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Conto: Amor à primeira vista, ilusão e tormento

Por Míriam Santiago

 

 

É tão lindo ver que aos poucos os prédios vão se iluminando!

Ver tons alaranjados ganharem vulto em cada andar

É o anúncio de que a noite se aproxima, bem de mansinho

Assim como o meu tormento vem me corroendo, me privando!

(Míriam Santiago)

 

        Ainda me lembro como se fosse hoje a dor daqueles tapas, pois se não fosse por ela, que apareceu na hora certa me dando coragem e determinação, me colocando nos eixos da razão e sensatez, talvez não tivesse o amanhã a contar e recordar.

Nada faria mais sentido, o existir poderia ter deixado de existir, aquelas palavras mudaram a minha vida!

        ...

       

Depois de me desentender com o meu noivo, Marcos Augusto, aproveitei estar em férias e fui refletir sobre a relação em Salvador, Bahia, pois algo em mim me dizia que lá estaria a resposta que tanto necessitava.

        Em tour rápido por Salvador e respeitando todos os protocolos de segurança, pois estamos em janeiro de 2021 e a pandemia do novo coronavírus iniciada em março de 2020 ainda persiste, mas não poderia deixar de visitar a Igreja Nosso Senhor do Bonfim, que há anos esperava por conhecer, local que já foi palco do premiado filme “O pagador de promessas”.

Neste ano, uma das maiores manifestações religiosas do país, o cortejo da lavagem das escadarias do Bonfim, que se realiza há 248 anos foi suspenso. Mesmo assim, senti as boas vibrações desta festa tão bonita. 

Paz ao entrar e sentar naquela igreja, fundada há 276 anos. Antes de me ajoelhar para orar, senti uma presença, uma mulher. Estávamos somente nós duas, ela vestida por inteiro de preto. Ela puxou assunto, mas falava olhando sempre à frente, para o altar, não virava o rosto e muito menos o olhar para mim, e mesmo assim, senti um carinho muito grande vindo de tristes palavras. Ela falava devagar e cada sílaba tinha o som de sofrimento, não dizem que a voz humana é musical? Pois então, a dela emanava um som do passado marcado por crueldade e essa vibração me deixava mais curiosa em saber o que havia acontecido com ela, pensando em ajudá-la.

- Logo que você entrou na igreja senti que sua alma está fragilizada, você tem chorado muito e por mais que tente erguer a cabeça, há sofrimento vindo bem lá de dentro de seu ser. Diz a mulher.

- Você nem me conhece e como pode falar sobre meus sentimentos, disse-lhe em tom mais alterado.

- Não fique brava, pois não é comigo que deve ficar alterada e sim com certa pessoa que você conheceu e está muito longe daqui.

- Você quer dizer o meu noivo?

- Sim, esse mesmo. Calma, não se irrite, sente-se novamente, por favor, só quero te ajudar, disse a mulher, mas sem se virar, pois sua linha de conduta a mantinha numa postura sempre olhando para frente.

- Tudo bem, e o que você tem a dizer?

- Digo que sofri assim como você está sofrendo por causa dele. E como você, não me dei conta de que a partir da primeira bofetada, outras viriam esporadicamente.



 

   - Como sabe sobre tudo isso? Eu nunca te vi na vida e moro em São Paulo, como disse, muito longe daqui.

- Sim, nunca te vi, mas essa amargura que você carrega em seu coração é igual em todas as mulheres que sofrem violência seja pelo marido, noivo ou namorado, e muitas padecem a vida inteira sem que ninguém saiba, nem mesmo os pais, sofrem sem pedir ajuda, em silêncio por medo, vergonha ou culpa. E logo que você chegou pude sentir a tristeza latente em seu coração, com a aparência superficial da falsa felicidade. O que veio buscar aqui? Promessa para que ele pare com as agressões? Ou descarregar as mágoas?

- Não sei, realmente não tenho ideia dessa viagem ainda mais por conta da pandemia, em que temos o dever de permanecer em casa, mas algo me dizia para vir e segui a minha intuição.

- Sim, fez bem em seguir sua intuição, na verdade bem dentro de seu íntimo algo divino a empurrou para cá e você sabe que terá de acabar com o noivado e afastá-lo de você. Vou contar o que aconteceu comigo para servir de exemplo.

- Sou uma mulher de meia-idade, não tão bonita pelos atuais padrões da moda, sou antiquada, por isso tive apenas dois namorados na vida, nunca me casei na idade fértil, enfim, sofria em ver que nunca era escolhida por homem algum. Até que por meio de uma amiga, tentei conhecer alguém pela internet, nessas salas de encontros e assim conheci um homem muito amável, com idade próxima à minha, gentil, carinhoso e que me falava coisas belas, me elogiava sempre dizendo que eu estava linda com certa roupa, com um novo corte de cabelo e por aí foi indo, até que marcamos um encontro. Ele não era daqui de Salvador, veio de longe para me ver e para “nós” foi amor à primeira vista. Apaixonamos-nos loucamente e em menos de um mês já estávamos casados e eu desisti de tudo o que tinha aqui e fui embora com ele para Brasília. Confesso que nos dois primeiros anos de casados tudo ia às mil maravilhas, mas depois que nos mudamos para cá, o inferno começou e eu era culpada por tudo.

- Nossa você falando de sua vida, mas parece a minha tirando que não nos conhecemos pela internet, fui apresentada por um amigo e também nos apaixonamos desesperadamente e de casamento marcado. Estamos juntos há três anos e confesso, me desculpe por chorar ao dizer, mas todos esses anos ele se mostrou brutal. No primeiro ano nem tanto, vivia pedindo desculpas, mas depois ao ver que nunca tomei uma atitude se quer, foi aumentando os tapas e o resto você já sabe.

- E nós nos deixamos levar porque temos medo da solidão de ficarmos sozinhas novamente.

- Mais ou menos, até que não posso reclamar dos pretendentes anteriores, falei à ela, mas tenho medo de deixá-lo porque ainda não sei se sou eu a culpada por estressá-lo.

- De jeito algum, eles são agressores porque certamente viam o pai agredindo a mãe, e sem um acompanhamento psicológico, acabam mantendo “a tradição” de pai para filho: agressão e violência. Peço que você pense em tudo isso que falei com seriedade e carinho para que não seja mais uma vítima como eu fui, disse a mulher, que num lapso virou-se para mim e tomei um susto quando a vi, quase caindo do banco. Ela tinha o rosto desfigurado do lado direito, por isso falava sem se virar, assim como o braço preso em uma tipoia, e o pescoço desfigurado também, a pele repuxada com indícios de queimadura. 

Virei para pegar um lenço na bolsa e a mulher desaparecera tão depressa assim como surgiu. Olhei para trás, para os lados e nem sinal dela. Mas permaneci ali sentada limpando os olhos e deixando sair a aparência de choro.

Sai da igreja mais confiante, toda aquela conversa com alguém que sofreu e passou por tudo o que eu vivia, exatamente as mesmas coisas, me deixou com mais confiança, parecia que eu conversara o tempo todo com o espelho!

Caminhando pelo Largo do Bonfim, uma feira cultural com vários quadros, livros, pôsteres e banners me chamou a atenção. Andava pela exposição quando ao centro estava uma jovem com panfletos e ela falava com todos que passavam. No banner em altura natural estava a foto da mulher que eu acabara de conhecer na igreja, exatamente como se mostrou com o rosto e pescoço desfigurados e o braço na tipoia.

E não deu tempo de eu perguntar quem era ela, seu nome, porque a moça foi logo dizendo.

- Nesse banner está a minha falecida irmã Maria de Fátima, mais uma mulher vítima da agressão do marido, ele jogou álcool e depois fogo, deixando-a deste jeito que vocês estão vendo na foto. Ele sempre foi agressor, ficamos sabendo tardiamente, não deu tempo de fazermos nada. Esse monstro foi preso, mas pagou e conseguiu sair em liberdade, é o que acompanhamos sempre nos noticiários. Estou aqui para tentar ajudar outras mulheres alertando com o exemplo de minha irmã. Esse crime aconteceu em dezembro, agora, mês passado, ele disse que se estressou demais em ficar em casa com ela, por conta do isolamento social. E assim, peço que tenham consciência dessa realidade em nosso país, que piorou por causa da pandemia.

Dei alguns passos em direção à jovem, levantei a mão para falar-lhe, mas ao ver o banner novamente, as palavras de Maria de Fátima (agora sei o seu nome) me vieram à mente, assim como a sua aparência e cai ao chão, não consegui ver mais nada.

Acordei no hotel, com somente um leve corte na testa. Retornei a São Paulo e terminei o noivado, aparentemente ele aceitou depois de muita discussão, me livrando para sempre do agressor!

 

A fictícia história terminou bem, mas na vida real não é assim que acontece, infelizmente. Em pesquisa no site da Agência Brasil, matéria de 20.04.2020, só no Estado de São Paulo, a violência contra a mulher aumentou 44,9% durante a pandemia. O Fórum Brasileiro de Segurança Pública informou que o total de socorros prestados passou de 6.775 para 9.817, na comparação entre março de 2019 e março de 2020, subindo a quantidade de feminicídios de 13 para 19 casos.

Por isso, denuncie se presenciar ou escutar qualquer tipo de violência à mulher. O Ligue 180 está disponível 24 horas por dia, todos os dias, inclusive finais de semanas e feriados para qualquer lugar do Brasil. Vítimas residentes no exterior também podem utilizar o serviço, sendo que cada país tem um número de telefone correspondente.

 

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