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 Conto: Libertação

Por Míriam Santiago

 

Correntes que nos prende

e aprisiona a algo.

A liberdade existe de fato?

Então o artefato, neste caso,

nada mais é do que pura ficção!

(Míriam Santiago)

  

            Aproveitamos a ida da família real em 1808, para que, junto de mais famílias portuguesas, pudéssemos desembarcar no Brasil. O novo mundo nos encantou, pois em Portugal muito se falava dessa conquista e a promessa de uma vida melhor nos foi ofertada. Meu marido e eu então partimos em uma nau, ao todo foram três embarcações que saíram logo ao nascer do sol levando em cada uma delas, além de quase 1.500 pessoas, carregava a esperança.

E assim deixei o Velho Mundo, o meu amado país, as lembranças de uma terra fértil de rica plantação para a incerteza, sentimento que carregava dentro da alma, mas que não deixava transparecer ao meu marido, que diferente de mim, não se cabia de felicidade em tentar uma nova vida.

            No décimo dia de viagem eu já não aguentava mais. Como nasci e permaneci sempre no mesmo vilarejo, não tinha ideia do que seria viajar para tão longe sem nenhuma acomodação, com higiene precária, comida fracionada, sem banheiro, tudo era contado e os mais abastados financeiramente conseguiam se alimentar melhor e até dispunham de pinicos, limpos por seus escravos, já que na embarcação o dinheiro “falava” mais alto.

            Dormíamos em um minúsculo espaço e só conseguimos ampliá-lo porque o casal que dividia o espaço conosco desapareceu, nos deixando acomodar melhor meus sete filhos.

            E mesmo após tantas gestações, ainda continuava uma mulher atraente, com o cabelo ruivo à cintura, mas que o mantinha sempre num coque, olhos claros, assim como a cor da pele, foram os atrativos que ofuscaram as vistas do capitão no décimo quinto dia de viagem. Não podia subir ao convés que o capitão se juntava a mim vindo a puxar conversa. Consegui por vezes me esquivar, mas numa noite em que não conseguia dormir e a angústia em chegar à terra prometida me levou até o convés e não me dei conta do perigo que rondava o local. Ao fugir de dois marujos bêbados, fui parar na porta da cabine do capitão, que ao barulho abriu a porta expulsando os homens e me colocando para dentro.

            A cabine do capitão ficava ao final do navio, em ponto estratégico e o único a ter certas regalias. Uma tina ao canto com toalhas limpas, assim como onde dormia. O aposento também era o único local a cheirar bem, diferente de onde me instalara com minha família, que cheirava a mofo, doença, com percevejos, carrapatos, baratas e ratos, que disputavam a pouca comida o cheiro da morte que entupia nossas narinas e nos levava a vômitos. Assim era todo o local dos aposentos, desumano e nojento, tão insalubre que muitos adoeciam e morriam.



    O capitão chamava-se Leandro, um rapaz forte, alto, bem apessoado e educado. Sentei-me à mesa, serviu-me comida e uma taça de vinho. Sentou-se em frente a me olhar; não puxou conversa, apenas observava meus olhos e em notei quando o sono foi tomando conta de meu ser. Acordei com o meu marido me chacoalhando, gritando porque os meninos estavam com fome. Ainda tonta, de pronto não me dei conta do que havia acontecido depois do vinho, mas ainda podia sentir o perfume do ambiente e das roupas limpas da cama.

            Depois de 50 dias dentro daquele “inferno” aportamos no novo mundo. As três naus ancoraram na Baía de Guanabara e para irmos a terra fomos conduzidos a botes que desembarcavam passageiros e mercadorias e recebiam mantimentos e água. Logo que pisamos “em terra firme” olhei ao redor e tive um mau pressentimento, um lampejo e cenas horripilantes invadiram minha mente, vi morte, sangue e destruição, agarrei o braço de meu marido, mas nada falei, assim como os enjoos que já anunciavam que o oitavo filho estava por vir.

            Depois de uma semana nos ajeitamos em nossa casa, as crianças corriam e pareciam felizes, assim como eu também tentava ser. E finalmente conseguimos ter nossa primeira noite de amor após 60 dias desde que deixamos Portugal, ansiava por ela, pois em breve já não conseguiria esconder a situação, nem a barriga.

            - Patrícios, venham comemorar o nascimento de meu filho Rodrigo, o único em terras brasilienses. É um dia feliz para mim, pois marcará para sempre nossa conquista nesse lugar, que até gosto, não posso negar, brinda meu esposo com os vizinhos. E a cada semana, um vizinho também felicitava o nascimento do primeiro filho nascido no Brasil.

            Havia certa magia em nós mulheres, pois assim como eu, as outras sete também escondiam um segredo, mas nenhuma de nós deixou transparecer. Ao total éramos em 20 casas e formamos uma vila ao sopé de um morro, que lá de cima podíamos ver as embarcações chegando e partindo e todo o movimento do cais. As crianças nos ajudaram a plantar árvores frutíferas, construímos jardins e aos poucos fomos deixando o local mais parecido com nossa amada terra natal.

            - Mulher, disse meu marido, estou chateado, pois os nossos sete vizinhos mais chegados por conta de nossos filhos brasileiros estão partindo da vila.

            - E para onde irão? – perguntei-lhe com certa angústia. Falaram em povoar todos os cantos do Brasil e cada um está partindo para um território diferente, esclarece meu marido José Pereira Martins.

            A festa de Rodrigo, que completara 13 anos de idade estava animada e os moradores da vila participam da comemoração. Rodrigo, porém, não estava feliz, pois os outros sete amigos inseparáveis não estavam presentes. Ele era o mais velho, mas todos os outros também completariam a mesma idade.

Ao apagar as velinhas, abracei meu filho, ao fechar os olhos, a recordação daquela noite veio aos poucos, do gentil Leandro me conduzindo à mesa, me servindo até a cama, que entre os lampejos conseguia sentir seus beijos e minhas roupas sendo tiradas com delicadeza. Mas a memória falhava e era reavivada em flashes.           

Entre carícias já não via mais os cabelos louros do belo capitão e sim, uma penugem branca em minhas mãos, e entre meus braços um corpo defeituoso, todo enrugado e torto... Abri os olhos e ao ver meu filho o empurrei e sai correndo, indo vomitar na rua, bem distante ao me lembrar daquele rosto deformado também com dentes tortos e nojentos. Sim, aquele era o pai de Rodrigo e não o belo Leandro. Mas quem seria ele afinal? Nunca saberia, com certeza. O homem por minha visão da memória teria ficado daquele jeito em razão de uma doença.

A lua cheia despontava no céu de março e a festa ainda prosseguia animada, os vizinhos comiam um porco preparado especialmente para a ocasião, daquela noite quente de verão. Rodrigo, o aniversariante sentia-se indisposto e levei-o para dormir, já que os adultos animados nem notaram a sua presença. Deixei o menino dormindo e fiquei na porta da casa observando a festa. Nisso, um barulho ensurdecedor se escuta vindo de longe. Tão alto, que fez com que muitos vizinhos tremessem.

Mas o bom vinho e o porco, a salada de lentilha, entre outros pratos foram mais apetitosos e todos deixaram para lá. Da porta escutei um som estranho de plantas arrancadas aos passos de alguém se aproximando, e vinha depressa. Mais perto da vila novamente o barulho ensurdecedor, que nitidamente se assemelhava a uivo, fez com que as pessoas parassem de comer novamente. E tão próximo foi o barulho e a rapidez de um vulto que logo se fez presente bem perto de nós. A lua encoberta entre nuvens escureceu a vila. E rapidamente a criatura ou o bicho selvagem, sabe-se lá o que era, começara atacar os moradores. Os mais frágeis foram os primeiros a ser degolados. A criatura era enorme, peluda, que usava de toda força para morder e sorver-se de sangue. E corria em quatro patas ou pés, pulando em cima da próxima vítima, retalhando-a até as vísceras. E quando a lua despontou reluzente, havia corpos e muito sangue por toda parte, tão qual minha visão.

Na reconstrução do povoado, os soldados do imperador vieram e levaram Rodrigo, chamados pelos vizinhos, que apontavam meu filho como a fera, o monstro da lua cheia por ser o oitavo filho de sete meninos posteriores; era a lenda do lobisomem que os atormentava, sendo apedrejado em meio a prisão.

Desolados, eu e meu marido tentamos de tudo para salvar Rodrigo, que julgado foi condenado à morte.

E assim como aconteceu na aldeia onde morávamos, nas outras partes do país, onde as outras famílias foram habitar o episódio foi o mesmo. No aniversário dos 13 anos, início da puberdade, o lado inumano despontou naqueles meninos, filhos obscuros, concebidos de uma doença.

Quando tudo parecia voltar ao normal, no mês seguinte, o mal rondou a vila novamente e a criatura despertou entre o esconder da lua cheia, matando e devorando mais vizinhos até que os poucos sobreviventes mudaram-se para perto do cais.

Não tão longe dali os soldados à caça da criatura encontraram uma choupana no meio da mata com roupas femininas e correntes, além de alimentos. Os homens desistiram, já que não havia pegadas a seguir e nem pistas a investigar.

Caminhavam mata adentro sem sapatos e com folhas grudadas aos pés para não deixar rastros mãe e filha, uma adolescente doente, com o corpo magro e curvado de nascença, dificuldade para falar e se comunicar. A mãe esconderia a moça em um lugar mais seguro até o próximo momento de libertação.

- Pronto minha filha, fique com provisões até que eu consiga voltar.

Despediu-se e no caminho de volta toda a sua vida foi sendo detalhada, desde jovem em Lisboa quando de sua paixão pelo vizinho, a mão prometida ao marido, um homem detestável para ela que nunca a respeitou na quarentena dos filhos, engravidando-a até no resguardo. A infelicidade em ter que largar a terra natal para vir tentar a sorte num lugar provinciano. A humilhação naquela nau, na sujeira e expondo as crianças a qualquer tipo de doença, até ter se sujeitado à cama do capitão gerando os gêmeos. Mas o pior foi presenciar a morte do pobre Rodrigo e de Conceição, a única filha, que o marido mandou enterrar viva ao nascer por causa da doença, sendo salva por uma escrava que a guardou a mando dela. Tudo em sua vida foi lastimável!

- A cada vez que Conceição se liberta ao transformar-se por meio dela eu me sinto livre também de tudo isso que odeio.

E mais uma vez a lua cheia despontou no céu estrelado, despertando medo e incerteza nas pessoas e libertação no coração dos sofredores.

         

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