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 Conto: Esperança

Por Míriam Santiago

 

            Após acertar um mês de férias anuais do serviço, me juntei a uns amigos da Brigada de Incêndio e partimos para o Pantanal na ânsia e na glória de podermos voluntariamente somar esforços junto a brigadistas e Corpo de Bombeiros, que lutam de todas as maneiras e métodos para conter os focos de incêndio, que se alastram com total naturalidade pelo Centro-Oeste afora.

          Com temporada de seca histórica, mudanças climáticas e desmatamento crescente em outros biomas, como a Amazônia e o Cerrado, o estado no Pantanal tornou-se alarmante e terrível por tanta destruição da flora, fauna e da perspectiva de vida de comunidades como a ribeirinha.

          E foi com esse espírito de fazer o bem e de salvar o que for possível que meu grupo e - eu, Valentina, Rodolfo, Carlos Eduardo, João Claudio e Helder - partimos para a nossa maior aventura: a da esperança em trazer a vida pós-destruição, devolver à natureza o que lhe foi roubado.

          Nem mal chegamos a um dos pontos e uma enorme labareda se formou a nosso redor.

          - Rápido, gritou o coordenador das ações do grupo a que nos juntamos, vamos acabar com esse foco imediatamente, não deixemos que se alastre, peguem os abafadores que eu e outros voluntários iremos puxar a mangueira – grita Renato, como não deu tempo para apresentações, vi o nome dele costurado no uniforme.

          E assim a equipe conseguiu extinguir o foco. Logo imaginei o que mais teria por vir, pois uma coisa é você acompanhar o que está acontecendo por meio de noticiários, internet e outra é sentir no próprio local todo ardor do calor das queimadas, da secura do local, da umidade e da fumaça que sufoca a respiração e a alma. E pensar que todo esse sofrimento poderia ser evitado com leis firmes, com fiscalizações constantes contra o desmatamento e a destruição, um mal que demorará a ser reparado.

          O cabo Renato conseguiu juntar o grupo após a nossa vitoriosa ação.

          - Pessoal, eu agradeço em nome da Corporação os voluntários que se juntaram a nós nessa empreitada, das mais difíceis, pois os incêndios florestais afetam de maneira grave a biodiversidade e a saúde da comunidade; sem contar que aceleram o processo de aquecimento global, poluição dos rios e do ar. Mediante esse cenário, temos que ser firmes e fortes para enfrentarmos as situações que virão pela frente. Como vocês já devem ter acompanhado, todos os municípios do Pantanal registraram focos de incêndio entre julho e setembro. Para mim 2020 será coroado como um dos piores anos da história, pandemia, inúmeros mortos em pouco tempo em que o novo coronavírus se alastrou e para completar o ano essa degradação devastadora”, diz o cabo Renato com lágrimas aos olhos.

          E ele finalizou as ações do dia com duas horas de descanso, pois partiríamos para outro local, pois era só olhar ao redor e ver o amarelo ardente das chamas consumindo tudo pela frente. São as chamas da purificação? Ou as chamas da vergonha, do descaso?

          Poconé e Barão de Melgaço, no Mato Grosso foram os locais com maior número de focos e o Parque Estadual Encontro das Águas está localizado nesses dois municípios e é nosso próximo ponto de serviço.




          Chegando ao parque nos juntamos com um grupo grande de biólogos, veterinários, brigadistas que assim como nosso grupo, agregam Esperança.

          Em meio ao desespero dos animais que lutavam desesperadamente para fugir do fogo, incansavelmente os profissionais partiam para resgatá-los. E foi o momento em que me distrai olhando toda aquela cena, queria que fosse flash de algum filme, mas não, era a vida passando bem diante dos meus olhos em câmera lenta.

          E foi assim que por trás de uma onça extremamente machucada eu via chegando bem lentamente ao encalço luzes brilhantes, e reluziam a cada batida do coração, a cada gesto de bondade para com o animal, eram as luzes do Amor! E os rostos e corpos dos profissionais ficaram desfocados porque tudo o que eu conseguia enxergar eram fagulhas brilhantes da centelha divina, retirando e salvando do fogo esses seres indefesos da natureza.

Aquela visão deu mais clareza às minhas ideias sobre a vida, os seres humanos e seu papel neste mundo, assim como as nossas “obrigações” para com o planeta com ações e ideias mais produtivas para o bem comum, para a manutenção da natureza, da responsabilidade e das atitudes.

Afinal, quais são as luzes que você deseja fazer refletir no Universo?

 

A história fictícia enaltece a coragem e perseverança de todos os profissionais que lutam diariamente com o fogo, reescrevendo o presente para que possamos contemplar um futuro.

 

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