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Insight da morte

Por Mí Santiago

 

Muito bom dia aos queridos (as) leitores (as) e seguimos com chuva e frio nesta Baixada Santista do litoral de São Paulo.

O calor exacerbado de Santos nos faz esquecer de como são gostosos os dias frios de outono!

Compartilho conto com vocês, e espero que gostem, forte abraço!

Míriam  

 

 

          Adeus mundo ilusório!

          Cheguei no lugar que mais amo, não é em Londres, ou Firenze, nem Veneza, mas meu paraíso entre tonalidades de verde, borboletas com asas coloridas sinalizam a trilha dentre a mata densa. Ó mata protegida por elfos que me guiaram quando ao rio cai certa vez, entre rochas não fui para o vale da morte naquele tempo, cai de costas exatamente num vão e nada sofri. Ainda me lembro como se fosse hoje. Ó mata ricamente orquestrada pelos cantos de pássaros voando próximos ao entardecer. Seres encobertos nas árvores deixando vibrar uma melodia perfeita que encanta a alma!

          O sol já está partindo me dando adeus! Até parece adivinhou, eu em poucas horas não estarei mais nesta dimensão. São cinco e pouco da tarde, como é belo o anoitecer de outono no Vale do Ribeira. Iporanga, sempre ela a cidade que visitei tantas e tantas vezes por entre mata, rios, cobras e aranhas a fascinação continua a mesma dos velhos tempos em que desvendávamos cavernas na região. Rica recordação daquele paraíso na terra, meu Shangri-lá favorito!




          Quisera estar aqui em novembro para ver o Axl Rose tocar e cantar ao piano. Minhas lágrimas recordando o clipe fez November Rain vibrar. E minha última caminhada seguindo em frente a trilha de minha liberdade absoluta começa com esta música que tantas vezes cantei e gritei junto à banda. Ao bolso da calça o celular tocando minhas músicas, que me salvaram de tristes dias com pessoas que não valeram a pena conhecer; são os Bads names do Bon Jovi! Mas agora estou só e nunca estive tão cheia de amigos.

          E vou subindo devagar a trilha levando o som da real liberdade como a última loucura do pouco de vida que me resta. Tiro o blazer e o arremesso longe, voando também os sapatos e os anos que tive de me encaixar para pagar os boletos do capitalismo. Não sei como aguentei tanta gente que não amava ninguém!

          Olho para trás e vejo muitos a se despedir: um operário que não larga sua pá de construção; também escuto um coro cantar Maria Maria como numa romaria; e as Flores da Noite também estão livres, mas todos sobem bem devagar, são pessoas do bem que sempre caminharam na escuridão à vista dos olhos do povo. E mais pessoas ao ritmo da música vêm se chegando aos que lá estão, são as tribos tidas proibidas pela sociedade, as tidas gentes do submundo que também vieram se despedir, mas vão ficando bem para trás, assim como este mundo que logo deixarei. Engulo em seco com um frio na barriga, pois sei que estou morrendo e antes mesmo em pensar no vulto que nos ronda a vida inteira, o vulto da morte a única certeza da existência humana, o vulto não me acompanha, me deixou nos momentos finais da liberdade da mente, já que ninguém pode ser livre preso num corpo físico.




          E mesmo que Madonna call my name, não mais olharei para trás porque o fim está chegando. Sinto o sangue ferver em minhas veias, a música cessou, o pensamento pulsando e buscando por um milagre que não acontecerá porque quando se está bem lá no topo, não há mais nada a fazer. Coloco o celular ao chão, afinal, o equipamento nunca foi meu companheiro, e sim, meu escravo e nada mais. E no topo da trilha meu coração se encheu de ternura ao se lembrar dos velhos amigos, de familiares, de pessoas queridas no convívio diário ou aos finais de semana, dos irmãos pets e num lampejo toda essa felicidade vibrou no coração que agora batia bem devagar, aquietando minhas forças já sem quase energia.

          Os últimos suspiros tentando calar minha mente, mas como sempre foi inquieta, um estalo me fez levantar e espiar do alto do morro; lá em baixo as barcas de Gil Vicente à espera por muitos que aguardavam o embarque, e ao alto, nada vi além do céu estrelado.

          Meus pensamentos tentando desesperadamente me fazer mover, mas o corpo já se despedia de mim me fazendo ficar imóvel aguardando pela decisão do universo: Heaven or Hell?

 

           

Imagens da morte disponíveis Google

Caverna: foto da Caverna Morro Preto, Iporanga – por Ricardo Pantoja

 


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