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Conto: Ana Francisca

 

 

E quando a vi naquele salão meu coração palpitou tanto que precisei me amparar.

Era uma jovem formosa, uma deusa com cabelos negros como o ébano, face branca como a neve. Era linda da cabeça aos pés!

 

 

E

m férias há uma semana, Recife a cada dia me parecia mais adorável, uma das capitais brasileiras belíssima por seus rios, ilhéus e penínsulas. Andar junto ao porto, centro histórico da cidade antiga do século XVI tinha muitos encantos.

Mas não fui desfrutar daquela beleza sozinho, junto com um amigo permaneceríamos por dez dias. Antônio e eu tínhamos os mesmos gostos e quase o mesmo ideal de vida; amigos desde a infância, aos 25 anos ainda usávamos o antigo código secreto das batidas na parede, já que vizinhos, permanecíamos na casa de nossos pais, em uma vila particular do bairro Vila Moraes, rua próxima à Dom Vilares (Três Tombos), em São Paulo.

                Tudo corria bem até sermos convidados a um baile no tradicional clube social de Recife, um lugar amplo, aconchegante com orquestra impecável, boa comida e bebida. A impressão que tive ao entrar no clube foi que a cidade inteira estava lá, lindas moças bem vestidas com seus vestidos e saias meia-perna (midi) rodados cheios de charme, a última moda dos anos 50.

                Antônio logo se encantou com uma morena maravilhosa que o acompanhou em todas as músicas, mas minha timidez ainda me deixava apenas observando. Fui para perto do palco e me posicionei em um canto para desfrutar os encantos do baile, até tomar coragem para convidar uma jovem a dançar. E dava gosto de ver meu amigo feliz e correspondido por seu par.

                Acabara de acender um cigarro e na outra mão segurava o segundo copo com Ponche de Champagne quando o salão ficou um pouco mais escuro para uma série de músicas românticas e cada qual segurava a mão de seu par envolvidos à melodia.  

                Estava na metade do copo quando ela entrou no salão. Minha mão com o copo em suspensão acompanhou como em câmera lenta, os movimentos triunfais da chegada daquela deusa, vestida em atraente vestido vermelho com cintura marcada. Ao desviar de algumas mesas, um ventilador fez seus lindos cabelos negros como o ébano abaixo do pescoço se esvoaçarem para trás, deixando a pele branca como a neve do rosto destacar os belos e carnudos lábios vermelhos (como o sangue) em destaque. As sobrancelhas negras e altas realçavam os olhos amendoados... era linda da cabeça aos pés, a minha Branca de Neve! Meu coração palpitava tanto que precisei me amparar, sentando-me novamente, terminei o ponche. A bebida me deu coragem, levantei-me e fui rapidamente falar com a moça, antes que outro pretendente a tirasse para dançar, afinal, ela chamou a atenção do baile inteiro!

                - Olá, disse à moça, parando bem à sua frente. Eu me chamo Pedro, qual seu nome?

                - Eu sou Ana Francisca, disse ela, sorrindo e deixando brilhar os dentes brancos e perfeitos.

                - Você me chamou a atenção entre todas as mulheres.

                Ela sorriu novamente e não falou nada.

                - Estou nesse baile com meu amigo Antônio, estamos desfrutando nossas férias do serviço, viemos de São Paulo. Você é da região?

                - Nossa, vieram de tão longe. Sim, sou daqui.

                - É verdade, eu nem precisava perguntar, seu sotaque regional já tinha dito, mas estou nervoso.

                - Então vamos dançar para você se acalmar e Ana Francisca me puxou pelas mãos e me conduziu para a dança.

                Quando eu segurei suas delicadas mãos, entrelacei meus dedos aos dela segurando em sua cintura de pilão. Ela sorriu novamente e encostou sua cabeça no meu peito e assim tão perto senti o perfume de seus cabelos, que me deixou ainda mais inebriado: sim, estava em estado de êxtase!

                Ela também correspondeu e nem notamos que as músicas estavam mais agitadas, pois não nos largamos; continuamos abraçados e nos balançando lentamente até a outra rodada de músicas românticas. Então tomei coragem e com a mão trêmula puxei o rosto de Ana Francisca para cima, a apertei ainda mais em meus braços e quando nossos lábios estavam bem próximos, delicadamente beijei-lhe ardentemente.




                Após o beijo, abracei Ana e fomos até a varanda do clube para conversarmos e nos beijarmos ainda mais.

                - Que linda a vista daqui, disse a ela, veja, já está amanhecendo.

                Ela se virou bruscamente ao ver os primeiros raios solares e me empurrou: preciso ir embora, nossa, já está tarde, estou atrasada.

                - Calma, tudo bem, vou levar você até sua casa, não se preocupe. Está preocupada por causa do horário? Seus pais não gostam que você chegue tão tarde? Mas hoje é sábado, dia de baile, tentava tranquilizá-la. E assim, saímos do clube tão ligeiros que quando dei por mim entrava com Ana em um táxi.

                Ela falou o endereço ao motorista e pediu que fosse o mais rápido possível.

                Assim que chegamos, a casa de Ana ficava numa rua estreita e pequena e apontando para uma casa toda branca, ela disse que a mãe não poderia vê-los juntos, pedindo que eu não a acompanhasse.

                - Obrigada pela noite, fique aqui, volte para o hotel no táxi.

                Ela nem me deixou beijá-la mais uma vez e num passo rápido, num piscar de olhos, ela desapareceu bem perto da casa.

                Voltei ao hotel e estava reluzente, nunca havia me sentido assim tão feliz, a imagem da bela moça não saia de meus pensamentos.

- Antônio, sacudi meu amigo que roncava, conheci uma moça no baile, estou apaixonado. Vou escrever uma carta, um poema para ela.

- Oi, o que? – Pergunta Antônio, que mal conseguia abrir os olhos, vá dormir homem, depois você vai lá na casa dela, vai dormir... e o amigo caiu no sono novamente.

Mas meu coração estava acelerado, batia muito forte e ainda podia senti-la em meus braços, seu perfume, sua pele suave... e as lembranças fervilhando foram ficando mais intensas a cada palavra colocada no papel, os sentimentos, a paixão e ao terminar de escrever, ao colocar o ponto final, uma dor no peito o fez dobrar o papel com pressa e colocar o nome de Ana Francisca em um dos lados. Pedro foi largando a caneta devagarinho em cima da mesa, assim como foi fechando os olhos e sem conseguir chegar à cama, foi abaixando sua cabeça ali mesmo.  

                Depois de dois dias, Antônio consegue encontrar a casa de Ana Francisca.

                Ao falar da moça, a mãe ficou brava e tentou expulsa-lo, pois a filha falecera há dois anos. Antônio não acreditou e a mãe com os olhos marejados mostrou a foto da filha e deu-lhe o endereço do cemitério, ao encontrar a lápide, uma rosa vermelha estava sob a mesma.  

                Antes de falecer, Pedro disse que deu a flor quando saiam do clube as pressas, roubou de uma mesa.

                Pedro nem soube que dançou e beijou uma defunta, como pode ser isso, alguém morto ir ao baile materializado, se divertir e partir.

                Antônio em lágrimas, já que perdera o seu melhor amigo, um irmão, juntos desde que Pedro se mudara para a vila vindo a ser seu vizinho. Amizade pura e verdadeira, que talvez jamais encontre. Pedro era cardíaco, havia feito cirurgia por duas vezes e não podia ter fortes emoções, faleceu porque teve um infarto, a paixão instantânea pela jovem que mal conheceu o consumiu!

                E o mais estranho é que ela nem mesmo estava mais neste mundo. Após chorar bastante, Antônio colocou em cima da lápide, ao lado da flor, a carta deixada por Pedro, que demonstrava todo o amor pela moça.

                ...

                Ainda naquela mesma noite, com o cemitério fechado, andando entre os túmulos, Ana Francisca ao se deparar com sua própria cova, além da flor vê um papel, a carta de Pedro, a declaração de amor e desaparece.

                Após a visita ao cemitério, Antônio partiu de Recife com a família do amigo, que veio de São Paulo para transferir o corpo.

                Pelo tempo em decomposição, não pode ter velório e Pedro foi enterrado no jazigo da família, em São Paulo.

                Quando todos deixaram o cemitério, Antônio ainda ficou mais um pouco e entre as lágrimas que escorriam por seu rosto, agora sem ninguém pode perceber um papel caído ao chão. Ao pegar, era a carta.

                Pedro entendeu que o amigo não tivera um final feliz neste mundo, mas para aqueles que creem na continuação de outras vidas, Pedro e Ana Francisca estariam, naquele exato momento, juntos em outra dimensão!

                A verdade, se é certa ou não, se existe vida além da morte ou se existe outras vidas ou outros mundos, esta compreensão não sabemos, mas o que é real e temos que agarrar é o amor, e como diz a Bíblia: crescei e multiplicai-vos. Sim, multiplicar o AMOR, pois é este sentimento que o mundo realmente precisa!

 

                Abaixo o ódio, a guerra, multiplique sempre o AMOR!  

               

A história é uma adaptação do conto “A moça que dançava mesmo estando morta”, trecho do livro Estranhos Mistérios d’O Recife Assombrado, de Roberto Beltrão. 

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