Conto
Mistério
no Reservatório-Túnel
Foi uma
tarde inesquecível para o estudante do 5º ano do Ensino Fundamental Gabriel
Marcondes, aluno da escola Estadual Marquês de São Vicente.
Aluno
assíduo e bem aplicado, o garoto desde pequeno fora sempre amante da natureza e
apreciador de grandes monumentos e tudo o que fosse relacionado à arquitetura
chamava a atenção do menino, que se deslumbrava com grandes edifícios e
construções ornamentais. O que fazia a família de Gabriel torcer para que ele
fosse engenheiro ou arquiteto.
E na tarde
de uma sexta-feira de agosto de 2002, dia em que os estudantes foram visitar o
Reservatório-túnel Santa Tereza-Voturuá, entre a divisa de Santos e São Vicente
e que estava aberto para visitação, o garoto foi o que mais se divertiu e
adorou o passeio.
Para as
outras crianças o reservatório não teve grande importância, pois eles gostaram
mais de visitar o Horto Municipal de São Vicente, que abriga um pequeno
zoológico, parada obrigatória para os visitantes porque o reservatório da
Sabesp fica dentro do parque, no alto do morro.
Gabriel
foi subindo o morro e já imaginando o que poderia encontrar ao final da
caminhada.
Ao chegar à porta do
imenso reservatório, o maior da América Latina, o menino mal sabia o que ainda
teria pela frente e ele foi o primeiro a colocar botas e capacete para entrar
no local.
— Vamos
logo pessoal, quero entrar neste túnel e descobrir como é por dentro, — dizia
Gabriel, instigando os coleguinhas. — Coloquem as botas depressa, não percamos
mais tempo, ia retrucando ele aos demais.
O técnico
de plantão escalado para a visitação notara o entusiasmo do menino e ele
recebera atenção especial do funcionário, que ia contando detalhes da grandiosa
obra.
Desde a
entrada do túnel Gabriel ficara fascinado. Um a um os alunos foram caminhando
por poças d´água e observando os homens varrendo com a água o chão do
reservatório, mesmo com a escuridão do local.
Escavado
dentre da rocha, uma tubulação enorme divide o espaço, que tem altura de 18 metros , o equivalente
a um prédio de seis andares.
Como podem ter construído tudo isso, pensava Gabriel, que falava sozinho. O técnico
conduzia a turma e contava as curiosidades da construção.
— Essa
pedra enorme que está aqui no caminho, — apontava o técnico, — caiu depois que
o reservatório estava em uso e só fomos descobrir dois anos depois, período em
que o mesmo é limpo. Falava o funcionário. — Depois uma vez após uma limpeza,
quando tudo isso aqui já estava cheio de água, — informava o homem dizendo que
o local tem 262 metros
de comprimento só do lado de São Vicente, — um macaco pulou de alguma árvore e
entrou aqui, saltando na água. Ele nos deu um tremendo trabalho, pois tivemos
que esvaziar novamente para tirar o bicho, limpar e encher tudo de novo. — Ia
relatando o técnico.
Ao final
do túnel uma porta redonda sinalizava mais coisas.
— Essa
porta aqui, — apontava o empregado, — está reprisando a água que está do outro
lado, a continuação do reservatório do lado de Santos, o Santa Tereza e se eu
abrir a porta, com a pressão, todos nós morreríamos, — disse o homem, que fez
os alunos gritarem e correrem de pavor em meio à escuridão.
Após a
visita Gabriel radiante e maravilhado com tudo o que aprendera sobre a
importante obra que garantiu o abastecimento de água para as cidades de Santos
e São Vicente depois de novembro de 1981, ano em que o reservatório entrou em
funcionamento, o menino só falava do passeio.
Lembrou-se do avô, um operário que estivera na construção do
reservatório e foi ter com ele no dia seguinte para saber mais detalhes.
— Vovô,
ontem eu fui conhecer um lugar onde o senhor trabalhou. — Suspirava Gabriel ao
se lembrar da visita. — O funcionário falou de mistérios no local. —
Acrescentou o menino.
— Há, o
funcionário não estava lá desde o início. — Dizia o avô, um homem de 75 anos e
que estivera na construção do reservatório.
— Me conte
como foi a obra. — Falava Gabriel.
—
Estávamos no ano de 1979, quando a região passava por grande falta de água.
Então os engenheiros da Sabesp resolveram escavar as rochas e fazer, no topo do
morro, um reservatório que pudesse abastecer as cidades. — Ia contando o avô. —
Mediram, somaram e viram que conseguiriam cavar um túnel e construir o
reservatório lá dentro, que demorou dois anos.
— Vários
operários e engenheiros subiam e desciam pelo morro, em baixo de chuva e de
terra. Os engenheiros não ligavam para os rumores de alguns moradores próximos
dali, de que o lugar era aterrorizado por alguma coisa, que não sabiam o que
era.
— A construção
estava a todo vapor e na etapa de abertura de uma calota na parte superior do
túnel, foram empregados 420 quilos de dinamite por dia. O barulho era
estrondoso, e retiravam 38 mil metros cúbicos de rocha por mês.
— Certa
noite jantávamos no alojamento quando começou a soprar forte o vento,
arrancando a fiação e nos deixando no escuro, apenas com a luz do fogão. Não estavam todos os funcionários da
obra, que haviam descido para outros fins.
— O medo
acometeu os presentes. Corremos para pegar as lanternas, mas as mesmas
desapareceram do nada. Fizemos então uma fogueira com restos de troncos e
folhas. O silêncio tomou conta de nós. Escutamos um estrondo vindo de dentro do
túnel e pedras começaram a rolar de dentro dele quase nos atingindo.
— A
gritaria foi geral e os operários indefesos e apavorados, mesmo no escuro
começaram a descer o morro. Alguns escorregaram e se machucaram, mas não
pararam.
— Nisso
escutamos sons estranhos e troncos sendo arrastados e atirados a nós. De
repente uma coisa conseguiu pegar alguns operários, que gritavam em sofrimento.
— Pelo
barulho a criatura deveria ser grande e forte, pois conseguiu agarrar os
homens. Na correria, levei um tombo e quebrei o pé. Sem gritar para que não
fosse descoberto, me arrastei até um arbusto e fiquei escondido.
— O
silêncio tomou conta do lugar. Os gritos cessaram e eu não sabia o que fazer.
Resolvi ficar quieto onde estava até amanhecer. Nisso, escuto passos pesados
arrastando a areia e se aproximando de onde eu estava; comecei a tremer da
cabeça aos pés. O barulho se aproximava e foi ficando mais perto até que a
folhagem que me encobria foi tirada brutalmente. Com um grito abafado, desmaiei
e não vi mais nada.
— No dia
seguinte acordei cheio de lama, com as roupas rasgadas e o corpo todo dolorido.
O alojamento estava em polvorosa. Havia sangue pelo chão e restos de roupas.
Dos 50 homens, três haviam desaparecido e nunca mais se soube nada sobre eles.
— Nossa,
vovô, o senhor me matou de medo, disse Gabriel, com os olhos arregalados e
palidez no rosto. — Como acabou essa tragédia?
— Em muita
investigação que não levou a nada, disse o avô. — A polícia falou que estávamos
bêbados e que causamos tudo aquilo. O certo é que ninguém soube o que realmente
aconteceu naquela noite. A obra foi terminada, recebemos e ficou tudo por isso
mesmo. É como diz o pião, voltaram para o Nordeste.
Se
despedindo do neto, o velhinho trancou-se no quarto. Calmamente largando a
bengala o avô se aproximou do espelho da cômoda. Do outro lado não refletia
mais a imagem do idoso, que agora aparentava mais novo e revigorado. Radiante,
o homem ocultava a real identidade.
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