Olá
amigos, uma boa quinta-feira para todos nós.
Como
anunciei ontem aqui na página, disponibilizo o conto “A velha da serralheria”,
espero que gostem.
Grande
abraço,
Miriam
Conto
A velha da serralheria
Uma das primas de Isabella estava noiva e com casamento marcado para o início
de janeiro. Amigas desde crianças, as garotas sempre passaram as férias
escolares na Fazenda Floresta, no Jardim Alegre, no Paraná.
A fazenda
era dos avôs maternos de Isabella, um lugar espetacular que outrora foi
próspero e mantinha o bairro Pintor abastecido, pois a fazenda produzia café e
centenas de cabeças de gado.
Depois do
falecimento do avô, a fazenda aos poucos foi diminuindo a produtividade, pois a
avó não tinha mais condições de manter tudo aquilo, não com a ida do filho mais
velho que se formara em Veterinária e mudara-se para São Paulo. O outro filho
permanecera, mas pouco interesse tinha pelas terras, então, tocar todo o
serviço pesado do campo apenas com os caseiros, ficara cada vez mais difícil e
foi por esse motivo que as cabeças foram vendidas, e a plantação de café
encerrada.
Os animais que ali permaneceram foram catorze cachorros, sim, começaram com um
casal e dali com a procriação, os animais se multiplicaram.
E neste ano havia motivo para retornar à fazenda da vó Elida, pois a prima
Valquíria iria se casar e resolveu fazer a despedida de solteira naquelas
terras, para relembrar um passado tão querido e especial com as primas.
— Há, vó, as meninas estão chegando! — Gritava entusiasmada Valquíria, anfitriã
do final de semana e muito feliz em revê-las.
Desceram
do carro Isabella, Amanda, Priscilla, Mariane e Angélica, que era a mais velha
das moças, já casada e com uma garotinha, que ficara com o pai.
A avó estava contentíssima por consegue rever as netas unidas como nos anos de
colégio, quando passavam o mês inteiro das férias de julho ou de janeiro.
— Vó, disse Isa, aqui nada mudou, continua do mesmo jeito que da última vez que
estive aqui! — exclamou a moça, contente em rever aquela, que por muito tempo
foi seu lugar predileto pela beleza, serenidade e grandes atividades que
realizavam.
— É, tudo está igual! — Disse também Amanda, que estava quase noivando de
Guilherme, tenente do Exército Brasileiro.
E uma a uma as moças se abraçaram e a querida avó Elida. Vieram recepcionar as
primas os caseiros Pedro e Cintia, que estavam na propriedade há mais de vinte
anos, e por tantos anos de dedicação, eram mais amigos que empregados.
Foi um dia agitado, as primas saudaram muitas das atividades que faziam lá.
— Meninas, que saudades eu estava deste lugar! — Falava Isa com uma satisfação
imensa por estar na fazenda, que para ela foi muito importante em sua vida.
— Olhem que imensidão de terras, exatamente como da última vez que estive aqui,
disse Amanda, apontando para o corredor de passagem do canil até a porteira, o
qual se via ao longe, os cachorros correndo como sempre o fizeram.
As primas foram caminhando e chegaram até perto da casa grande que ficava
acima, e mais para baixo tinha uma piscina, que agora estava desativada, a
casinha das máquinas era onde os sacos de café ficavam acondicionados para
depois serem levados até a cidade.
— Nossa, me lembro como se fosse hoje, apontou Isa mostrando o local onde os
avôs deixavam o café ao sol para secar. Bons tempos aqueles, disse ela com os
olhos cheios de lágrimas.
E a noite caiu tarde, como era costume no verão, um espetáculo o pôr do sol, um
visual sem igual que encerrava a tarde para o início da noite e como a fazenda
ficava em terreno elevado, a beleza dos raios solares se despedindo do dia dava
um toque ainda mais especial à cena. Novamente os olhos esverdeados de Isabella
lacrimejaram.
— Vamos entrar, gritou a avó, que havia preparado junto com Cintia um jantar
apetitoso para as netas.
— Vejam lá vem o tio Paulo, gritou Mariane apontando para o jipe que se
aproximava da casa.
Ele desceu e correu para abraçar as sobrinhas. Paulo estava feliz em revê-las e
todos entraram para cear, até os caseiros.
— Nossa, vocês se lembram de como nos divertíamos muito nas férias aqui? —
dizia Angélica, mostrando o álbum da filha de cinco anos.
E
naquela noite todos se divertiram bastante com as histórias relembradas, com o
tombo de Isa, que ficou sem o dente da frente numa das férias e tantos outros
episódios.
— Há, vocês se lembram do que tinha bem abaixo desse terreno? — Perguntava
Amanda.
— Sim, um desfiladeiro, respondeu Isa.
— Sim, e abaixo disso? — Insistia Amanda, só para saber se elas haviam se
esquecido do grande mistério que rondava por lá.
— Há, já sei, — disse Priscilla, você está querendo dizer a assombração?
— Ui, gritaram todas de uma só vez: a velha da serralheria! — Como poderiam se
esquecer da história da velha, motivo de pavor que atormentava sempre?
Isabella, no entanto, foi a que mais ficou atordoada.
— Isabella, chamou a atenção Amanda, o que me diz sobre isso?
— Ai, novamente esse assunto, resmungou Isa, não querendo responder a
indagação.
— Mas você a viu ou não? – Questionou Priscilla, morta de curiosidade.
— Ei meninas, como Isa falou, de novo
este assunto? Dizem os habitantes daqui que é uma mulher muito perigosa e aviso
novamente para esquecerem isso — Falava bem alterado o caseiro Pedro.
— Eu a vi sim, uma vez quando desci para pegar a bolinha. — Retrucou Isa.
— Vó, gritou novamente Amanda, essa história não existe, não é mesmo? Vocês
inventaram só para não ficarmos perambulando lá embaixo, não é? — Questionava a
moça.
— É
verdade Amanda, essa história não existe, entrou na conversa Pedro.
— Existe sim! – Berrou Isa, vermelha de raiva por desconfiarem dela.
— Então nos conte, agora que tudo passou e você já é adulta. — Falou Valquíria,
que não estava nesse fatídico dia.
— Pois muito bem, iniciou Isa...
...
Eu me
lembro como se fosse hoje, estávamos jogando bets, eu, Amanda, Priscilla e
Mariane, Valquíria e Angélica não vieram naquele verão. Começamos o jogo às
quatro da tarde e continuamos animadas até as seis, pois estava um lindo dia e
os raios solares brilhavam e refletiam o verde do pasto das vacas.
Nisso, a
bolinha rolou rápido e não consegui pegá-la, caindo lá para baixo.
— Mão
furada, agora vai ter de descer para pegar a bola! — Gritava Priscilla.
E foi o
que fiz. Apesar da gritaria das primas dizendo não desce, é brincadeira,
resolvi enfrentar o mito e fui sozinha. Elas, no entanto, correram a casa para
chamar a avó.
Fui
descendo devagar e cuidadosamente para não tropeçar em uma pedra e rolar o
desfiladeiro e quando percebi, já estava lá embaixo. Fui caminhando e sentia
meu coração batendo forte, parecia que iria sair pela boca. Prossegui mais um
pouco e logo me deparei com a serralheria. Não sobrara muita coisa da casa, mas
no galpão de entrada estavam as máquinas empoeiradas e algumas enferrujadas. Caminhei
bem devagar e fui olhando tudo o que tinha por lá. Vidros quebrados e sujos
exibiam o que sobrou das janelas da casa. As paredes eram imundas de cima a
baixo e o local tinha muito mato.
O
mistério fora desvendado! Já havia saído do galpão e andado poucos metros
quando meu corpo ficou paralisado, era como se alguém estivesse segurando
minhas pernas, por mais que eu me mexesse, não conseguia sair do lugar. Gelei
de medo.
Nisso,
começou a ventar e a escurecer. Eu tremia incontrolavelmente. Quando consegui
me mover, senti uma energia de dentro da serralheria e era tão forte que
conseguiu virar o meu corpo e fiquei de cara com a serralheria, que estava
totalmente escondida em uma névoa. Quando esta se dissipou e já estava límpida,
eis que vejo algo olhando para mim.
Era a
velha, com os cabelos desalinhados, uma roupa surrada e ensanguentada. A mulher
me olhava fixamente.
Eu tentei
fugir, mas como num flash, a velha rapidamente saiu de onde estava e veio até
mim; estava com o corpo quase colado ao meu. Ela apertou os meus braços, pois
queria que eu olhasse para seu rosto e ao fazer isso, seus olhos penetraram os
meus, como que me hipnotizando e eu comecei a ver o passado pelos olhos dela...
... A
serralheria era grande e linda. Bem arrumada, pintada e toda equipada, um homem
grande e forte trabalhava sem parar para entregar a encomenda a um cliente. Os
empregados já haviam ido embora e o homem, o dono do lugar, estava sozinho.
Não
demorou e uma mulher chega, ela vinha da cidade e trazia duas sacolas nos
braços. Era uma mulher muito bonita e bem vestida, vi que era o rosto da velha.
Ela se
aproxima do homem, e apenas fala com ele.
Ele para
o serviço e pega uma carta do bolso. Ele mostra a ela, que dá de ombros e
continua andando até a porta de entrada da casa. Ele vai até ela e a segura com
força. Ele grita com a moça e bate nos rosto dela com a carta. Ela se afasta
dele e vira-lhe as costas. O homem se enfureceu e a segurou novamente, desta
vez, com mais força, a tal ponto de jogá-la ao chão. Não satisfeito, ele se
aproxima dela e lhe dá uma bofetada. Lágrimas escorrem do rosto dela, mas a
mulher provoca com uma gargalhada. Ele novamente bate em seu rosto, desta vez
com mais força, e bate novamente.
A face
ficara toda vermelha. Ela começa a chorar e eles discutem. Nisso, ela gargalha
mais uma vez e aponta alguma coisa para ele. Eu não conseguia ouvir nada,
apenas acompanhava as cenas.
O homem
voltou-se para ela enfurecido mais ainda. Ela se levantou e os dois começaram a
lutar. Ela bateu nele com um pedaço de ferro, mas não forte o suficiente e ele
o tirou das mãos dela com força e em seguida, bateu na cabeça dela duas vezes e
mais uma no rosto e a mulher foi ao chão e não se mexeu mais.
O dono da
serralheria largou o ferro e pôs as mãos na cabeça. Ele chorava descontroladamente,
se abaixou e abraçou o corpo da mulher, que estava ensanguentada.
Desesperado,
o homem andava de um lado a outro. Já anoitecia quando ele pegou uma pá. Ele
foi mais adiante da casa e no jardim, cavou um buraco fundo. Voltou, embrulhou
a moça em uma cortina, prendendo bem todo o corpo e o levou, jogando-o dentro
do buraco, juntamente com suas roupas sujas de sangue. Após coberto o buraco,
ele voltou e enfeitou como se tivesse plantado flores para que ninguém
percebesse.
Ao
terminar a cena, a velha desviou o olhar do meu e largou os meus braços, se
afastando lentamente, até retornar para dentro dos destroços. Fiquei ainda
parada sem saber o que fazer, como me recobrando de um transe.
Ao
caminhar para subir o desfiladeiro, o céu brilhava novamente no fim do
horizonte, assim como o cantar dos pássaros; tudo retornara a sua normalidade
de antes.
Isabella,
ao terminar de contar, todos da mesa estavam boquiabertos e com olhos
arregalados.
Angélica quebrou o silêncio com uma
gargalhada. — Prima, que imaginação! — Disse ela, e o alvoroço desfez o
silêncio do ambiente.
— Chega,
gritou Isa batendo com força na mesa. — Vocês insistiram para que eu contasse e
agora não acreditam? — Gritou a moça com raiva. Ela levantou-se e foi para o
quarto.
A avó
acabou com a confusão e o caseiro Pedro falava que a história não seria
possível, porque era uma lenda urbana.
Naquela
noite, as primas tiveram pesadelos e sonharam com a velha que aparecera na casa
da avó com o pedaço de ferro, a mulher estava furiosa, e as moças não
conseguiram mais dormir.
Na manhã,
todas contavam para dona Elida sobre o assunto e sentiram falta da presença de
Isa. No quarto, a moça não estava e a cama arrumada.
Isa não
conseguira dormir. Levantara antes do sol se por. Caminhou até o desfiladeiro. Respirou
fundo e começou a descer bem devagar. Ao término da escalada, avistara o
galpão, as máquinas, os destroços; o local estava exatamente do mesmo jeito da
vez que estivera ali.
Isabella
ficou parada em frente à serralheria e o medo de rever a velha a deixara
novamente assustada, mas isso não aconteceu. Ela andou e entrou no galpão e
começou a procurar por uma pá. Ao encontrar, caminhou lentamente até o jardim.
Isa
observou e logo distinguiu onde estava mais florido e bem cuidado era
exatamente onde deveria ser cavado e assim ela começou. Ao enfiar a pá na
terra, o tempo começou a mudar e a escurecer, mas isso não fez com que a moça
ficasse assustada e nem desistisse do que tinha em mente e assim ela continuou.
Chovia e
Isa estava suja de lama e toda molhada. Foi interrompida por uma voz que gritou
para ela.
— O que
você está fazendo aí, sua fedelha? — Era uma voz masculina.
Isa se
assustou e parou. Rapidamente pulou de onde estava e virou-se para ver quem
estava falando.
Ao ver
Pedro parado na sua frente, ela se assustou e deixou a pá cair.
— O que
pensa que está fazendo? – Gritou o homem raivosamente.
— Estou
desenterrando a velha, pois só assim acreditarão em mim, explicou a moça.
— Você
nunca deveria ter vindo aqui, sua intrometida. — Chegou mais perto Pedro.
Isa
suspirou e arregalou os olhos. — Meu Deus! E se afastou dele. Foi você quem a
matou, agora consigo me lembrar do homem, como pode fazer isso, por quê? —
Gritou a moça, chorando, pois Pedro sempre fora querido por todos.
— Aquela
vagabunda estava me traindo, descobri uma carta e ela iria me deixar e ainda
caçoava de mim. — berrava Pedro.
E ele foi
se aproximando de Isa. Apesar de ser um homem de meia-idade, era ainda forte e
hábil.
Isa tentou correr, mas o homem
rapidamente agarrou o seu braço, assim como o fez com a pobre moça, e a jogou
ao chão com força. Num piscar de olhos ele pegou a pá e veio para cima dela,
que gritava apavorada.
Pedro estava com a pá quase em seu
rosto quando ele parou e se afastou. Era a velha que aparecera e viera até ele.
Pedro se assustou, e sentiu uma forte dor no peito. Começou a apontar para a
velha e a andar para trás, andando sem parar com a mão no peito. Os passos
foram diminuindo até que ele parou e o corpo tombou para trás.
...
Depois de dois dias, as moças ainda não
haviam partido da Fazenda Floresta, pois tinham dois enterros a acompanhar.



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