagens fictícios e com o lado histórico do
hospital, que completou 475 anos no dia 1º de novembro. E sobre a fé, que seja
eterna para aqueles que creem em Deus, em anjos ou em toda força que traz
harmonia e amor à Humanidade!


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