Conto: Uma certa negra
Por Míriam Santiago
Tinha sete anos apenas,
apenas sete anos,
Que sete anos!
Não chegava nem a cinco!
De repente umas vozes na rua
me gritaram Negra!
Negra! Negra! Negra! Negra! Negra! Negra! Negra!
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S |
im, você é negra, disse minha mãe!
- Mas porque sou dessa cor?
Indaguei à minha pobre mãe.
- Como assim dessa cor? Você tem a
nossa cor, somos negros. Respondeu a doce mãezinha!
- Essa nossa cor, não vejo com frequência no colégio mãe! Lá, a cor
que corre, anda e brilha é sempre a branca. Na minha sala o branco é maioria e
quando os raios de sol adentram a sala iluminando a todos, essa cor branca fica
ainda mais reluzente.
- Ó! Mas não fique triste minha filha, um dia a sala de aula há de
ter muitas cores negras perambulando por todo o lado. É só uma questão de
tempo.
E aos sete anos de idade tive essa crise existencial por causa da
minha cor de pele, eu não entendia porque tinha que ser diferente dos demais
coleguinhas, mas, por sorte, não sofri bullying, as meninas sempre me chamavam
para fazer parte de trabalhos em grupos, nunca fiquei de lado.
Estávamos nos anos
70, eu estudava junto com meu irmão num colégio estadual de 1º e 2º graus na
capital paulista e nessa instituição estudantil, naquele tempo, não abrigava
muitos negros em salas, para mim era um mistério, mas a verdade que eu não
sabia é que muitos não conseguiam acesso à educação.
“Por acaso sou negra?” – me disse
SIM!
“Que coisa é ser negra?”
Negra!
E eu não sabia a triste verdade que aquilo escondia.
Negra!
E me senti negra,
Negra!
Como eles diziam
Negra!
E retrocedi
Negra!
Como eles queriam
Negra!
E odiei meus cabelos e meus lábios grossos
e mirei apenada minha carne tostada
E retrocedi
Negra!
E passava o tempo,
e sempre amargurada
Continuava levando nas minhas costas
minha pesada carga
E como pesava!…
Alisei o cabelo,
Passei pó na cara,
e entre minhas entranhas sempre ressoava a mesma palavra
Negra! Negra! Negra! Negra!
Ainda no mesmo
colégio eu consegui, graças a tremendos esforços de minha mãe, progredir,
conseguindo chegar ao colegial (ensino médio).
- Mãe, eu quero
alisar meu cabelo, tão duro e feio, quero ser como as outras moças com lindos
cabelos que chegam quase à cintura.
- Minha filha,
para quê alisar? Ele é lindo como a natureza o fez.
- E porque a
natureza é tão severa comigo? Não bastava ter uma cor diferente na pele, mas
justo o cabelo, ser tão inferior?
- Um dia você vai
enxergar que nada disso faz sentido, retrucava a mãe com um olhar triste.
- E o pai e o
irmão, não os vejo mais.
- Eles trabalham
demais, disse a mãe, conseguiram um emprego na fábrica e não podem desapontar.
- Mas meu irmão
saiu do colégio, não se formou, e moramos tão perto da escola.
- É, eu já conversei
com ele sobre isso, que preto para ser alguém na vida não pode fazer corpo
mole, tem que dá tudo de si.
Minha mãe sabia
das coisas, tinha um rico entendimento, não se importava em ser negra. Diziam
até que ela tinha a “alma branca”, mas eu não me conformava, não aceitava o meu
cabelo, meus lábios grossos que pareciam destoar do rosto, e comecei a
frequentar as aulas toda maquilada, carregando no pó compacto. E mesmo com todo
visual diferente, continuava me enxergando negra e assim também o era uma amiga
na mesma classe, nas outras classes e nas ruas.
Graças a muito
suor de meu pai, de muita faxina enfrentada pela mãe e que pudemos, meu irmão e
eu, estudar e morar num lugar decente, entre tantos vizinhos brancos, mas
pobres como nós; equidade do bolso em que não importa ser branco ou preto, já
que nivelamos na mesma situação financeira: pobres.
E finalmente
terminei os estudos, me formei no ensino médio!
Negra!
Negra sou
De hoje em diante não quero
alisar meu cabelo
Não quero
E vou rir daqueles,
que por evitar – segundo eles –
que por evitar-nos algum disabor
Chamam aos negros de gente de cor
E de que cor!
NEGRA
E como soa lindo!
NEGRO
E que ritmo tem!
Negro Negro Negro Negro
Negro Negro Negro Negro
Negro Negro Negro Negro
Negro Negro Negro
E
na formatura não participei, a economia familiar era para outros fins: na
tentativa de uma casinha melhor, em local mais acessível, nos distanciando de
moradias irregulares ou como dizem no popular: favelas.
Chegamos aos anos 90, e desde a formatura em 1984, a tão sonhada
faculdade ainda demoraria alcançar, pois dependia muito de minha força de
trabalho e de um emprego melhor. Mas já não alisava mais o cabelo, deixava-o
bem curto, aparado e o pó compacto também não usava mais, deixei-me assumir
Negra!
Me sentindo assim linda e forte, a sorte foi se chegando, fui
conhecendo pessoas que me empurraram para cima e uma delas foi a patroa de
minha mãe, uma professora de faculdade, uma mulher sem igual em cultura,
espírito e educação e foi ela quem me ajudou e incentivou na escolha por
Direito.
...
Agora no século 21 e com mais idade avalio quantos negros eu vejo
pelas ruas, lutando por seus direitos; mesmo que ainda aos olhos da polícia, só
negão merece ser parado e revistado encostado na parede, um branco, falando a
verdade, eu nunca vi ser examinado desta maneira, sem motivo, há sim, há
motivo, a cor!
Somos muitos a comemorar o nosso dia, sim, ganhamos um dia, da
consciência negra, só não sei se adianta um dia só e os outros 364 dias? Já que
são 365 dias o tempo em que o nosso planeta Terra demora para dar uma volta ao
redor do Sol, porque cada dia, em cada parte do mundo não se comemora a
consciência negra? Seria bom para conter tanto preconceito!
E assim vou seguindo minha vida, com os olhos na Justiça e
brandando aos ventos o meu destino, afinal, somos todos iguais perante a Deus e
à Constituição Brasileira!
Afinal
Afinal compreendi
AFINAL
Já não retrocedo
AFINAL
E avanço segura
AFINAL
Avanço e espero
AFINAL
E bendigo aos céus porque quis Deus
que negro azeviche fosse minha cor
E já compreendi
AFINAL
Já tenho a chave!
NEGRO NEGRO NEGRO NEGRO
NEGRO NEGRO NEGRO NEGRO
NEGRO NEGRO NEGRO NEGRO
NEGRO NEGRO
Negra sou!
Me gritaram negra
Poema da compositora, coreógrafa e
desenhista, expoente da arte afroperuana Victoria Eugenia Santa Cruz Gamarra,
que juntamente à história, comemora o Dia da Consciência Negra no Brasil, dia
20 de novembro.


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