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Conto: Mistério em Ouro Preto

Por Míriam Santiago

 

Bom dia a todos e excelente segunda-feira a todos nós.

Hoje, excepcionalmente, dia da coluna Cantinho da Poesia, será postada amanhã, pois deixo aqui na página o meu conto “Mistério em Ouro Preto”, espero que gostem.

 

Dia 22 de agosto, há exatos 85 anos, nascia minha saudosa mãe, falecida há um ano, infelizmente. Homenageio a pessoa que cuidou de mim, me amou e a qual eu agradeço por tudo o que ela me deu: caráter, dignidade, respeito, honestidade, amor ao próximo e ser uma boa pessoa.

Com muita “briga” ela conseguiu me colocar no caminho certo da vida, e o que antes, quando muito nova não entendia, compreendi ser aquele esforço necessário para o meu crescimento. Agradeço minha mãe por tudo o que fizeste por mim. Obrigada Deus, posso dizer que sempre tive sorte na vida!


Mistério em Ouro Preto

 

O

 nevoeiro tomou conta mais uma vez de Santos, cidade litorânea do Estado de São Paulo, a mais populosa da Baixada Santista. Não é muito comum no mês de julho, e o quarto episódio foi registrado no dia 20, neste ano de 2022.

Falando assim você leitor deve estar se perguntando, qual a novidade este assunto nos traz? Para mim nada de novo, mas ao retornar do trabalho no dia mencionado, me deparei com um vizinho do térreo do edifício em que moro, o senhor Fernandez, um idoso que veio da Espanha ainda criança. Mudaram-se para cá porque naquele país a família passava necessidades financeiras e o pai, convidado por um parente, assumiu a gerência da Bolsa do Café de Santos, situada no Centro Histórico, mas como não deu certo, foram tentar a sorte em Minas Gerais.

O senhor Fernandez, contudo, estava um tanto estranho naquele fim de tarde e assim que estacionei, veio me pedir ajuda.

- Já viu como não se consegue mais enxergar as casas no morro? Perguntava apontando para o Morro Santa Terezinha - o mais alto de Santos, com 220 metros de altura. Lá de cima, dá pra ver toda a Cidade e, em dias claros, partes de São Vicente e Guarujá – estou intrigado, não gosto de nevoeiros, ai, ai, ai... isso não é bom! Ia falando o velhote com um semblante totalmente alterado.

Fui caminhando até a porta do prédio e ele atrás resmungando. Entramos, mas antes de me dirigir ao andar de cima, a preocupação com o estado emocional do vizinho me deixou ficar mais alguns minutos com o homem, que me fez entrar em seu apartamento.

- Senhor Fernandez, o que está acontecendo, porque toda essa aflição? Indaguei.

- Meu jovem, veja como estou tremendo – e as mãos do pobre idoso balançavam tanto que ao tentar segurar um copo com água o líquido foi derramando por toda a sala.

Ao questioná-lo mais uma vez, ele se pôs a falar...

 


Tudo começou quando fomos morar em Minas Gerais, precisamente em Ouro Preto, lá meu pobre pai foi tomar conta de uma espécie de pousada, assumiu a gerência do lugar e minha mãe a cozinha, fazia o café e o jantar dos hóspedes, ocasião em que eu e minha irmã estávamos no primário. Foram momentos ótimos, meu pai prosperou, conseguiu adquirir um pequeno imóvel e assim fomos crescendo. Minha irmã sempre fora comunicativa e se dava bem com os amigos, nos estudos e em tudo o que se dispunha a fazer. E eu sempre mais contido, mas também conseguia me dar bem em meus compromissos.

Já era um rapaz com meus 17 anos e para ajudar a família passei a trabalhar. Minha irmã Dolores, mais velha cinco anos, iniciava curso na faculdade e como escrevia muito bem conseguiu um emprego na redação de um jornal local. Já eu fazia um pouco de tudo e num certo dia, após a missa de domingo na capela das Mercês, perto de nossa residência, o pároco veio ter comigo, me ofereceu um emprego de zeladoria, pois iria para a Capital participar de um Congresso para padres, bispos, consagrados e líderes pastorais e eu fiquei encarregado de cuidar da capela.

Era uma daquelas noites frias e chuvosas de Ouro Preto, quando em Minas começa em outubro o tempo das águas. Estava já dormindo em um dos quartos da eucaristia quando escutei um barulho. Ainda sonolento coloquei os óculos, o relógio da cabeceira marcava meia-noite. O horário já me deu um arrepio na espinha, mas mesmo assim, deveria honrar a minha função ali, de proteger a igreja, pois bem, coloquei um roupão, calcei os chinelos e fui pisando leve para não fazer barulho. Mas quem poderia se atrever entrar no templo, já que era pobre e qualquer pessoa, por mais desavisada que fosse, só de olhar o lugar saberia que a capela das Mercês não dispunha de grandes bens como prataria, ouro ou qualquer objeto que valesse um sacrilégio. Pensei, devo estar ouvindo coisas e ao dar meia-volta para retornar a dormir, o barulho ficou mais alto e desta vez, distintamente cantado por vozes estranhas, ouvi o “Deus nos salve” do começo da ladainha.

Então fui pé ante pé me escorando nas paredes. A igreja estava toda iluminada, com os lustres acesos e apinhada de fiéis. No altar-mor um sacerdote, devidamente paramentado, celebrava a missa. Engoli em seco, pois com certeza apaguei todas as luzes e tranquei as portas, como poderiam estar ali?

Os fiéis trajavam de preto. Entre eles, alguns homens de cogula e algumas mulheres de hábito da Irmandade das Mercês. Todos ajoelhados e de cabeça baixa, não me viram perambular e chegar mais perto, pois estranhei a nuca do padre, pelada, lisa e branca, já que nunca vi calvície daquele jeito no clero de Ouro Preto, que eu conhecia muito bem.

Então foi quando o celebrante foi dizendo palavras em latim e gesticulando que percebi que este tinha uma caveira em lugar da cabeça. Com a mão à boca, para não gritar e o coração batendo acelerado, dei um passo para trás, quando me desequilibrei derrubando um cálice, tirando a atenção da reza e dos fiéis, que também em pé, voltaram seus olhos para mim. Foi a pior imagem que vi em toda a minha vida, pois além do suposto pároco todos não passavam de esqueletos vestidos!

Me benzendo sem parar, corri para a porta ao lado, que estava escancarada e tentei fugir daquele horror, mas me deparei com mais esqueletos vestidos de preto, que guardavam a porta que dava para o cemitério do adro. Corri então para a porta da frente, que trancada, as chaves estavam no quarto. Nisso, por atrapalhar a missa, todos os esqueletos se voltaram para mim apontando. Uma névoa tomou conta do lugar e entre os fiéis, veio em minha direção o pároco, que irritado deixou o altar-mor. Apontando para mim escutei uma voz dizendo que outrora, no tempo certo, eu iria acertar as contas por ter atrapalhado a missa e foi falando muitas coisas, que naquela hora eu já não conseguia escutar mais nada, e quando todos começaram a avançar em minha direção, cai ao chão e não conseguia me levantar, uma força descomunal me mantinha parado e várias vozes diziam palavras que não conseguia compreender, até que “farás parte do grupo” eu entendi e ao ver o sacerdote bem próximo de mim, desmaiei.

Ao abrir os olhos e conseguir me levantar, não havia mais névoa, a capela estava vazia, a porta fechada e as luzes apagadas, como se nada tivesse acontecido. Confuso e com a cabeça doendo pelo desmaio, consegui chegar ao quarto. Estava completamente zonzo e toda a cena ainda permanecia em meus pensamentos, me deixando apavorado!

 

Quando o padre chegou já sabia o que acontecera, pois minha história foi a maior chacota da cidade. Foi então que me mudei para Santos sozinho e nunca mais contei aquele episódio para mais ninguém, e, aos poucos, deixei pra lá, até que hoje tudo aquilo voltou a minha mente, uma lembrança que quisera ter esquecido...

 

Consegui acalmar o idoso e colocá-lo na cama para dormir. Não falei, mas é claro que não acreditei em nada do que contara, como pode uma missa para os mortos?

Depois de dois dias, outros vizinhos deram conta da presença do senhor Fernandez, que ao não atender a porta, perceberam algo errado ao sentirem certo odor vindo do apartamento.

A polícia reuniu todos do prédio, pois queria saber quem era um tal de Filipe, já que o senhor Fernandez escrevera em vários papéis espalhados pelo apartamento episódios de um suposto ataque, os bilhetes, que diziam: “Filipe, a névoa tomou conta do apartamento”; “Filipe, eles vieram me buscar”; “Filipe, não consigo gritar, não consigo se quer andar”; “Filipe, você foi o único que não debochou de mim... eles estão aqui”, sinuavam que o idoso passava por demência, já que não havia nenhum sinal no corpo de enforcamento, esfaqueamento ou qualquer outra agressão e a causa da morte, ataque cardíaco.

E assim, o caso foi encerrado, o senhor Fernandez enterrado e uma sobrinha (Amanda) advogada veio de Minas Gerais para cuidar do inventário. Ela me procurou, por ser o único nome mencionado pelo tio.

Juntos começamos arrumar as coisas, roupas, sapatos e utensílios para doação, além de outros preparativos. Mesmo triste pela vida solitária do tio, que segundo o atestado sofria de esquizofrenia.

Foi quando nos deparamos com uma gaveta cheia de cadernos e calendários, os desenhos deixados pelo homem eram de caveiras que marcavam o dia exato que viriam buscá-lo, caveiras com vestimentas, missa.

E para quem achava lunático o idoso, com uma arrumação mais detalhada, conseguimos encontrar objetos quebrados embaixo da cama, além dos batentes da copa e da cozinha que estavam arranhados, assim como ao puxarmos o tapete, várias marcas de arranhões...

  

  A história é uma adaptação do folclore de Minas Gerais “A missa dos mortos” e homenageia o Dia do Folclore, comemorado em todo o país no dia 22 de agosto

 

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