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Conto: Sete dias

 

É como me tivessem arrancado o coração!

O sentimento de perda, o vazio latente dilacera a alma!

A única esperança é saber que há um novo amanhecer,

e que esse recomeço possa se realizar em alguma existência!

(Míriam Santiago)

              

            Há, chegamos a junho, mês do amor, em    que namorados, noivos, maridos, esposas e amantes deixam de lado suas desigualdades, seus ranços e seguem aproveitando a data comemorativa mais fervorosa do calendário: o Dia dos Namorados!

            Dia em que as floriculturas (presenciais ou por aplicativo, por conta da Covid) mais trabalham preparando arranjos de flores, entre outros presentinhos. Dia em que aromas de flores e de corpos exalam felicidade e juras eternas de amor.

            Mas para mim este mês será diferente, minhas palavras expressam homenagem a quem dedicou a vida inteira ao amor verdadeiro (tão mencionado no filme Malévola). É claro que aproveito o momento para brindar à querida data e a todos que conseguirão comemorá-la de certa forma, porém, apenas me reservo neste momento em que me encontro tão frágil, a homenagear minha saudosa mãe, que deixou aos 83 anos de idade, a Terra, obedecendo o chamado da existência de todos os seres vivos que assim residem neste Planeta.     

            E como no próprio título, queridos leitores, dona Neyde, ou Neydoca, foi-se em apenas sete dias.  Passando mal no Dia das Mães (9 de maio), data que para mim jamais será esquecida, com princípio de infarto do miocárdio, se internou na UTI, ala do hospital mais bem cuidada, acontecendo na terça-feira seguinte uma parada respiratória, pela qual foi sedada e nunca mais acordou.

            Tivemos apenas (meu irmão e eu) a segunda-feira, dia em que ela ainda lúcida pedia para ir embora daquele lugar, mas a melhora não se concretizou; parece que a melhora da morte existe de fato.




            É com lágrimas ao rosto que me lembro dela, com aparência jovem, bonita de quando eu era apenas uma criança. Não me vem à mente o invólucro da idade, e sim, a juventude, pois afinal, para aqueles que acreditam, não é o espírito livre do tempo? Então, se para ela a felicidade estava há anos de sua realidade, que seja feliz em seu começo, de quando eu pequena aprontava as mais diversas traquinagens, de quando ela não podia piscar se estivesse em algum lugar fora de casa que eu já aprontava e a ouvia gritar e brigar comigo: “Não se pode sair com essa menina, não temos sossego, ela não para quieta em lugar algum!”. Há, meu coração se encheu de glórias ao recordar esse passado.

            E tantas coisas que ela curtiu conosco... Principalmente quando nos levava (um bando entre os filhos e amiguinhos) ao cinema, que alvoroço!

            Acrescento ainda momentos felizes ao participarmos, anualmente, das apresentações no Ginásio do Ibirapuera, na capital paulista, onde morávamos, o Holiday on ice – para quem não conhece, é um show de patinação no gelo – no qual ficávamos maravilhados e não nos cansávamos de todo ano assistir.

            E porque não dizer dos piqueniques na Praia dos Sonhos, em Itanhaém? Após subir e descer por entre as rochas dessa praia maravilhosa, eis que aparecia um lugar legal para esticar a toalha de mesa e nos deliciarmos com guloseimas, e ainda apreciar uma paisagem de tirar o fôlego com o mar batendo nas rochas, espirrando muitas vezes água salgada quebrando a cena, mas tudo era diversão e felicidade.

            Há, um dos momentos mais felizes era quando dona Neyde e meu pai nos levavam à histórica – sim, porque foi inaugurado em 1968 – Cidade da Criança, parque de diversões que fica no centro de São Bernardo do Campo, atrás dos antigos estúdios da Companhia Cinematográfica Vera Cruz, lugar em que literalmente eu deixava minha mãe maluca!

            - Não sei o que viemos fazer aqui, ela não obedece, não venho mais – brigava Neydoca comigo, mas sempre com jeitinho eu conseguia voltar...

            Posso completar ainda com os passeios ao Parque Zoológico, na Vila Santo Estefano, lugar onde também fazíamos piquenique.

            Poderia ficar escrevendo o dia inteiro e relatando os memoráveis entretenimentos em família de outrora, mas acho que esses já são suficientes. Depois disso tivemos tantos outros eventos, alguns ruins e outros saudáveis.

            Agora na velhice, no período em que voltou a morar conosco (meu esposo e eu) tivemos também mais momentos de felicidade, de um ritual de vivência que se iniciava com medicamentos e terminava ao desligar a televisão, bem tarde da noite, apagando a luz do quarto para que pudesse descansar, cotidiano que agora faz tanta falta!

            Que ela possa seguir em frente, já que não houve sofrimento, Deus, o nosso Criador divino a levou com carinho, em silêncio, e assim de mansinho, eu segurando a sua mão fui acompanhando sua partida pelo aparelho a que estava respirando. E assim ela foi partindo, deixando seu corpo para trás, guiada pela Luz Cósmica do Infinito.

            Eu te amo minha mãe, jamais te esquecerei!

 

Esse conto, que faz parte da edição de junho da Revista Conexão Literatura, foi em homenagem ao falecimento de minha querida mãe, no dia 16/05, e hoje faz um mês de sua partida.

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