Pular para o conteúdo principal


 Conto: Histórias da dona Bárbara: Você acredita no sobrenatural?


Olá, bom dia e excelente domingo a todos nós.

Deixo aqui na página minha participação que segue na edição de janeiro da revista Conexão Literatura, espero que gostem.

Abraços,

Míriam

 

A dona Bárbara (falecida) em 2007 deixou um “legado” de histórias e causos que fizeram parte da sua dura vida, quando a família veio da Europa, de Portugal e Itália, e viveram em cortiço, no Centro da Cidade de Santos, litoral de São Paulo, porque o patriarca foi deserdado da rica herança.

E foi justamente por conta da situação financeira que a dona Bárbara participou das mais diversas peripécias na infância e adolescência, vivência que a ajudou na construção de sua rica forma de contar, pois tudo o que se falava ela tinha uma versão para determinado assunto.

Este relato pela lembrança da doce senhora se passou há muitos anos, em 1937, vou relatá-lo exatamente como ela nos contou...

...

Lembro-me como se fosse hoje, diz dona Bárbara, morávamos na Rua Constituição, no Centro, eu trabalhava em um comércio e fui convidada por uma vizinha a ser madrinha da filha dela junto com meu irmão. A menina era tão linda, saudável, fofa, chamava-se Ana Joana.

Até os quatro meses a Aninha era quietinha, um doce, mas depois chorava por qualquer coisa não deixando ninguém da casa dormir.

Só situando o leitor, que na época era comum os pais morarem junto com filhos casados, e assim aconteceu com os pais da minha amiga, sendo o paciente avô quem conseguia fazer Ana Joana dormir, embalada numa cadeira de balanço.

E não se sabe o porquê, a bebê foi adoecendo, diagnosticada com pneumonia aos dez meses. Ajudei muito a amiga Thereza com a doença da filha, que a cada dia sucumbia em febre.

Na época era comum a ventosaterapia, uma técnica com registros de mais de seis mil anos, que consiste em estimular os mesmos pontos usados na acupuntura para aliviar sintomas de doenças, como resfriados, tosse, gripe, bronquite, pneumonia, cólica, soluços, indigestão, enxaqueca, insônia, artrite e reumatismo, entre outras mais.

E assim, o médico colocava copos aplicados nas costas e áreas do corpo com o auxílio de uma bomba de sucção ou válvula pneumática, que se acopla a esses copos por um bico de vedação e, ao puxar o êmbolo, ela se abre deixando o ar ser evacuado para fora do copo. Ao parar de puxar, há sucção imediata, vedando o vácuo no interior da ventosa. Mas toda essa “engenhoca” não conseguiu com que Ana Joana melhorasse da pneumonia e a bebê não aguentou.

Sempre presente ajudando na doença da minha enteada, o avô conseguiu com que o médico fosse a casa para ver a neta, que piorara e não aguentaria mais além daquela noite.

- Bem, infelizmente não há mais nada a fazer, disse o médico, fechando a maleta. Acho que chegou o momento de reunir a família para se despedir. Como sei que são católicos, sugiro que chamem um padre para os últimos momentos. E assim o médico se retirou, na tristeza de ter falhado com aquele pequenino ser, mas na época era comum um número grande de mortos pela deficiente medicina.

E a bisavó de Thereza conseguiu com que o padre da igreja matriz viesse para preparar os rituais de passagem, e assim as pessoas vieram e se sentaram na grande sala da casa. A pequena Ana Joana foi vestida de branco e enrolada numa manta, colocada dentro de uma cesta de vime toda enfeitada, que foi colocada em cima da mesa.

Fiquei ao lado da minha amiga e mãe da criança, que não tinha nem um ano de idade, uma situação muito triste.

Todos ficaram sentados e somente nós duas aguardávamos junto ao bebê, que fizera o suspiro da morte. Ana Joana então foi perdendo a cor da face e a boca começou a ficar roxa. O avô de Thereza, ao vê-la chorar sem parar se levantou e tirou a neta dali, mas eu permaneci com a minha enteada em seus últimos momentos aqui na terra.

- Alguém me ajuda! Grita a avó de Thereza, dona Adelaide, que não conseguia se levantar do sofá. Vi que ela tentava, mas parecia que uma “força sobrenatural” a estivesse impedindo. E todos olhando sem ação, não fizeram nada.

De repente, um estrondoso trovão ecoou na sala fazendo o pessoal pular em susto. E junto dele uma chuva forte completou o fim de uma noite estrelada.

Eu e o avô (Gabriel) de Ana Joana éramos agora os únicos junto da menina. Vimos que o coração cessara de bater e ela fechara os olhos. Ele segurou a minha mão e limpou com um lenço minhas lágrimas do rosto. O relógio começou a primeira badalada das doze que anunciaria meia-noite de 21 de agosto. E a cada badalada, notamos que a face da criança começara a corar e as pestanas dos olhos moviam-se ao som do relógio. Ao bater a 12ª badalada, os lábios roxos estavam avermelhando-se novamente e o relógio despencou da parede, desviando a nossa atenção da criança. Nós voltamos a ela quando começara a chorar, espanto que fez todos se levantarem das cadeiras e sofá e a correrem para junto da cesta.

Minha amiga gritava de felicidade, abraçou e tirou a filha da cestinha de vime, Thereza agradecia a Deus e chorava apertando a filha.

Depois desse episódio a enteada Ana Joana nunca mais ficou doente.

O que me lembro é que a menina cresceu normal como qualquer criança, mas os avós da garota sempre disseram, segurando uma velha fotografia, que ela era muito parecida com a filha falecida chamada Carmem.

A Carmem se foi criança, ainda não tinha sete anos quando não suportou uma crise de apêndice. Morreu agarrada a uma maleta de couro marrom que ganhara para a escola, com caderno e lápis, mas a menina nunca conseguiu ingressar no colégio, já que seu grande sonho era ser professora. Antes de morrer, aos 40º de febre, ela disse que de uma forma ou outra iria realizar o desejo de frequentar a escola.

...

 Faltavam poucos dias para Ana Joana completar sete anos.

Eu estava na casa dela preparando o bolo da festa com a minha amiga Thereza quando a menina entra na cozinha radiante de felicidade segurando uma pasta de couro marrom. Não era nova, mas estava intacta, já que nunca fora usada, Ana Joana disse que achara a mala no guarda-roupa do avô.

- Agora vou conseguir realizar o meu sonho, diz a garota com um sorriso no rosto.

 

 

Acompanhe a edição deste mês da Revista Conexão Literatura, acesse o link:

http://www.fabricadeebooks.com.br/conexao_literatura67.pdf

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

  Imagem pública Google Giro pela Cultura e História Hoje tem Sarau Literário-Gastronômico em Santos   Amantes da literatura brasileira não podem perder o sarau literário-gastronômico que se realiza nesta quinta-feira (18/06), das 19 às 21 horas, na Casa das Culturas de Santos.   Além de conhecer a biografia e poemas do poeta, cronista, cotista e jornalista Olavo Braz Martins dos Guimarães Bilac, mais conhecido como Olavo Bilac, considerado o "príncipe dos poetas brasileiros", os quitutes foram inspirados na tradicional e sem igual Confeitaria Colombo do Rio de Janeiro, frequentada pelo poeta.   O evento é totalmente gratuito e sem necessidade de inscrição basta comparecer no horário e participar, quem quiser leve seu poema e leia! A casa fica na Rua Sete de Setembro, 49, Vila Nova, Santos. Imagem pública Google   Olavo Bilac Olavo Bilac (Olavo Braz Martins dos Guimarães Bilac), jornalista, poeta, inspetor de ensino, nasceu no Rio de Janeiro/RJ, em 16 de dezembr...
Poesia Telha de Vidro Rachel de Queiroz Uma boa semana a todos nós! Ontem foi um dia complicado porque fui fazer um curso e no sábado estive numa festa. Só tenho a avaliar que meu final de semana foi ótimo! E nada melhor para relaxar na segunda com uma poesia, não é? Ainda mais depois da turbulência política de ontem, que começou na sexta (só lembrando que este veículo serve aos leitores temáticas culturais e não discuto aqui nada sobre política, somente uma pequena pincelada, para que este meu projeto não se torne um salseiro). Então vamos a Poesia Telha de Vidro da ilustre Rachel de Queiroz, espero que gostem. Tchau pessoal, até amanhã, Míriam Quando a moça da cidade chegou   veio morar na fazenda,   na casa velha...   Tão velha!   Quem fez aquela casa foi o bisavô...   Deram-lhe para dormir a camarinha,   uma alcova sem luzes, tão escura!   mergulhada na tristura   de sua treva e de sua única portinha... A moça nã...
Bom dia. Segue o conto “O homem que espalhou o deserto”, de Ignácio de Loyola Brandão. Importante texto que serve de reflexão sobre a prática danosa da derrubada de árvores indiscriminada, uma tendência mundial de devastação da natureza. O homem que espalhou o deserto Ignácio de Loyola Brandão Quando menino, costumava apanhar a tesoura da mãe e ia para o quintal, cortando folhas das árvores. Havia mangueiras, abacateiros, ameixeiras, pessegueiros e até mesmo jabuticabeiras. Um quintal enorme, que parecia uma chácara e onde o menino passava o dia cortando folhas. A mãe gostava, assim ele não ia para a rua, não andava em más companhias. E sempre que o menino apanhava o seu caminhão de madeira (naquele tempo, ainda não havia os caminhões de plástico, felizmente) e cruzava o portão, a mãe corria com a tesoura: tome, filhinho, venha brincar com as suas folhas. Ele voltava e cortava. As árvores levavam vantagem, porque eram imensas e o menino pequeno. O seu trabalho rendia pou...