Conto:
Abismo: nada além da escuridão, o outro lado da vida
Olá
meus amigos, um bom início de semana a todos nós.
Quem
tiver interesse em participar da edição de dezembro da Revista Conexão
Literatura ainda dá tempo.
Segue
o site da revista:
Há, e
também o meu conto, que faz parte desta edição.
Obrigada,
abraços,
Míriam
Lugar escuro e sombrio seres horríveis!
Monstros sem cabeças seres rastejantes e grandes, sangue e perversidade. Correm
atrás de pessoas apavoradas de medo no meio da lama da sujeira e da
brutalidade.
Uma moça que pula de um abismo faz
aquilo todos os dias. Seu rosto pálido e sem vida olha para o vazio da
imensidão e ela se atira. O corpo cai rapidamente e o grito ecoa naquela
imensidão de podridão, os seres param, e em minutos o mundo infernal recomeça. Aqui, não há esperança para ninguém!
Almas
vagueiam torturadas por seus pecados e corpos amontoados como lixo!
Lembro-me
de como vim para cá! Estava desgostosa com a vida e tomei um frasco de remédio
para dormir. Acordei neste lugar! Não sei quanto tempo permanecerei, mas tenho
certeza que será por um longo período.
Chegou a hora. Os vermes já estão à
espera da horrenda cena. Sedentos por ver a pobre pecadora, que a cada dia,
reafirma sua eterna estadia.
Aguardam com água na boca. Tudo cessa à
espera dela. Ela vem caminhando devagar. Lágrimas escorrem por seu rosto. Ela
passa por entre as criaturas e continua andando. A mulher chega à beira do
abismo...
Para e sorri. Um sorriso iluminado.
E naquele exato momento, tão aguardado
pela maldade, a moça tem um repente celestial e tudo muda num piscar de três
segundos. Uma luz divina ilumina a pobre garota e ela desaparece.
Uma
alma foi salva! Pensei eu, que não tinha a menor ideia de quanto tempo
perambulava ali. E mesmo sem saber, me sentia arrependida por ter jogado tudo
fora.
Naquela noite mesmo adormeci com a cena
da pobre jovem na cabeça, quando ela subiu finalmente aos céus! E fiquei feliz
por ela.
O que é mais terrível naquele lugar,
sem dúvida, dormir e acordar, abrir os olhos e ver que ainda está ali e daí dá
tanta vontade de tomar novamente um frasco de remédio... e é essa justamente a
fraqueza que a mantinha ali, a vontade de nunca ter existido, a falta de
vontade de lutar por melhora e compreendo ser esse o motivo de muitos que
cometem o mesmo erro. E bem de longe ouvia- se uma gargalhada sinistra que zombava
da fraqueza humana. Foi quando resolvi questioná-lo, o dono da gargalhada.
- Novamente você veio a mim? Você não
está preparada ainda. Já tentou algumas vezes e quando caiu aqui novamente veio
pior, para quê deseja?
Mesmo escutando tudo aquilo, indaguei
que esta era a vez, que gostaria de tentar novamente e pedi com tanta fé, que
uma luz me guiou para fora daquele buraco imundo, contrariando a vontade “dele”.
...
Como num sonho, quando dei por mim
caminhava no calçadão, era bem cedinho e não havia muita gente, apenas o
pessoal da limpeza das praias, os que retiram o lixo e automóveis apressados a
seus destinos. Continuei caminhando lentamente e sentei-me em um banco. Senti o
aroma da manhã, do belo e imenso jardim da orla de Santos, reparei em detalhes
que nunca havia contemplado, estava feliz pela oportunidade em retornar ao
mundo que nunca devia ter partido, pelo menos daquele jeito cruel.
Caminhava agora em passos apressados, a
dor no coração e a ansiedade em chegar a casa eram imensos e num piscar de
olhos estava em pé na porta do prédio onde residia. Abri o portão e entrei. A
porta de acesso estava aberta, como de costume e subi os três andares até
chegar ao meu apartamento.
Entro,
ou não? O pensamento e a insegurança balançaram-me. O medo do que
enfrentar lá dentro quase me fez recuar. Respirei fundo e entrei. Dei de cara
com um gatinho, que arregalou os olhos e correu. Era um bichinho rajado, não
era o meu gato preto. A decoração, os quadros não eram meus muito menos as
fotos na parede, desconhecidas para mim. Espiei nos quartos e as pessoas que
ainda dormiam não era minha família.
Sai correndo e desci rápido. Para onde foram todos? Venderam, alugaram? E
um imenso vazio ecoava dentro de minha cabeça.
Ao sair do prédio trombei com um rapaz,
bem, ele trombou de propósito, era muito branco, cabelo escuro e liso, sorriso
sarcástico... Não nos conhecemos? Perguntei
logo, sem hesitar.
- Sim, respondeu ele. Porque a cara de
choro? Questionou o homem. Você não queria retornar, então, acho que já é o
suficiente.
Então
você é...
- Sim, de lá, respondeu. “Ele” disse
que você não estava preparada, então vim para cá para ajudá-la. Eu não sei o
que você pensava em encontrar aqui, sua vida agora se resume a cinzas. Não,
pela sua cara, você por um acaso não está pensando que retornou em carne, né? (Risinhos
irritantes...).
E a tristeza tomou conta de mim naquele
exato momento. Sim, gritei alto, pensei
que havia retornado em corpo físico. É
duro saber que não existo mais neste mundo, que não posso mais ficar com a
minha família, amigos e tudo o que sempre amei.
- Você devia ter pensando nisso antes
de tomar o vidro todo do remédio para dormir, então, você conseguiu dormir para
sempre! Naqueles exatos 40 segundos o seu pensamento só se fixou no fim de
tudo. Você jogou fora o que batalhou para conseguir, você escolheu o outro lado
da vida! Disse ele com vigor e rispidez.
Duras palavras que agora faziam
sentido, que as conseguia ouvir sem correr, em aceitar a verdade. Não adiantava
mais nada, estava condenada a pagar o preço.
Saímos da porta do prédio. Eu só queria
saber há quanto havia morrido. E ele respondeu: - dez anos.
Eu
não tinha essa noção, é o tempo cronológico de lá é bem diferente deste.
- Venha cá, disse, e me puxou para
perto dele entrelaçando suas mãos nas minhas. Vou te ajudar a recuperar a sua
memória.
E assim como num flash, num cinema, o
filme foi rebobinando para trás com rapidez. Ele tinha esse poder de mexer com
o tempo da lembrança. Rápido me via em todas as cenas, até que as imagens
desaceleraram, e em tempo real, parou onde exatamente eu queria. – Você tem
certeza de que quer continuar? Perguntou. E acenei a cabeça que sim.
... Retornava para casa após um dia de
trabalho. O rádio do carro dizia que muita chuva cairia naquela noite de julho,
mas não fazia frio por ser inverno. Estava chateada por ser repreendida no
serviço por algum engano que cometi.
Para variar, deixei-me levar por pensamentos negativos, que aceleraram meus
nervos. Ao retornar a casa, briguei com o marido por nada, pois de cabeça
quente discuti por bobeira. A rotina de cuidar da casa e dos afazeres
domésticos eu os sentia tão reais, a insatisfação de sempre me perturbavam e a
minha aceitação de vida também. Gritei muito com ele, nosso relacionamento não
ia bem e senti o coração dele infeliz. Ele bem irritado se arrumou e saiu.
Fiquei sozinha em casa. Tremendo e com raiva, fui até o armário da cozinha e
achei o vidro de remédio para dormir. Trêmula, e naqueles 40 segundos onde minha
mente se esvaziou por completo, abri a tampa e virei o que pude para dentro da
boca, tomando água para descer melhor os comprimidos. Deixei o vidro vazio cair
dentro da pia da cozinha e cambaleando consegui chegar a cama. Senti o meu coração
batendo cada vez mais fraco, a pulsação bem devagar, os órgãos internos do meu
corpo parando um a um até que o coração cessou de vez. Em um último instante,
antes do sopro final, lágrimas escorreram de meus olhos, desceram reto até
molhar o lençol. Pude sentir e ver a tristeza da alma já arrependida ao lado do
corpo sem poder fazer nada com a matéria que se foi.
Nisso, com força me desprendi das mãos
dele e sentei-me ao chão. Mas aquilo não
foi motivo! Como pude ser tão fraca?
- São imbecilidades dos seres humanos, melhor
dizendo, egoísmo. É o egoísmo de achar tudo ruim, que a vida não vale nada, que
mereciam mais, digo no plural porque é o que todos pensam e cometem esse erro
sem volta. O que pretende fazer agora? Perguntou ele, que pacientemente
aguardou 20 minutos até eu me recompor e deixar de chorar.
Não
sei. Terei de retornar para lá? Indaguei.
- Acho que sim. O que pretende fazer
por aqui, este não é mais o seu mundo, disse o guardião da lembrança. Não
podemos interferir na vida dos humanos.
Levante-me depois de grande frustração,
estava raivosa comigo mesma, decepcionada e sabia que nada podia interferir.
Queria saber sobre a minha família e o guardião, que sabia dos meus
pensamentos, foi logo completando.
- Seu marido está casado novamente e
com filhos. Ele demorou a aceitar, fez tratamento, se achou culpado. Foi
difícil para ele, mas teve de seguir a vida, vendeu o apartamento e se mudou
para a capital, onde conheceu a atual esposa.
Sabia
que não tinha como fugir do guardião e “ele”, como todos devem estar pensando
ser o diabo, mas era o guardião do limbo, aterrorizava as almas pagãs, zombava
de todos os que cometem esse crime contra si próprios, pois aquela era a função
dele naquele lugar horroroso, com serem imundos e analisando bem a situação, quem
é o mais cruel, “ele” ou nós mesmos?





Comentários