Conto:
Prometeu
Olá
amigos, excelente quarta-feira a todos nós.
Quase
me esqueço de disponibilizar aqui na página o conto Prometeu, que faz parte da
Revista Conexão Literatura deste mês em homenagem ao aniversário de 200 anos de
Frankenstein, rascunhado em junho de 1816.
Espero
que gostem de minha humilde homenagem à obra sem igual de Mary Shelley.
Prometeu
Frankenstein
comemora 200 anos! A obra, que mistura elementos de terror e ficção científica,
foi criação de uma aposta na casa do poeta inglês Lord Byron, em junho de 1816,
que lançou o desafio ao grupo de amigos: Mary Godwin (mais tarde Mary Shelley),
John Polidori, Percy Shelley e Claire Clermont.
Manhã de ventos fortes atrapalham o sábado na
Baixada Santista, dia 19 de maio de 2018, véspera de um grande dia para os
atletas que anualmente participam da competição “10 KM Tribuna FM”. Muitos
corredores deixaram para treinar até o último momento e o sábado foi de fortes
pancadas de chuva, ventos que derrubaram árvores e causaram alagamentos.
Para mim que não preciso treinar a intempérie do
tempo não atrapalhou em nada, muito pelo contrário, pois a natureza clamava por
água de chuva!
E essa reclusão temporária devido ao mal tempo me
levou a arrumar o armário dos livros e logo que comecei a mexer nas
prateleiras, caiu-me nas mãos “Frankenstein”, de Mary Shelley, que recentemente
completou 200 anos. Dei uma folheada no livro e imaginei como seria o monstro
se ela o tivesse escrito no futuro, e tudo aquilo ficou em minha mente, pois
fui adormecendo com o clássico nas mãos...
...
De repente, me deparei com a folhinha pendurada na
parede que apontava para maio de 2040.
Como? Indaguei surpresa com os olhos arregalados,
não pode ser! Será um sonho? E ao mesmo tempo em que não sabia se sonhava ou
vivenciava, me vi na rua, e era tanta gente andando que fiquei atordoada.
- Ei moça, onde estamos? Perguntei a uma jovem que
passava com mochila nas costas, ela me olhou atravessada, mas respondeu.
- Bebeu? Estamos na Praça da Sé, não tá vendo a
igreja? E continuou o seu caminho apressadamente. Mas parou e veio até mim. –
Não sei de onde veio, você é estranha, mas digo que tome cuidado não fique dando
mole por aqui a noite, ao cair à escuridão, muitas coisas acontecem nesta
região, disse ela, que se virou rapidamente e seguiu seu rumo.
Olhei meu relógio e já eram cinco da tarde, o que
ela falou me deixou intrigada, mas continuei caminhando por ali. A catedral
continuava a mesma ainda naqueles tempos, com andaimes que indicavam reforma.
As escadarias cheias de gente sentadas e outras em uma fila logo na entrada. Vi
que alguém distribuía pão aos carentes e eram vários, sim, foi aí que me dei
conta de quantas pessoas perambulavam sujos e rotos, aos montes pelo chão com
olhos fixos no nada, sem lar, despidos de todas as necessidades que uma pessoa
precisa, desnudos até a alma. São os esquecidos da sociedade, do mundo, são
pessoas que nasceram nas ruas sem futuro, apenas com a luta diária da
sobrevivência.
A igreja já começava a fechar as portas e quem não
conseguiu o pão pegaria no dia seguinte. A fila de desesperados se dissipara.
Achei estranho que as pessoas não pediam esmolas, se acostumaram com a pobreza.
E a escuridão chegou rápido, normal para outono.
Comecei a andar pelo entorno da igreja foi quando me deparei com algumas pessoas
mutiladas. Aquela cena me fez recordar minha estada, lá pelos anos de 1980, em
Sinop, município do estado do Mato Grosso, no centro oeste do Brasil, conhecida
também como a Capital do Nortão, mas naqueles tempos, por não ter um sistema de
saúde e hospitais adequados para implantes de órgãos, os funcionários que
perdiam os membros em acidente de trabalho em serrarias no meio da mata assim
continuam. E essas pessoas, o que será que aconteceu com elas? Indaguei de pena
e curiosidade.
Vi que andam com muletas, outros com mangas
compridas tentando esconder “cotocos” do que sobrou de braços, já dá para
imaginar que cena de horror! Eu os segui e essas pessoas se enfileiraram na
porta de um lugar esquisito, era uma casa imensa, escura, sem jardim, com muros
altos, janelas grandes com grades e fechadas e uma grande porta ao centro. Apenas
o número do imóvel, 438, o identificava.
Cena típica de filmes de cinema: levantei o capuz da
blusa e me encostei a lateral do muro da casa ficando de espreita observando.
De repente a porta se abriu e alguém aos gritos empurra o pessoal da fila, ele
queria passagem a todo custo, era mais um mutilado. Passou e saiu da casa, andava
rápido com apenas uma perna e muletas. Novamente a fila foi interrompida por
alguém que pedia passagem, só que desta vez, o pessoal saiu correndo e
dispersou, e não foi por menos. O que vi sair de dentro da casa caminhando
devagar e seguro de si é algo assim nunca visto antes! Fiquei rente ao muro o
máximo que pude, bem, até poderia ter ido embora, pois em primeiro momento ele
não me viu, mas a curiosidade...
Ele vinha devagar. De baixo para cima olhei os
detalhes que pude: os pés deveriam ser enormes, pois as botas negras eram
imensas. De calça sarja cinza escura as pernas longas se moldavam à troca de
passo; o tórax grande coberto por camiseta negra deixava à mostra os braços
musculosos e compridos. O cabelo negro ao ombro emoldurava o rosto perfeito com
uma enorme cicatriz do lado esquerdo, que começava na boca e terminava no
cabelo. Eu nunca havia vislumbrado um homem como ele em seus dois metros de
altura. Dava medo só de olhar!
O homem que ele perseguia gritava e tentava correr o
máximo que podia. Continuando a mesma passada, ele tirou de dentro do bolso da
calça uma espécie de controle, que rapidamente voou atrás do pobre deficiente
uma espécie de drone, porém, em determinado momento, soltou certeiramente uma
rede, que o prendeu por inteiro, inclusive a perna e o fez cair ao chão.
Tranquilamente o grandão foi até ele. Tirou a rede com uma mão e o pobre homem
chorou e suplicou, mas de nada adiantou, pois o imenso o ergueu do chão e num
piscar de olhos, pressionou nas mãos o crânio do homem, amassando a cabeça como
se fosse uma folha de papel.
Aquilo foi demais para mim, e a Coisa percebeu minha
presença por meu grito e vômitos. Sem me dar conta ele estava na minha frente...
...
Acordei dentro do lugar estranho, estava com as mãos
amarradas e em pé presa por ganchos fincados em minha roupa. Era uma espécie de
laboratório. Tudo organizado, claro, limpo e muita tecnologia. Vi o grandão
sentado em uma poltrona. Na mesa o morto com a cabeça coberta, menos mal, mais
adiante uma mulher mexia em um aparelho finalizando no computador. De costas
pergunta:
- Você quem é? Estava nos espionando? – Questiona a
mulher que veio até mim. E vi que o grandão não se mexeu e os olhos parados num
vazio.
- Não sou ninguém, não estava espionando, nem sei
onde estou, disse-lhe. O que é isto aqui? Pra que ele me trouxe? Perguntei.
- Aqui é meu laboratório e Prometeu é nossa
obra-prima! Depois de anos de tentativas conseguimos esse sucesso.
- Há, então as tentativas foram com essa pobre gente
mutilada? Vocês foram retirando os órgãos para experimentos? Indaguei.
- Não seja ridícula! Disse ela com sotaque germânico
se apresentando como espécie de gerente da equipe, mas no local só estava ela e
Prometeu.
- Com tanto avanço científico, para que
precisaríamos desses corpos magros, doentes e sujos? Eles trabalham para nós e
ficaram assim deformados porque no antigo laboratório aconteceu um grande
acidente que atingiu essa gente. Prometeu foi concebido da mais alta tecnologia
ele é perfeito, com tez humana, cabelos, dentes, orelhas, olhos e lábios
humanos, de embriões congelados que passaram a nosso domínio, embriões
escolhidos a dedo de pais inteligentes, belos e saudáveis. Esquecidos em
clínicas de fertilização, ficamos com eles e foram desenvolvidos para que
pudessem servir ao nosso experimento e ao futuro! Já os órgãos internos,
cartilagem e ossos com técnicas das mais modernas.
- Por isso a força inumana, disse eu. E vomitei
novamente ao pensar nos embriões. O que farão comigo? Fui logo ao assunto, pois
palpitava que meu fim estaria próximo.
- Não sei, por sua boa aparência que me parece bem
saudável, acho que deixaremos que Prometeu decida.
E num piscar de olhos vi que o grandão voltou os
olhos pra mim. Levantou-se e veio em minha direção.
- Não, nãooo! ...
...
Acordei encharcada de suor. Não consegui me
levantar, pois estava tonta. Sentei na beirada da cama até me sentir melhor e
segura. Logo que melhorei, corri até a folhinha e o ano de 2018 me deu tremenda
alegria e leveza de que tudo aquilo foi um sonho terrível, ou melhor, um
pesadelo. Respirei aliviada e fui tomar banho para jantar.
Nem mal sai do banheiro e a mãe foi perguntando onde
eu havia andado porque a roupa estava muito suja. A blusa com vômito e a calça
inclusive com cheiro de urina...



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