Os irmãos Blanche
Olá meus amigos, tenham uma excelente
quinta-feira. Só para situá-los, semana chuvosa aqui na Baixada Santista.
Bem, para quem é fã do escritor Edgar Allan Poe
hoje é um dia festivo, dia de seu aniversário.
E para comemorar, disponibilizo o conto “Os
irmãos Blanche”, que faz parte das comemorações do mês e da edição de janeiro
da Revista Conexão Literatura.
Espero que gostem, abraços,
Míriam
Os irmãos Blanche
O meu conto desta
edição de janeiro é uma homenagem ao aniversário (19/1) do grande escritor,
poeta, romancista e editor norte-americano Edgar Allan Poe.
Sou fã de Poe desde
criança, mesmo sem saber quem era ele, vindo a conhecer sua obra bem depois,
com predileção pelo conto “Os assassinatos da Rua Morgue”
Depois do
assassinato do italiano por seu melhor amigo espanhol, no verão de 1845, a Rua
Morgue retorna à sua costumeira tranquilidade. O caso foi solucionado pelo
chefe de polícia Deville, que para manter a situação no controle pediu a um de
seus policiais para visitar semanalmente a conturbada rua do bairro de la
Roquette, logradouro que volte e meia passa por adversidades.
A missão à “mal falada” rua que ganhou esse boato pelos
arredores de Paris, vem sendo cumprida pelo policial Thierry – jovem
profissional de excelente conduta e disciplina – que deveria informar ao chefe
possíveis infortúnios. E a ronda policial semanal é toda quinta-feira.
Relembrando você leitor do acontecimento do episódio
passado, foi na Rua Morgue que mais um crime ocorreu, desta vez, entre dois
vizinhos: um espanhol e um italiano, este último, enterrado vivo, cuja
evidência do crime foi descoberta no jardim da casa de número 30 da rua,
logradouro de que falaremos neste novo fato.
...
Outono de 1846, Thierry chega à Rua Morgue para mais uma
ronda semanal. É quinta-feira e a rua esta cheia de folhas, provenientes da
estação. Ele cumprimenta a senhora Françoise, que acompanhada por seu
inseparável gato preto está varrendo a calçada da casa. Assim também mais
alguns moradores recolhem folhas e outros dejetos trazidos pelo vento, e
Thierry segue sua caminhada pelo local quando ele vê um rapaz varrendo a
calçada e o policial logo se aproxima.
- Bom dia, você é o novo morador? – Nunca te vi pelas
redondezas, questiona o policial, que faz uma série de perguntas ao homem.
- Prazer, eu sou Alain Blanche e me mudei para cá com minha
irmã Anne, responde o desconhecido.
E quando Thierry ameaça perguntar mais alguma coisa, seus
olhos se distanciam de Alain e vão buscar uma silhueta esguia que desce
vagarosamente os degraus da casa, de cabelos presos à nuca, era Anne, que vinha
sorrindo para o policial, com a dentição perfeita, olhos esverdeados e nariz
pequeno, imagem que fez com que o coração de Thierry batesse forte.
Anne então vê que encanta o policial com sua beleza e charme
e ao se aproximar estica-lhe a mão para cumprimentá-lo, num gesto tão doce, que
o jovem policial – inexperiente no amor - fica encantado!
E você leitor, que já deve estar com a conclusão óbvia de
que Thierry se apaixonou pela bela moça, o policial passou a fazer a ronda
diariamente, sem avisar o chefe Deville, assim como também começou a frequentar
a casa dos irmãos. Alain disse que viviam da herança dos pais, e que Anne
recuperava-se de problemas emocionais. E assim começou a amizade entre eles,
que por intermédio do policial, os irmãos Blanche foram introduzidos à familiaridade
da rua, cujos vizinhos eram, de certa forma, unidos e gostavam de festejar
juntos determinadas ocasiões. Também vale a pena explicar que o policial
contava sobre suas façanhas profissionais e de como funcionava a delegacia,
enfim, até informações sigilosas.
Para comemorar o suposto aniversário de ambos, Alain
convidou todos os vizinhos e Thierry para uma festa em sua casa, já que a
convivência – por intermédio e apresentação do policial – dos irmãos com os
moradores da rua era muito boa e eles viviam na residência há três meses.
Thierry então, aproveitando essa ocasião, resolveu investir
numa surpresa.
Na noite da festa,
Thierry estava nervoso, pois seria a noite mais marcante de sua vida (e
realmente foi) e ele vestiu-se à altura de seu ato: iria pedir à mão de Anne em
casamento. Comprando um anel de noivado com economia, o jovem policial não se
cabia de tanta felicidade.
E a casa dos Blanche fervilhava com os vizinhos brindando,
comendo e se divertindo e foi então que Alain pediu silêncio ao brinde de boa
vizinhança e de comemoração ao aniversário. Logo após seu pronunciamento,
Thierry pediu espaço e Alain deu voz ao amigo da lei.
...
Já passava das dez da manhã quando o chefe Deville sentiu a
falta do policial Thierry, perguntando por ele ninguém o tinha visto chegar à
delegacia. “Algo estranho aconteceu”, murmurou o chefe Deville, pois Thierry
era conhecido pela prontidão e pontualidade e nunca se atrasou, em nenhum
momento.
Deville, que já andava desconfiado de algumas atitudes de
Thierry de uns três meses para cá (logo após a chegada dos irmãos), reuniu dois
homens e partiram para a Rua Morgue. O trio começou a caminhar e o local estava
deserto, o único a perambular era o gato preto da senhora Françoise.
O chefe de polícia Eduard Ferdinand Deville e os dois
policiais andavam pelo logradouro quando se deparam com uma cena dantesca que
começava no alpendre da casa dos irmãos Blanche: corpos pelo chão por todo o
imóvel até a sala e os quartos. As pessoas estavam deitadas, uns sentados e
copos espalhados, quebrados, muita bebida e comida pelo chão.
Deville enviou todo o relatório e pediu ajuda ao colega C.
Augusto Depin, o antigo chefe de polícia local que desvendou os assassinatos da
senhora L’Espanaye e sua filha Camila, mortos pelo orangotango da Rua Morgue,
pois precisava averiguar há quanto tempo e como os irmãos conseguiam praticar a
estratégia de roubo. Um fato era certo, desta vez, contaram com a “ajuda” do
apaixonado policial Thierry.
...
- Já contabilizei nossas finanças e conseguimos quantia
suficiente para não nos preocuparmos por algum tempo, diz Alain Blanche à irmã
Anne. E já tenho em mente nossa próxima parada, diz ele. – O que tem, está tão
distante, anime-se, pois esta é a nossa vida, diz ele.
- Bem, vou comer alguma coisa, você quer? – Pergunta Alain
se distanciando da irmã, que permanece sentada olhando a paisagem pela janela
do trem.
Assim que o irmão se distancia, Anne tira um bolinho de
papel amassado do bolso e desembrulha com o maior cuidado, ao abrir o papel, o
anel de noivado brilha entre suas mãos. Ela olha a joia por alguns segundos e
torna a guardá-la novamente no papel, assim como enxuga as lágrimas dos olhos e
se encosta ao banco do trem, pois teria uma grande viagem pela frente.
Do lado oposto de Paris, no bairro de la Roquette, Thierry
sonha com Anne e se debate em desespero. A enfermeira entra no quarto e lhe dá
o traquilizante para dormir.
Edgar
Allan Poe
Foi poeta, crítico e contista, nasceu em Boston, no
dia 19 de janeiro de 1809, representando uma tendência à parte do movimento
geral do Romantismo nos EUA. Cultivando na sua obra temas
fantásticos e macabros, Poe personifica uma das tendências mais marcantes do
movimento romântico transplantado da Inglaterra para a América.
Principais
Obras:
Contos: O gato preto,
Ligéia, O coração delator, A queda da casa de Usher, O poço e o pêndulo, Berenice,
O barril de Amontillado, Assassinato de Maria Roget, Os crimes da Rua Morgue, A
Máscara da Morte Escarlate, William Wilson, A carta roubada, O Retrato Oval.
Poemas: O Corvo e outros
Poemas (1845), Annabel Lee, A cidade do mar, Para Helena.



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