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Muito bom dia a todos nós e um ótimo domingo.

Feriado prolongado, e fiz muitas coisas nestes dias, sem quase descanso.

Bem, deixo aqui o conto A herança de Júlia Brito, que me inspirei em Charles Dickens.

Espero que gostem.

Grande abraço,

Míriam

 

Conto A herança de Júlia Brito

         Dezembro é um mês, que na literatura, me faz recordar de um dos contos do maravilhoso escritor inglês do século XIX Charles Dickens Conto de Natal. Dickens, que é considerado um dos principais romancistas da era vitoriana na Inglaterra e um dos principais escritores do Realismo Inglês, para mim sempre foi um dos autores que mais me identifico devido a sua crítica social e um dos que mais gosto de ler. Em sua perspicácia aguçada o escritor retratou inúmeras vezes a podridão da sociedade que não só comum em Londres, mas no mundo em geral. Na história em questão, Conto de Natal, Dickens retrata a avareza de um nobre londrino perante a sociedade daquela época.
Com inspiração no famoso escritor (no sentido da podridão das pessoas), em alguns parágrafos relato um conto, que diferente do de Dickens, acentua o interesse humano por bens materiais, deixando de lado o amor e o carinho de uma família.
...
Era uma vez Júlia Brito, administradora de empresas sem filhos que faleceu deixando pequena fortuna.  
         Mas antes disso, Júlia se aposentou aos 60 anos e curtiu bem a vida com o marido Ricardo Augusto, também aposentado. No auge do tão esperado descanso do casal, quando ambos seguiam planos de cultura e viagens, Ricardo teve complicações cardíacas e faleceu. Casados em comunhão universal, a pequena fortuna do esposo ficou para ela.
         Após esse incidente, os parentes mais próximos de Júlia, um irmão e sua família, passaram a mimá-la de toda a forma, para que ela não se sentisse sozinha. E a adulação seguiu-se por 15 anos, período em que Júlia prosseguia a vida, mesmo sem seu grande amor. E no dia 25 de dezembro, Júlia faleceu aos 75 anos, sem nenhuma doença aparente.
         A família em polvorosa logo providenciou o local do velório, no necrotério da Beneficência Portuguesa, e o enterro, no Cemitério Filosofia, em Santos, no jazigo familiar do marido. Nesse dia, aos olhos de amigos e vizinhos da senhora Brito, a querida tia deixou um vazio no coração de sua família.
         Depois de alguns dias, o advogado de Júlia reuniu seus familiares para ler o testamento e inventário deixado por ela. A cena de antes da leitura e depois dela foi daquelas já repercutidas em filmes de Hollywood! As lágrimas dos sobrinhos e irmão no início da conversa foram se transformando em palavrões e maldições, que tristeza!  
         — Velha desgraçada — dizia uma das sobrinhas — a mais velha, ela não deixou nada para mim!
         — Miserável — disse a outra — seguindo-se de palavras de baixo calão, nem o carro ficou em meu nome.
         Já o sobrinho e irmão indignados, disseram entrar com processo, pois deveria ser um erro tudo o que o advogado lia em voz alta e clara.
         — Não há erro algum, dizia Pedro, o advogado. — Os beneficiários da senhora Júlia são Ana Paula, a melhor amiga dela, o asilo o qual ela ajudava como voluntária e que passa por necessidades ameaçando fechar e uma ONG de animais, concluiu o profissional. Esses são os únicos herdeiros de minha cliente, disse o profissional, fechando o testamento para deixar o recinto.
         — Eu sou o herdeiro por lei, isso tudo está errado, eu sou irmão e ela não tem filhos, não pode estranhos e pessoas jurídicas receber a fortuna, brandou o irmão, espumando de ódio.
E dito o fez, o irmão de Júlia conseguiu um bom advogado e o testamento foi marcado para ser discutido em Juízo.
Faltando poucas horas para a apresentação do testamento o advogado e amigo de Júlia se preparava para a audiência. — Se eu tivesse algo a comprovar tudo o que ela deixou por escrito seria bem melhor, — pensava ele. Fechando a pasta com os documentos e pegando a chave do carro para sair, Pedro sentiu uma forte tontura e sentou-se no sofá. De repente, como num flash, ele lembrou-se da última noite de Natal em que a amiga Júlia passou em sua casa e de quando ela gravou um vídeo caseiro falando sobre o testamento.
Na audiência, o juiz aceitou a evidência.
— Meu nome é Júlia de Brito Nascimento e sei que estão assistindo este vídeo por causa do resultado do testamento. Embora nos últimos 15 anos eu tenha sido bajulada por minha família, nunca fui querida por eles. Há muitos anos desde a infância de meus sobrinhos todos nunca se importaram comigo, e sim, por bons presentes que ganhavam sempre. Eu e minha mãe, a avó, éramos deixadas de lado o tempo todo e ela ainda foi abandonada por todos vocês na velhice.  — Júlia foi contando toda a decepção e o jogo de interesses de todos eles.
...
— E assim eu encerro esse áudio lamentando ter conhecido vocês e deixando os meus bens conquistados e de meu marido aos meus beneficiários que têm todo o meu carinho e proteção. Adeus, e espero que vocês reflitam sobre tudo o que ouviram, que sintam, lá no fundo do coração o quão cruéis e interesseiros foram e muitas vezes me fizeram sofrer. — Finalizava assim Júlia a sua vontade terminando com a seguinte frase:
— Não é a ligação de sangue e de parentesco que é importante, e sim, o elo que você tem com as pessoas que realmente se importam e gostam de você, esses sim são os verdadeiros irmãos de alma e de coração, disse Júlia.
O juiz analisou o áudio achando-o válido e encerrou o caso.
O irmão de Júlia disse um monte de bobagens após ter perdido a ação e a família deixou a audiência excomungando a irmã e a todos.
Pedro, antes de partir, agradeceu ao juiz e comentou sobre tudo o que presenciaram e ele tinha a plenitude de que justiça havia sido feita.
        

Na verdade, para mim, é melhor a liberdade da literatura do que a verdade Jurídica.

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