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Conto: Leonor

Passava férias com minha mãe em São José do Egito. Você conhece esse lugar querido leitor? Pois bem, nem eu sabia de sua existência até o verão de 1978, quando meus pais separados, a mãe resolveu me levar para lá com ela. O município está situado no Sertão Pernambucano, pelos povoados de Batatas, Curralinho e Mundo Novo, entre outros.  Digo a vocês que de início não gostei da proposta dela, mas depois achei o passeio interessante, e uma pessoa que conheci por lá, um repentista chamado João Estranho, me “ajudou” a obter uma premiação de melhor conto na escola escrevendo sobre ele.
E lembro-me como se fosse hoje quando andávamos pelo centro da cidade, nos deparamos com João Estranho, apelidado pelos colegas repentistas por conta de seus versos estranhos e melodia prá lá de exótica!
Ao caminharmos pela praça principal, encontramos várias duplas de repentistas que cantavam e alegravam turistas com suas violas foi quando o avistei isolado dos demais encostado no muro da igreja. Puxei minha mãe pelo braço e a conduzi para o outro lado da praça, onde estava sozinho o tão homem. Ele era alto, encorpado, cabelos curtos, vestido com camisa estampada e calça de tergal azul, mas o que me chamou atenção foi o tapa-olho.
Ao passarmos perto dele, o homem foi logo nos chamando:
- Seu menino, dona moça, um minuto de atenção, não demoro a cantar a minha sofridão!
- Mãe, vamos ouvir a música, que tal? – Ele me pareceu interessante e minha mãe, que não tinha nada a fazer naquele pequeno pedaço do mundo nordestino, parou e ficamos aguardando o homem compor e tocar sua viola. A música era mais ou menos assim:

Olhem só, escutem com atenção o que tenho a contar
é uma história de amor
amor verdadeiro, mas com dor
eu já contei várias vezes, e torno a cantar
falo sozinho, com letras ao ar.
E pra buscar inspiração,
busco na minha respiração.
Na mais profunda tradição
Já que nada mudei
E nunca pequei.

A história começa assim
caminhava eu por este sertão sem fim
quando um dia me deparei
com o senhor Serafim!
Ele era pedreiro, marceneiro e pintor
fazia tudo com muito amor.
E não era pra menos,
já que a família era grande
com muitas bocas a alimentar,
mas é somente de uma que ouso expressar!

Logo que o conheci ele começou a conversar
Mostrou sua vida, a mulher e as filhas
estavam vestidas com muita renda e fitilhas,
tão arrumadas que mal conseguiam andar!
Achei aquilo engraçado,
mal sabia eu que estava enrascado.
E que uma paixão vinha a todo vapor.
Meu coração livre de sentimento
começou a bater forte por um momento
logo que vi a Leonor.

A mais bela das irmãs,
fina flor, sedutora e formosa
quando sorria ficava ainda mais charmosa,
mas escondia um mistério,
era guardada com muito critério,
e aquilo me deixou louco de paixão,
sem raciocínio, sem razão.
Eu insisti no namoro, e o pai disse não.
Mas eu a queria a qualquer preço,
bolei um plano, seria ladrão!

E foi numa noite clara como esta,
quando a família saiu para uma seresta,
foram todos menos Leonor,
que não reclamou, não guardava rancor.
Era o momento tão esperado, eu de tocaia.
Bati à porta e fui entrando
chamei Leonor, e nem sinal do meu amor!
Foi quando achei um alçapão
que me levou até o porão,
e lá estava ela, amarrada naquele calor!

Logo que a vi fui até ela correndo
e ela gritou, que eu não sabia o que estava fazendo!
Fiquei indignado com a cena
ela disse vai embora dessa novena,
falei que não podia, que sem ela morreria.
Ela disse não fique, vais se arrepender
Tenho uma doença, logo tu vais saber!
E gritei vamos embora, vim te buscar,
É melhor você ir, pois posso até te matar!
Ela insistiu para não me prejudicar.

Foi tudo tão rápido
ela começou a se contorcer
gritava, parecia que ia morrer!
E suas roupas começaram a rasgar
fiquei branco a desmaiar!
Com visão turva vi Leonor se erguer
Dentes grandes pela boca a me morder.
Foi quando escutei um barulho
era o pai que vinha a me socorrer
Leonor então fugiu pela mata a correr!
...

- O senhor não vai terminar a melodia? Perguntamos a João Estranho, que estava nervoso e foi guardando em sua bolsa de couro a tiracolo a viola.
- Não, disse ele. Está ficando tarde, está escurecendo e é muito perigoso, é melhor vocês voltarem ao hotel, adeus!
- Mas como termina a história, perguntei-lhe louco de raiva.
- Fui salvo, não está vendo? Disse João Estranho que além de não ter uma vista ainda mancava da perna esquerda.
Eu e mamãe ficamos avaliando a história enquanto o homem, mesmo com dificuldade, andava depressa, até desaparecer por completo na escuridão.
Mesmo sem entender a atitude do homem seguimos seu conselho e retornamos ao hotel.
Não era tarde quando olhei da sacada do quarto o satélite da Terra no céu. Era noite de lua cheia e ela reinava soberana no mais profundo mistério do cosmos!

Cantoria popular

O conto deste mês mescla literatura fantástica com a cantoria ou poesia popular (repentista), que tem suas raízes na França. Segundo pesquisas, a poesia popular começou a florescer no Brasil no século XVII, através da fusão da poesia local portuguesa com a trova dos poetas franceses, alojando-se de forma mais acentuada no Nordeste, principalmente nos estados da Paraíba, Pernambuco e Ceará. Foi aí que coube ao Brasil o privilégio do aparecimento do legítimo cantador de viola. 
Já no sul do País, nos anos 1960 - 1980, essa variação folclórica foi muito popular na região, onde era chamada de Trova. 
Ao graduar-me em Letras, me apaixonei por todas as formas de Literatura e procuro mesclar os tipos para diversificar histórias, ressaltando a beleza das letras.  

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