A voz na
escuridão
Conto
que faz parte da edição de outubro
Bom dia a todos vocês queridos leitores!
Que tenhamos um feriado de Nossa Senhora abençoado pela grande mãe
universal, que a paz, bondade, meiguice e amor complementem nossas vidas, para
que tenhamos bons frutos no amanhã.
Para hoje, o conto que faz parte da edição de outubro da Revista Digital
Conexão Literatura, espero que gostem.
Peço a gentileza para quem puder deixar sua impressão, comentário
sobre a história, obrigada, abraços.
Conto: A voz na escuridão
Por
Míriam Santiago
A
Vozes, muitas falavam sem parar, mas pouco se conseguia
entender; sei que dormi e não me lembro mais nada do resto... mas antes de
pegar num sono infinito, a história de minha vida foi em flashes
sendo recordada, passo a passo desde a infância, as traquinagens com os
coleguinhas ainda bem pequenos, os momentos na escola, quando tínhamos que nos
levantar ao entrar o professor e, em seguida, cantar o Hino Nacional e outras
atividades pertinentes ao Brasil no período da Ditadura Militar; os namorados
na adolescência e a conturbada fase adulta e depois se desenrolaram momentos
entre o climatério e a velhice.
Aquela
alma tinha seus pecados latentes seus erros durante uma vida inteira, mas antes
que o seu “livro da vida” terminasse de passar em sua mente, a pobre mulher, em
súplica, se arrependeu de tudo de errado que fez em sua trajetória, das pessoas
que magoou, das mentiras contadas para se prevalecer, de seu egoísmo, a raiva
latente e de ser amargurada. Aquela mulher que passou grande parte de sua vida
reclamando de tudo, ao se deparar que perdera a existência com sentimentos que
outrora não sabia serem tão prejudiciais, mas que agora, ao ver seu fim se
aproximando, realmente entendeu que cometera grande erro em ter deixado a
infelicidade tomar parte da vida quase inteira, perturbando a todos que
estiveram em seu trajeto.
Ao
deixar seu corpo terreno, a mulher foi se encaminhando ao outro lado, à
realidade que não compreendia, ao mundo da cobrança infinita, e despida de tudo
o que fora na vida, na nudez de seu espírito errante, a súplica do perdão foi
apelado com tremendo sentimento, já que de fato ela se arrependera de seus mal
feitos.
A
mulher nada recebeu em troca de seu suplício, o silêncio tomou conta do espaço
logo após calar-se. Permaneceu a olhar onde estava, mas nada, não conseguia
distinguir onde raios fora parar ao deixar seu corpo, que repousava entre
lençóis ao deitar-se e acordar sabe-se Deus o que era aquilo. E as vozes
cessaram também. Mas de repente, vê se aproximar uma outra mulher, alguns anos
mais jovem, veio logo atrás dela e o interrogatório, aquela voz que antes lhe
fez várias perguntas, dispunha de tempo a questionar a próxima “vítima”.
A
outra balzaquiana, atônita, gaguejando, tentava de todas as formas se
desvencilhar do interrogatório, mas de nada adiantou, a voz masculina, alta,
forte e potente não baixava a guarda, não dava trégua até que conseguisse tirar
de dentro do ser o que queria ouvir.
-
Fale mais alto, para que os quatro cantos possam ouvir seus delitos, senhora.
-
Já falei que não fiz nada, fui muito religiosa, todo sábado participava do
culto, ajudava os necessitados que por lá passavam e cuidei de meus filhos com
estudo, roupas boas, cuidei de um marido doente, enfim, fiz tudo o que qualquer
pessoa de boa índole pratica.
-
Calada! Não são essas tolices que desejamos ouvir, quero saber como foi o
tratamento dispensado à uma idosa que morou em sua casa...
E
a mulher se recusou a responder, praguejava de todas as maneiras, até que duas
criaturas a levaram, aos gritos, não sei para onde. E assim se procedeu por
muitas vezes. Eu não conseguia mexer-me dali. Estava imóvel encostada numa
parede de pedra. E novamente a mulher é colocada em cena, desta vez, as
criaturas a trouxeram com uma mordaça e tridente a espetar.
-
Tirem a mordaça dela, grita a voz, que nunca se vê. – Vou perguntar pela última
vez, a senhora está pronta para revelar suas crueldades?
Tamanho o
sofrimento da mulher de meia-idade que ela foi aos choros, falando sem a voz
questionar outra vez.
- Sim, eu fui em
minha última estada com o corpo que deixei uma pessoa cruel que utilizei da
crença para me esconder, para não deixar transparecer minha verdadeira face, a
da maldade. Eu critiquei uma pessoa conhecida, falei que não prestava, que
levava homens para sua casa e a pobre coitada era uma divorciada de quase 40
anos de idade, eu a difamei sem ela ter culpa alguma, e por fim, após muitos
anos, eu “entreguei” minha própria filha ao primeiro namorado de boa família,
ou melhor dizer, de família rica, pois se fosse alguém da classe operária,
jamais a deixaria perder tempo com a pobreza. E tudo isso por causa do dinheiro
e poder.
- Também aceitei
abrigar minha sogra por lucro monetário, sim, uma viúva idosa com bom
rendimento mensal, com bens materiais, que por conta da idade não podia mais
viver sozinha, então, mesmo odiando aquela pessoa eu a convidei para morar
conosco e fiz da vida dela um verdadeiro inferno! A palavra saiu alta demais
ecoando por aquela espécie de caverna ou túnel, sei lá onde estávamos, na
escuridão e somente ouvíamos uma voz, que comandava aquele interrogatório do
horror, dos quintos dos infernos!
- Então,
prosseguia a mulher que naquela altura da inflamação da confissão de seus
delitos, estava com o rosto totalmente desfigurado, com os olhos esbugalhados,
com baba nos lábios ao falar, tão tenebrosa que parecia a imagem do capeta. –
Eu deixei por anos a idosa morar num quartinho sem nenhuma ventilação, sempre
humilhada e escondida de visitas, cujas refeições ela fazia nesse local, sem
nenhuma mesa e para completar, o quarto não era limpo, com restos de comida ao
chão, baratas até no baú da cama. Também fiz com que meus filhos a odiassem, e
a todas as minhas amigas falei mal dela, transformando-a numa sofredora. E a
mulher, que por daí contou muito mais aberrações da maldade, dava gritos
histéricos e ria sem parar.
- Basta, grita a
voz na escuridão. Já ouvimos todas as suas maldades.
- Mas eu ainda não
terminei, gargalhava a horrenda persona. Quero acrescentar que meu marido teve
uma casa de campo e apareceu por lá uma gatinha prenhe. Após darmos os
filhotes, a gata ficou novamente barriguda e desta vez, não tivemos piedade,
dando um sumiço no bicho para sempre! Eu tenho muito mais a dizer! Berrava a
mulher, totalmente senil e transfigurada, mas a voz a ordenou calar-se e as
criaturas com seus tridentes a espetaram sem piedade, emudecendo-a pela dor,
sem precisar amordaçá-la.
As duas mulheres
ficaram encostadas na parede à espera da sentença e sabiam que a qualquer
momento, seriam levadas dali para um lugar muito pior. Enquanto aguardavam um
veredito, as vozes demoníacas reiniciaram as tenebrosas tentações, sussurrando
o passado de maldade de ambas, que sem ter como opinar, obrigatoriamente
escutavam suas lembranças sem parar. E não adiantava implorar por perdão, para
cessar as vozes, nada o que diziam era levado em consideração. Então a voz
gritou por silêncio mais uma vez, anunciando sentença às duas.
A primeira mulher
ao perceber que seu destino estava próximo, rezou com fé e com a vergonha de
suas maldades e entregou ao divino o que ainda lhe restava de bom na alma.
- Dê quatro passos
à frente a primeira mulher, venha receber seu castigo, já temos o resultado de
sua sentença, fala alto a voz.
E de cabeça baixa
a senhora dá os quatro passos, mas ao caírem suas lágrimas de remorso e de
tristeza por tudo de ruim que havia feito na última vida, pela vergonha em não
ter progredido o espírito, tornando-o mais preso aos pecados terrenos, uma luz
foi entrando pela escuridão, avançando até a mulher e fundindo seu espírito à
claridade.
Era dia de Nossa
Senhora na Terra, 12 de outubro, e toda a fé destinada à santa emanou, no
planeta, fluídos de bondade, esperança e amor e foi graças a essa fé, que a
mulher conseguiu se redimir e sua redenção a uma escolha: pagar suas dívidas
naquele lugar demoníaco ou ser uma pessoa melhor em uma próxima vivência, e a
mulher escolheu uma outra chance. Assim, como num piscar de olhos apareceu
naquele lugar obscuro também foi sua partida para tentar melhorar em uma vida
qualquer.
Já a segunda
recebeu sua sentença e foi levada a pagar por suas maldades naquele lugar. Ela não
tinha fé como a outra pessoa, já que dentro de sua crença não havia espaço para
santidades.
E assim mais duas
almas foram recebidas na escuridão, que sob a voz, conduzidas à parede para
confessarem seus pecados...
Uma rotina de
punição e tormento sem fim para toda a eternidade.
Para acessar a edição de outubro:
http://www.fabricadeebooks.com.br/conexao_literatura88.pdf
Site da revista:
http://www.revistaconexaoliteratura.com.br/


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