Conto: A casa sombria
Bom dia e excelente quarta-feira a todos nós.
A casa sombria faz parte da Revista Conexão Literatura deste mês.
Interessados em participar da revista é só verificar com o editor.
Espero que gostem da história, abraços,
Míriam
A casa sombria ficava duas quadras de
onde eu morava.
Na minha infância foi uma casa que
sempre admirei. Aquela imensa casa, diziam, ser mal assombrada, pois coisas
estranhas aconteciam à noite.
Era uma propriedade enorme e antiga,
mas bem cuidada, sempre limpa, com árvores altas e muito espaço para correr e
brincar. Nunca se via ninguém no casarão. Eu, pelo menos, não me lembro de ter
visto os moradores.
Falavam os meus amigos que a casa era
assombrada porque os moradores foram mortos e enterrados em algum lugar do
jardim, então, à noite, os fantasmas andavam pela casa.
Bem, particularmente, acho que os
fantasmas deveriam ter o que fazer durante o dia, porque só estavam na casa
durante a noite. Não é estranho isso? Dizem sempre que os fantasmas aparecem à
noite. Então, será que são vampiros também, além de fantasmas? Sempre me
perguntei sobre isso. Bem, enfim, continuamos com os tais acontecimentos.
Quando vi a casa pela primeira vez
tinha meus 13 anos e foi numa sexta-feira 13! Arrepiei-me na época, ainda me
lembro.
Fiquei parada em frente ao imóvel
tentando avistar alguém. Tudo tranquilo, nenhum sinal de ser vivo na casa.
Permaneci por alguns minutos na porta, os muros não eram altos, então eu
conseguia ver bem o que se passava pelo terreno. Nada de estranho me chamou a
atenção. Desisti da história do assombro.
Eis que um dia minhas amigas me
tentaram a ir a tal casa. Eu, que sempre gostei de coisas assombrosas, topei.
Marcamos que entraríamos a todo custo na casa e para ver os fenômenos que
aconteciam, teria que ser quando escurecesse.
O grupo era formado por cinco mocinhas,
inventamos uma boa desculpa a nossos pais e fomos para a casa avermelhada, a
tal mal assombrada.
— E aí, estamos aqui na porta e não
vejo nenhum movimento lá dentro. A casa está às escuras, sinal que não tem
ninguém. — Dizia minha amiga Rosa, segura de si.
— Bem, e se os moradores estiverem
trabalhando e retornarem agora à noite? — Dizia outra amiga, Pina, com uma voz
trêmula.
— Bobagem gente, vamos entrar ou não? — Finalizaram Claudia e Teresa, já sem
paciência e nos chamando de medrosas.
Com aperto no coração e mãos geladas,
todas nós, as meninas da vilinha onde morávamos, abrimos com facilidade o
portão e entramos no terreno.
Bem devagar e todas de mãos dadas,
seguimos vistoriando o local, que não tinha nada de estranho. Subimos os
degraus bem devagar. Dava para escutar a respiração acelerada de todas.
Eu, na frente, fui abrir a porta. Para
minha surpresa, não estava trancada. Parei, mas a minha curiosidade era tanta,
que a empurrei escancarando-a. Entramos. Eu era a única que tinha lanterna.
Iluminei o interruptor e acendi as
luzes, e não ouvi reclamação de ninguém, pois queríamos ver tudo e com a
lanterna não tinha condições.
Andamos pela sala, de grande tamanho,
móveis clássicos em madeira, sofás forrados com veludo vermelho, objetos
antigos decoravam o ambiente, assim como quadros, muitas pinturas de homens e
mulheres, acho que foram os habitantes da casa.
Passamos para o outro cômodo, a sala de
leitura, lá, me encantei com a quantidade de livros que estavam na estante que
pegava uma parede inteira, até o teto. Na sala pendiam dois lustres e um sofá
grande, perto da janela.
A casa estava bem cuidada e limpa.
Andávamos na direção da cozinha. Pisávamos em “ovos” para não fazer nenhum
barulho, quando Teresa se desequilibra e bate num objeto que cai ao chão. O
estrondo fez até meu coração sair pela boca.
Nisso, alguém grita perguntando quem
estava ali. Os passos apressados começam a ficar mais nítidos e a voz de mulher
com uma fala rouca chega cada vez mais próxima de nós. Alguém descia as escadas
apressadamente.
Saímos correndo e vi a mulher. Era uma
senhora, com vestido longo e um avental. Ela gritava, mas eu não conseguia
entender mais nada o que falava. Derrubei minha lanterna. A mulher agora
berrava. Olhei para trás e vi seu rosto branco, sua boca espumando de raiva, os
olhos enormes esbugalhados, ela segurava o vestido e com passos rápidos tentava
agarrar uma de nós.
A porta, que deixamos aberta, “voamos”
para fora, descendo os degraus “a jato”, abrindo o portão da rua e
desaparecendo na escuridão.
Ninguém olhou para trás. Chegamos a
nossas casas tão rápido que nem acreditei. Caladas e pálidas como defuntos,
permanecemos na porta da vila para o coração voltar ao normal. Nenhuma de nós
ousou comentar alguma coisa naquela noite; e cada uma entrou para sua casa.
Nunca mais retornamos ao casarão e até
passávamos por outra rua só para não aparecermos na frente do imóvel.
Não soube mais nada sobre a senhora que
morava na casa e nem quem era ela. O fato foi desaparecendo aos poucos de
nossas vidas, até sumir por completo.
Para mim, a cena sempre ficou em minha
mente, pois não sei como acabei ficando com uma cicatriz na perna esquerda, pois
não me lembro de ter me cortado em nada e ainda hoje, ao dormir, escuto os
gritos da velha da casa sombria.

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