Especial para o Dia dos NamoradosConto: Amor, eterno amor
Por Míriam
Santiago
Fui a Itororó beber água e não achei.
Achei bela morena
Que no Itororó deixei...
Estamos em junho, mês do amor, do romance, de
grandes poesias dedicadas à data, que remetem cada linha e estrofes às palavras
que nos enchem o coração de amor ou de prazer.
Seguindo-se ao pé da letra ao calendário,
recordo-me de viver intensamente e sentir um amor daqueles que te leva a fazer
qualquer coisa para ter em seus braços a mulher amada uma vez, ainda consigo me
lembrar deste episódio, mesmo aos 92 anos de idade...
...
Recém-chegado a Santos, minha família e eu não
sentimos muita diferença em relação ao clima, já que em Salvador o calor
intenso também sentido nessa Cidade, nos deixou confortáveis nos habituando
facilmente desde o primeiro dia em que deixamos nossa saudosa e amada Bahia.
Meu
pai é um homem abastado cuja herança herdada dos pais, como filho único, nunca
precisou se preocupar com o futuro, garantido para todos nós por muitos anos,
ou melhor dizendo, para quase o final de nossas vidas.
Diferente
de meus avós, sou irmão caçula de três lindas moças, respectivamente: Elisa,
Carolina e Agatha. Com diferença de idade de dois anos entre as duas primeiras
e três anos entre Agatha e eu, essa irmã é a que mais convivi e a única em que
depositei meus segredos, já que as outras não tinham tanto amor assim conosco
por sermos os mais novos. Mas nada disso teve muita importância para mim, já
que por ser o único varão da família recebera tratamento diferenciado e para o
ódio das duas mais velhas, aos 10 anos de idade ainda era tido como o “reizinho
da casa”; modéstia parte, adorava o título já que eu as enxergava como duas
víboras tenebrosas. Esses momentos em família, tão comuns entre os humanos e,
principalmente, entre os latinos me dava certa posição familiar.
Instalados
em luxuosa casa no Centro de Santos, logo fomos apresentados às famílias da
sociedade da década de 1940, quando a Cidade crescia a cada dia graças ao
comércio de café e ao intenso movimento no porto de Santos, que de “porto
maldito” passou ao maior da América Latina.
Já beirava
os 18 anos e um futuro promissor meu pai colocaria em minhas mãos ao assumir a
gerência de uma das fábricas de tecidos, uma filial a ser inaugurada em
Portugal, e tomaria posse muito em breve, além do mais, concluiria os estudos
na Universidade de Coimbra. Sentia um pouco de medo em assumir tão alto cargo,
já que a responsabilidade seria imensa, mesmo assim, o desafio deixava meu
sangue fervilhar e a ansiedade complementava esse sentimento, que contava nos
dedos os dias para mudar radicalmente minha vida, passando de um garoto
acostumado ao conforto e mimos da mãe, para me tornar o homem de negócio que
almejava meu pai.
Ambos
iriam comigo para a inauguração da fábrica, minha instalação em um imóvel já
comprado e mobilado, sendo que em seis a oito meses minha mãe retornaria ao
Brasil e meu pai ficaria comigo pelo menos nos dois primeiros anos.
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| Fonte do Itororó, no Centro de Santos (foto atual) |
Mas como a vida da gente às vezes não é perfeita e planos são feitos e desfeitos a todo momento, recordo-me que ao terminar os estudos peguei o bonde para casa, faltava quase uma hora para o almoço. Do bonde escutei uma cantoria, vozes de mulheres e fiquei intrigado, descendo e caminhando até o local proveniente daquele som agradável.
Andei
bem pouco e quando dei por mim estava no Recanto do Itororó, à subida do Monte
Serrat, nunca tinha ido até lá, não conhecia e fiquei fascinado, pois era um
lugar aprazível, com várias pessoas passeando, local com temperatura amena por
conta da mata (durante todo o ano) e a água fresca que brotava da fonte. O
lugar, sem dúvida, era adorável. A cantoria vinha de um grupo de lavadeiras,
eram sincronizadas e deixavam o lugar ainda mais envolvente. Sentei-me em um
canto e fiquei escutando a música com os olhos fechados. Uma voz doce e afinada
se destacou das demais, cantando lindas canções. Ao abrir os olhos, fiquei
paralisado ao ver a graciosa flor morena, com cabelos lisos e negros até a
faixa do vestido branco que marcava a cintura. Da boca vermelha e carnuda saiam
agudos que deixavam lindos dentes brancos a mostra. Ela era de “fechar o
comércio”, nunca tinha me deparado com uma moça tão linda, meiga, adorável!
Cantaram
mais um pouco alegrando a todos ao redor. O grupo após findarem de torcer as
roupas, colocaram-nas em vasilhas, que de tão limpas brilhavam aos raios
solares. Uma das mulheres falou ao ouvido da moça, que se virou em minha
direção, quando nossos olhares se cruzaram. Aqueles olhos amendoados
encontraram os meus e ela sorriu e virou o rosto. As lavadeiras estavam todas
vestidas no mesmo tom e estilo, e eu com o uniforme da escola.
-
Moça! Disse-lhe chegando mais perto quando ela e o grupo deixavam o local com
as roupas acomodadas em vasilhames à cabeça.
- Qual
é o seu nome?
Ela se
virou e falou bem baixinho: Rita, continuando o passo junto as demais.
Fiquei
perplexo, parado olhando o grupo se distanciar cada vez mais. Rita se destacava
entre todas mantendo o passo, sem olhar para trás.
- Elas
vêm aqui às segundas, quartas e sextas, mas é melhor você não se envolver com
essa garota, disse um senhor, colocando a mão em meu ombro. – Eu conheço sua
família, continuou ele, não gostariam que você se envolvesse com ela.
- O
quê, disse-lhe. Parei e atravessei a rua, me distanciando bem rápido do homem,
estava indignado pelo jeito de falar.
Peguei
novamente outro bonde. Não sei como consegui entrar e sentar-me, já que minhas
lembranças ainda perambulavam pela bica do Itororó. A voz ritmada, a pele
morena, o rosto maravilhoso da moça permaneciam em minha mente, não conseguia
esquecer a suavidade de como Rita veio até meus ouvidos, subindo ao cérebro e descendo
até ecoar no coração!
Em
casa disfarcei tão bem que ninguém notou que fora abatido pela paixão, somente
Agatha percebeu que algo estava estranho, mesmo assim, não comentou.
Foi
uma longa noite sem que conseguisse dormir. A imagem da linda morena se
mostrava bem perto de mim em todo o quarto, a figura dele eu via nitidamente em
qualquer lugar daquele cômodo, uma paixão ardente que nunca sentira esse
sentimento por nenhuma outra moça.
Ao
soar o alarme finalizando as aulas, eu já estava na porta do colégio a sair e
pegar o bonde. No caminho fui desabotoando a camisa do uniforme para dar ao
visual um ar mais velho do garotinho infantil com o logotipo pregado ao peito.
Despenteie o cabelo com as mãos e deixei a camisa com o último botão aberto,
queria impressionar.
E lá
estavam elas, as lavadeiras do Itororó. Notei que Rita me viu chegar, pois seus
olhos procuravam os meus e logo que me viu abaixou-os. E assim, a felicidade
tomou conta daquela segunda-feira, assim como da quarta e da sexta.
Na
outra semana, ao sentar-me à espera das mulheres, Agatha apareceu ao meu lado.
-
Então eis a sua paixão a cantar, disse minha irmã. Calma, não se assuste, sabes
que não falarei nada a ninguém, mas se papai souber, não vai acabar bem, você
sabe. Faltam cinco meses até você completar 18 anos e partirá para assumir a
filial dele, é melhor deixá-la ir. Olhando para vocês em mundos tão diferentes,
tem que esquecê-la, ela não é o seu futuro, não atrapalhe a vida da moça. E
Agatha levantou-se e foi embora. Rita de longe observou e pensou que fosse uma
garota interessada em mim.
Em
nossos encontros, disse-lhe que era minha irmã, já que a verdade não havia mais
jeito de esconder. E tinha também aquele senhor que trabalhava por ali e ficava
de longe, a espreita nos observando. A situação tornou-se insustentável.
Em
mais um encontro às escondidas e sempre com desculpas diversas a minha família,
contei a verdade à Rita.
-
Então sua família é rica? Eu já suspeitava por suas roupas, seu modo de agir
sempre com medo de alguém nos ver. Acho melhor não nos encontrarmos mais, disse
Rita com lágrimas aos olhos.
-
Espere, argumentei, é verdade e o pior é que ao completar 18 anos em junho,
irei embora a Portugal para assumir uma fábrica que será inaugurada lá naquele
país.
- E
quando iria me contar? Pergunta Rita. Vocês têm muito dinheiro e eu não sou
ninguém, sou filha de uma lavadeira, não conheci meu pai, vivemos minha mãe e
eu em um quartinho num cortiço com mais famílias. E também eu mal sei escrever
e ler, desde muito pequena, trabalho para ajudar minha mãe, tive de abandonar o
terceiro ano primário.
- Nada disso tem importância para mim, quero ficar com você, retruca Nelson.
- Isso é loucura! Grita Rita ao empurrá-lo. Não podemos prosseguir, me deixe em paz!
E a
pobre garota sai correndo pela Rua Bittencourt, atravessando ruas até a João
Pessoa, pois sua casa ficava ao final desse logradouro. Mas Nelson segue sua
amada se escondendo para que Rita não visse que ele a seguia. Ela abre o portão
da casa e entra, antes de abrir a porta de entrada olha para trás e não vê
ninguém, mas Nelson estava abaixado atrás de alguns latões e descobre o lugar onde
residia. Num impulso, bate na porta e ao abrir, Rita se surpreende com um beijo,
que ela retribui. Nelson a empurra para dentro e fecha a porta. Naquele horário
o cortiço estava vazio, já que todos estavam em seus respectivos serviços. Com
o coração de ambos tomando conta da situação, Rita o conduz até o seu quarto,
que ficava no final da casa. Ao abrir a porta do minúsculo cômodo, Nelson e
Rita se beijam e deixam o desejo falar mais alto. Apaixonados, aquele momento
marcaria a vida deles para sempre, mas os jovens não se importam e se rendem à
energia do amor!
Já era
noite quando Nelson retorna para casa. Após deixar Rita ele perambulou pelo
Centro à procura de uma solução, estava decidido a fugir e levar a amada junto
e foi assim que começa a arquitetar um plano de fuga, sim, pediria que Rita se
casasse com ele as escondidas e os dois partiriam para Salvador, lá ele saberia
se virar, tinha familiares bem menos abastados que os acolheria até ele arrumar
um emprego. Mas para conseguirem partir, ele teria de arrumar dinheiro para o
navio e as provisões até conseguir findar todo o plano. Ao chegar à casa, sua
mãe e irmãs aflitas, foi recebido pelo pai e junto dele aquele senhor que o tocou
no ombro, ele era um dos empregados do pai, o mais fiel, e sem que Nelson
soubesse, tudo o que fazia era relatado ao pai.
Sem
que Nelson descobrisse, a pobre Rita recebeu uma enorme quantia em dinheiro
para deixar a cidade junto da mãe, que doente, não conseguiria mais serviços de
lavadeira e mais nenhum outro. Seriam mantidas na capital, bem cuidadas,
principalmente o tratamento da mãe. Quanto a Nelson, o pai o deixou seguir seu
plano.
Furtando o dinheiro do pai e com as passagens de
navio, ficou à espera de Rita no lugar combinado. E as horas foram passando e
aflito, Nelson entrou em desespero. Sentado em baixo de uma árvore, suas
lágrimas se misturaram com os pingos da chuva que escorria em seu rosto.
Frustrado, o pai lhe estendeu a mão e levou o filho para casa. O plano para a
filial em Portugal fora mantido, assim como a sua vida que seguiu...
...
Nelson depois dessa recordação que aconteceu há
anos no Dia dos Namorados nunca mais comemorou a data. Logo após o almoço
recebe uma carta vinda do Brasil, de uma cidade do interior de São Paulo. Era
da Congregação Irmãs Filhas de Maria Missionária, em Santo Anastácio. Mesmo sem
conhecer ninguém desse convento Nelson aceitou o envelope e foi abri-lo em seu
quarto.
Querido
Nelson
Há
tempos acompanho a sua vida e sei que ainda está vivo, graças a Deus. Nunca
tive coragem de escrever-lhe, mas agora, como o meu tempo aqui na terra está
terminando e até esta carta chegar em suas mãos talvez eu já tenha partido, não
poderia seguir meu plano espiritual sem contar-lhe o que aconteceu.
Quando
combinamos em nos encontrar para fugirmos, seu pai e um outro senhor apareceram
na minha casa e digo que por incrível que pareça, nunca duvide da fé. Seu pai
me ofereceu enorme quantia em dinheiro para que eu deixasse você seguir sua
vida e desaparecesse sem aparecer ao encontro. Pesando a minha situação,
aceitei a oferta e seu pai foi um homem de palavra, cumprindo tudo o que me
prometera. Por causa de nosso romance, minha mãe enfim pode receber um tratamento
que durou três anos e ela ficou curada, pois desenganada por nossa pobreza, ela
morreria em dois anos. Assim que nos mudamos para a capital, para uma casa
excelente com todo conforto, após a saúde restabelecida de minha mãe, pude
voltar a estudar, ministrar aulas, fazer boas amizades. Quando do falecimento
dela, sozinha, doei a casa para uma instituição e o restante do dinheiro
adquirido doei também à Congregação em que me ordenei irmã, servindo a Deus até
o fim de minha existência. Nunca consegui amar outro homem, nunca consegui te
esquecer. Eu não poderia fugir contigo e deixar minha mãe à deriva, mas paguei
o preço de não poder me despedir, de deixa-lo partir e seguir seu rumo.
Espero
que um dia você me perdoe por ter escolhido minha mãe.
Adeus
Nelson, com todo o meu amor,
Rita
de Cássia
Nelson beijou a carta e a guardou em sua primeira
gaveta da cômoda junto com outras fotos da família e uma folha de caderno gasta
com o tempo com uma poesia dedicada à Rita.




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