Conto Desaparecidos
Olá, bom final de Carnaval, tempo ótimo aqui na Baixada Santista.
Hoje deixo aqui na página o meu conto Desaparecidos, que faz parte da edição deste mês da Revista Conexão Literatura, espero que gostem.
Abraços, até amanhã.
J
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á era noite no outro lado do mundo às 17
horas da tarde. Em Londres, Inglaterra, ao adentrar ao quarto nº 835 do Hotel
Park Plaza Riverbank marcava 11º naquela manhã do dia 26 de janeiro de 2020,
não senti muito frio, apesar do costumeiro calor do Brasil.
Depois
de desfazer a mala, pendurar casacos, camisas e calças, a vista do quarto era
maravilhosa, já que da janela conseguia ver o rio Tamisa, um dos mais famosos
do mundo.
Falando
inglês americano, não senti nenhuma dificuldade com o idioma e mesmo porque
eram várias as opções de se informar em português devido certo número de
funcionários portugueses que trabalhavam no Riberbank.
Deixei
o cartão de acesso ao quarto na recepção e fui me habituar ao local e procurar
um lugar para comer. Estava cansado e nesse dia não conseguiria fazer muita
coisa, já que enfrentara mais de onze horas de voo, de Guarulhos, São Paulo,
sem conexão. Na volta do almoço entrei em algumas lojas vi os preços das coisas
e bem ao lado do hotel onde me hospedara havia uma espécie de mercadinho que
oferecia opções de lanches e sucos naturais, frutas e mesmo ao padrão do hotel
quatro estrelas não me incomodei nem um pouco em subir com duas sacolas de
compras nas mãos.
Dormi
e acordei descansado, já que meu dia seria difícil, com um cronograma de
afazeres cheio de locais a procurar. E comecei minha pesquisa na recepção do
hotel.
Com
fotos, documentos e roteiro de viagem, não tive problema em saber o paradeiro
de Flávia Ramirez Perez, minha irmã que estava desaparecida desde o final do
ano passado, quando saiu de casa para reforçar o idioma, já que os cursos de
inglês abrangem todos os níveis de conhecimento da língua e duram entre três e
doze semanas. O curso na Universidade de East Anglia foi feita por meio do
LoveUK, que oferece consultoria personalizada e gratuita para o processo de
inscrição. Ela então se hospedou na última semana de dezembro para iniciar o
estudo em janeiro e não perder nenhuma aula.
-
Sim, a sua irmã esteve no hotel e encerrou a conta no final da primeira semana
de janeiro, ficando apenas duas semanas, disse a recepcionista, que após me
apresentar e mostrar toda documentação a respeito de Flávia, ela conversou com
o gerente do hotel e me forneceu informações.
-
Mas como, ela iria ficar até o final do curso, pelo que sei não veio com
dinheiro para pagar nenhuma multa de hotel, indaguei.
-
De fato, o senhor tem razão, mas é o que temos a informar.
Agradeci
e fiquei pensativo, já que a multa, pelo que sei e que me lembro, seria quase o
dobro de toda estadia. Mas onde estaria Flávia?
-
Senhor, não pude deixar de escutar sua conversa com a recepcionista e vejo que
o senhor está desesperado na busca por sua irmã – Veio ter comigo um rapaz
português, bem apessoado e simpático que trabalhava no hotel, cuja função seria
o tipo “faz tudo”.
-
Não tem problema que escutou e o que sabe sobre a minha irmã, veja a foto dela.
-
Me lembro dessa moça sim, bem simpática e dava boas gorjetas, no início, quando
chegou me chamou a atenção por estar só, e ela me pareceu triste, mas depois,
dois dias antes de partir, estava radiante, era outra pessoa. Desculpe, mas
tenho de ir. – Se despediu Roberto, assim se apresentou o funcionário.
Fui
até o leste da Inglaterra, na cidade Norwich conhecer a então universidade, e
fiquei boquiaberto ao ver a imensidão do local, que oferece mais de 300 cursos
em suas quatro faculdades, que contêm 26 escolas, contudo, os estudantes em
férias, restavam poucos alunos que faziam os chamados “cursos de férias”. Ao
caminhar, encontrei um grupo de moças que falavam português, então mostrei uma
foto de minha irmã e sem sucesso no reconhecimento, procurei a administração.
-
Estou procurando minha irmã que veio para o vosso país participar de um curso
de férias e ela desapareceu. – E mostrando a fotografia à funcionária a mesma
disse que não tinha condições no momento de identificar a aluna, por estar
apenas substituindo as férias da secretária e ainda assim para quaisquer
detalhes teria que consultar o chefe responsável, que também não estava
presente, deu-lhe um prazo de, no mínimo, dez dias.
Rafael
saiu sem conseguir nenhuma informação sobre sua irmã.
Decidiu
ficar e conhecer a cidade, já que estava lá.
Pernoitou
em um hotel e pela manhã retornou à Londres.
Avisou
a mãe que ainda não encontrara Flávia, sem mais detalhes, pois não tinha o que
falar.
A
temperatura começou abaixar e as noites eram longas, já que às 17 horas
anoitecia. Poucas pessoas caminhavam pelas ruas. De um pub que fechara cedo,
Rafael encontrou Roberto, o funcionário do hotel que rapidamente se dirigia a
um ponto de ônibus, tinha acabado o serviço e partia para casa.
-
Senhor Rafael, o que faz sozinho nas ruas? É muito perigoso e coisas
sobrenaturais acontecem nesta terra.
-
O quê? Não me venha dizer que existem bruxos, vampiros! E Rafael caiu na
gargalhada.
-
Não ria senhor Rafael, isso é muito sério, esta cidade me dá medo à noite,
ainda mais nesta estação que escurece muito cedo, as trevas rondam este lugar!Lá
em Portugal tínhamos muitas histórias horripilantes sobre este país, ora bem
sei cada coisa!
-
E mesmo assim viestes trabalhar aqui?
-
Não tive muitas opções, já que serviço lá na minha terra está ruim desde que a
União Europeia unificou em moeda única e o serviço por lá ficou escasso, vim
ganhar a vida nesta capital e não me arrependo, mas tomo meus cuidados, aqui dizem
os mais antigos é o mundo dos vampiros! É melhor o senhor retornar logo ao
hotel.
-
Está bem, você me convenceu, além do mais, bebi um pouco da conta.
Deitei
na cama e muita coisa me passou pela cabeça. As palavras de Roberto, a cara de
espanto ao falar de coisas sobrenaturais me deram arrepios! Sem sono, comecei a
pesquisar na internet o número de pessoas que desaparecem no site da Agência
Brasil Cadastro Nacional de Desaparecidos e descobri que em 2019 mais de 82 mil
pessoas despareceram sem deixar vestígios, uma média de 226 pessoas por dia e
08 a cada hora. E Flávia poderia estar nessa estatística, chorei de desespero.
Já
estava há dez dias em Londres e sem nenhuma notícia, levei a foto na Embaixada,
que encaminhou à polícia, e a hospitais e nenhum órgão sabia de nada. Retornei
ao vício do cigarro, e a cada tragada me deixava envenenar pela nicotina.
Roberto
me lembrou das câmeras do hotel, os vídeos e assim que tivemos acesso, nada de
estranho apareceu, somente Flávia partindo do hotel sozinha, estava radiante!
Insistindo
em saber sobre a multa, descobri que foi paga por um homem um dia antes de sua
partida. Nisso, mensagens insistentes de minha mãe, que tinha alguma
informação.
-
Rafael, seu pai e eu descobrimos que toda essa história de curso de férias foi
tudo uma farsa de sua irmã, ela inventou porque se falasse a verdade não
iríamos deixá-la embarcar.
-
Como assim, por aqui tenho escutado muita coisa, até histórias macabras, que me
deixaram tão apavorado que voltei a fumar!
-
Nada disso meu filho, já embarcou junto de seu pai o nosso advogado Marcelo
Coelho, que tomarão providências sobre o desaparecimento de sua irmã, pois ela
mentiu para poder se encontrar com o ex-marido.
-
E como descobriram tudo isso? Vocês têm certeza?
-
Sim, investigamos amigas, celular antigo, enfim, temos muitas provas que nos
levam a isso, pois desde que ela voltou a morar conosco depois da separação,
ele se redimiu e começou a procurá-la, dizendo que estava arrependido das
brigas.
Eu,
meu pai, o advogado e Roberto, funcionário do hotel fizemos o possível e o
impossível e nenhum sinal do paradeiro de Flávia. O ex-marido foi localizado
sozinho e no Brasil. O tal homem que supostamente pagou a multa do hotel para
Flávia não foi encontrado. Na escuridão de cada beco, de cada rua não
encontramos nenhum vampiro! ...
...
Já
se passaram cinco anos e nunca mais soubemos nada de Flávia!
De
tanta procura, a única certeza que temos é que ela agora faz parte das
estatísticas de pessoas desaparecidas, que somem sem deixar vestígios, sem dar
uma notícia, sem nunca mais ligar. Está vivendo em algum lugar levando outra
vida? Perdeu a memória? São tantos serás!
Mas
temos uma só convicção, nunca perdemos a esperança de que ela, a qualquer
momento, entrará pela porta chamando por nós!
E
eu, em especial porque sou seu irmão gêmeo, toda vez que a saudade aperta,
sinto o seu perfume a me consolar em seu quarto, na sensação de que ela está
bem próxima de mim!

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