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Conto Isabel  

A história faz parte da edição de agosto da Revista Conexão Literatura, espero que gostem.


E o uivo ensurdecedor ecoou mais uma vez invadindo a pequena Piódão, aldeia em Portugal encravada nas montanhas, cujas casas foram construídas com talhos de xisto e telhados em ardósia, pesados e resistentes a ventanias constantes da região. Era noite de lua cheia, e a claridade que iluminava o local era uma mescla de beleza e mistério. Os moradores trancavam as casas e ficavam quietos, reféns do próprio pavor que o som produzia, fazendo-os sentir frágeis e impotentes perante aberração da natureza.
Nessas noites de “lua gorda” ninguém ousava passar pelas tavernas, para que movidos pela embriaguez, a má sorte não lhes tirasse a vida. 
E essa rotina permaneceu por anos, sem nenhuma baixa em Piódão, até que o azar cruzou a vida de uma família com seis pessoas, entre duas crianças. O cocheiro se perdeu no nevoeiro o caminho para Coimbra e quando deu em si estava à beira da encosta da Serra do Açor, e por ser uma estrada de difícil acesso somente a pé ou a cavalo, a diligência deixou a família para descer até o local caminhando. Desciam com todo cuidado, já que a estrada é estreita e curvilínea, subindo e descendo montanhas, mas à medida que se aproxima da aldeia, o local fica majestoso. E quando deram por si, já estavam em Piódão.
- Onde está Isabel que não a encontro, disse a mãe Aparecida.
- Ela ficou para trás no mato, precisou fazer necessidades, disse a irmã.
- Mas que aldeia não se vê ninguém, diz João Augusto, um senhor balzaquiano, o único homem da família. As mulheres, a esposa e as filhas mais velhas vinham atrás dele junto com o filho caçula. A aldeia iluminada com lamparina à base de óleo de oliva realçava um lugar fascinante.


- Ei vocês, grita um morador com meia janela aberta. O rapaz com semblante nervoso diz para que saíssem da rua imediatamente. – Está escuro, já é noite e é muito arriscado andar por aí.
- E vamos para onde? Acabamos de chegar, estamos tentando encontrar um lugar para passarmos a noite. Tens alguma sugestão? Diz João Augusto.
- Vou descer e abrir a porta. Minha casa é pequena, verei o que se pode fazer. E o rapaz desce rapidamente atrás da chave para que a família entrasse, até que o inevitável para aquelas pessoas aconteceu!
De repente, sem fazer barulho algum, pois veio sorrateiramente seguindo o grupo, algo se aproxima deles, vem depressa arrastando a terra, seus passos pesados levantam a poeira. O rapaz da casa, Pedro, abre a porta, mas o medo foi tamanho que só consegue entrar uma das filhas, Maria Aparecida e Pedro fecha a porta com a tranca.
A mãe bate na porta aos gritos de pavor ao ver em pé uma imagem inacreditável à sabedoria humana. Era muito alto, com dois metros de altura, corpo todo peludo e dentes extremamente afiados para fora do focinho. As orelhas em pé, parecidas com as de um cachorro enorme ou um lobo, completavam a criatura, que impressionava ainda mais ao mostrar as garras afiadíssimas. Não deu tempo para nada. A coisa pulou em cima do pai degolando-o instantaneamente. Ao abrir o tórax expondo as vísceras, a mãe caiu ao chão estrebuchando e de tanto se debater, convulsionou, falecendo em poucos minutos, pois era cardíaca.
- Abre a porta, por favor, nos ajude, gritava a irmã mais velha, Rosa, que tinha entre a saia longa a esconder o irmão caçula Ferdinando. Abra senhor, abra, grita apavorada a moça.
Mas o jovem ouviu-se soluços, chorava sem parar ao que acontecia à família, mas ele não teve coragem de abrir a porta e estava a segurar Maria Aparecida que fora de si a tentar abrir a porta. Num ímpeto, ele deu um soco na moça que caiu desmaiada para que ela não abrisse a porta e não sofresse com tudo o que acontecia.
E logo que devorou o pai, a criatura lentamente foi atrás da donzela e da criança que corriam a gritar pela aldeia. Ele não tinha pressa. O homem- lobo ia devagar. Rosa escondeu o irmão e tentou se esconder também, mas o faro do lobo grande a encontrou facilmente. Assim que se aproximou da bela moça, antes que gritasse, ele a golpeou na garganta abrindo de lado a lado. Caída ao chão, a criatura ficou sobre a presa saboreando seu corpo magro. Farto desistiu da criança, partindo da aldeia rapidamente.
Isabel, tremendo de medo ao ouvir toda a gritaria se escondeu e viu a criatura correr pela mata a subir a montanha. Um frio percorreu-lhe a espinha, seus pensamentos a fizeram desmaiar, ela não tinha coragem de sair do esconderijo. Esperou até amanhecer. Aos primeiros raios de sol Isabel se pôs a correr pela mata em direção ao vilarejo, que estava em polvorosa. A casa onde o rapaz Pedro salvou sua irmã estava toda respingada de sangue. Perto do jardim da residência estava o corpo da mãe, que a criatura não tocou, já que morreu por si, não causando interesse.
Mais adiante os moradores traziam o irmão desfalecido. O padre acolheu os três irmãos. Depois de dois meses Ferdinando faleceu, o garoto de seis anos adoeceu severamente com a morte dos pais, principalmente da irmã mais velha a quem chamava de mãe.
Com o passar de seis anos, Maria Aparecida casara-se com um viajante mudando-se da aldeia. Tentou levar Isabel, que agora aos 18 anos, tinha outros planos. A meiga garota crescera com o coração movido a ódio e vingança. Sabia e previa que conseguiria por fim à criatura. O padre tentou persuadi-la, mas não adiantou.
Numa noite de lua cheia Isabel sabia que a criatura rondaria o vilarejo e ela de tocaia em ponto estratégico toda coberta por feno e pelos de animais para que seu cheiro não fosse sentido pelo lobo grande, observou os passos da criatura. Isabel aguardava esse momento e friamente seguiu o lobo, que vivia montanha acima de Piódão, em uma cabana, solitário. Depois de observar por dois dias os hábitos do lobo-homem, Isabel retornou à vila.
Ao término do ciclo da lua cheia Isabel subiu a montanha novamente sabendo que não corria mais perigo. Fingindo-se perdida e machucada, Isabel pede ajuda na cabana. Para sua surpresa o homem que não sabia de seu plano ajuda Isabel e como não tinha contato com ninguém muito menos uma mulher se apaixona perdidamente por ela.
Isabel mesmo atraída por ele, um rapaz muito bonito aparentando trinta e poucos anos, gentil, calmo e educado, prossegue com seu plano de vingança. E Matias nem percebeu que a moça se instalara em sua cabana. Antes do novo ciclo da lua cheia Isabel conseguiu com que Matias tomasse láudano, caindo em sono profundo. Não demorou para que um grupo de homens viesse buscá-lo, ele seria levado para um circo itinerante, que depois de viajar por alguns países da Europa, finalizava em Portugal e deu certo. Isabel foi muito bem recompensada com a grande atração do circo.
Vivendo em uma jaula, só aparecia nas noites de lua cheia, quando o público poderia acompanhar a sua transformação. E as aparições do lobisomem Matias mantinham o circo a render grande público e dinheiro.
Isabel pegou sua recompensa e se foi para nunca mais ser vista.
Matias estava disposto a fugir, se fingiu de doente e quando retiraram as correntes dos pés, ele conseguiu correr, vindo escondido ao Brasil em porão de um navio.
Realmente muito doente Matias foi descoberto pelos marinheiros, que o deixaram à morte na floresta Amazônica, a pedido dele próprio. Os marinheiros só não sabiam que ele, por castigo divino, estava condenado a essa transformação até o final de sua vida! Ele só não sabia também até quando seria esse final, e logo começaram rumores de que uma criatura estaria afugentando animais e índios sempre na lua cheia!

A história homenageia o Dia do Folclore no Brasil, comemorado dia 22 de agosto!


Lobisomem: A lenda tem, provavelmente, origem na Europa do século XVI, embora traços desta lenda apareçam em alguns mitos da Grécia Antiga. Do continente europeu, espalhou-se por várias regiões do mundo. Chegou ao Brasil através dos portugueses que colonizaram nosso país, a partir do século XVI. Este personagem possui um corpo misturando traços de ser humano e lobo.
O Congresso Nacional Brasileiro oficializou em 1965 que todo dia 22 de agosto seria destinado à comemoração do folclore brasileiro. Foi criado assim o Dia do Folclore Nacional. Foi uma forma de valorizar as histórias e personagens do folclore brasileiro.

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