Olá meus amigos,
tenham um excelente domingo.
Segue o conto A Bruxa do Ribeirão, escrito em 2013 para o Dia das Bruxas, mas acabei me esquecendo, e a história ficou arquivada.
Bem segue em duas partes, espero que gostem.
Grande abraço,
Miriam
— Venham
por aqui meus irmãos, vamos até a casa dela, hoje esse monstro não escapa de nós! – Gritava um dos pescadores, que
evocava os demais do vilarejo à caça a uma suposta bruxa.
Segue o conto A Bruxa do Ribeirão, escrito em 2013 para o Dia das Bruxas, mas acabei me esquecendo, e a história ficou arquivada.
Bem segue em duas partes, espero que gostem.
Grande abraço,
Miriam
A
Bruxa do Ribeirão
— E
se ela nos amaldiçoar e depois sair voando, como iremos pegá-la? – Disse outro
pescador, que estava morrendo de medo.
—
Psiu, silêncio, com toda essa algazarra a mulher irá escutar e fugir, temos que
ser cautelosos! – Falava a liderança da perseguição, um pescador moreno e novo
e um líder nato; homem que estava disposto a tudo a pegar a tal feiticeira a
qualquer preço.
O
grupo era formado por 10 pessoas, entre pescadores e suas mulheres, armados de
paus, facas, foices e cordas e só tinham uma coisa em mente, prender a bruxa da
ilha. Então, prosseguiram sorrateiramente pelas ruas da pequena vila em busca
de uma mulher que há dias era acusada por bruxaria. A moça mudara-se para a
vila há pouco tempo e nunca conseguiu boa interação com os moradores,
principalmente pelas mulheres, tanto as solteiras como as casadas, que desde o
início sentiam certa inveja dela.
—
Rápido pessoal, ao chegarmos a casa, bateremos na porta com delicadeza, em
silêncio, para que ela não perceba que a levaremos para julgamento. — Orientava
o líder dos pescadores.
O
grupo então apressou o passo e silenciosamente já estava quase na casa da procurada,
que foi cercada.
Era
uma casa que destoava das demais. Em madeira de cor vermelho, a pintura
sobressaia e a tinta parecia viva, tornando o imóvel assustador. Ao redor,
árvores altas e de troncos grossos e tortos, cujos galhos, ao vento, tornavam
as árvores monstruosas. Uma das mulheres se benzeu e estremeceu de medo com o
cenário. A casa da suposta bruxa tinha vida própria.
O
líder bateu na porta e gritou pelo nome da mulher, conhecida como Walquíria.
Sem
saber o que estava ocorrendo, a moça, com um lindo vestido verde reto e
comprido, com fitas à cintura e o cabelo preso em trança abriu a porta para
verificar o que acontecia. Mal a porta se abriu, o líder do grupo puxou o braço
da moça, fazendo-a sair rapidamente para a rua, um ato bruto que a deixou sem
nenhuma atitude.
Espantada
com tudo aquilo, a mulher olhou para todos sem entender o que se passava.
— O
que é isso? O que fazem essa hora na minha casa? O que está havendo? — Perguntou a moça que aparentemente não
oferecia risco a ninguém.
— Vamos
levá-la, você ficará aguardando julgamento por seus crimes. – Disse o líder à
mulher.
—
Epa, espera aí! – Exclamou um dos pescadores. Acho melhor acabarmos logo com
isso e fazermos nós mesmos o julgamento e a condenação. Já temos provas de que
é ela a bruxa e temos que queimá-la, só assim conseguiremos ficar livres desse
mal. — Falava convicto outro pescador, ele era de meia-idade e com aparência de
gente sofrida.
— Não
podemos fazer justiça pelas próprias mãos, isso é contra a lei, afirmava o
líder.
—
Queremos a nossa justiça, depois de tudo o que vem acontecendo aqui logo depois
que ela se mudou para cá, retrucou mais outro pescador.
Assim
a gritaria foi tomando espaço e a acusada no meio do círculo assistia aquele
povo de gente humilde, com pouca cultura, mas que estavam decididos a fazer
justiça com as próprias mãos se fosse preciso.
— Agora
é a vez de nós mulheres darmos a nossa opinião, e queremos justiça aqui e
agora! — Falava a mulher mais velha do grupo, deveria ter mais de 50 anos,
estava descabelada e trajava um vestido marrom até os pés; ela dizia coisas
estranhas e apontava para a bruxa.
—
Vamos amarrá-la, ela tem que pagar por seus crimes, dizia a tal mulher
enfurecida.
O
grupo foi chegando mais perto da bruxa, que pela primeira vez se sentiu
encurralada.
— O que vocês estão tentando fazer é contra a
lei, não podem me prender e me matar. — Falava a bruxa, cujas faces muito
brancas estavam avermelhadas de pavor, e seus olhos arregalados pareciam saltar
do rosto.
O
grupo foi chegando mais perto da moça e tentavam agarrá-la. A mulher se
esquivava, mas cercada, sabia que era inútil fazer qualquer coisa. Então ela
fechou os olhos e se concentrou.
De
repente uma névoa começou a baixar rapidamente. A noite estava clara e quente e
o nevoeiro ficou denso, tomando conta do vilarejo.
—
Meu Deus, o que é isso? — Gritou apavorada uma das mulheres do grupo. E as
pessoas ficaram olhando ao redor e a imagem de todos foi ficando cada vez mais
difícil tamanha a névoa que pairava.
—
Depressa, pega a bruxa! – Disse o líder esticando a corda na mão.
Nisso
Walquíria se desvencilhou da roda empurrou uma das mulheres jogando-a ao chão e
abrindo espaço no círculo, correu rapidamente e sumiu no nevoeiro.
—
Vamos, atrás dela, não a deixem fugir, temos que pegá-la, gritava o pescador
que liderava o grupo.
Mas
a bruxa correu sem olhar para trás e sumiu aos olhos de todos, se embrenhando
na mata.
Com as tochas nas mãos, o grupo correu
ao encalço da bruxa, entrando na mata e tentando seguir o rastro da moça. Estavam
com medo e caminhavam cautelosamente.
A bruxa sentiu-se segura naquela noite,
mas o que fazer? Com o passo agora normalizado a moça foi ter no lago,
sentou-se na beira e debruçou-se para beber água. Ao olhar seu reflexo na água
a mulher começou a gargalhar e gargalhar e sua face foi se modificando, e a
água do lago começou a turbilhar...
...
Anna,
toda suada, desperta bruscamente pelo sonho que tivera pela terceira vez, parando
exatamente no turbilhar da água do lago. Senta-se na cama sem forças e espera o
coração voltar a bater normalmente. O que
será tudo isso? Pensava Anna, sem ter a mínima ideia da situação.
Esse
sonho não pode acontecer por três vezes, tem algo errado, preciso descobrir
quem é essa bruxa que as pessoas queriam pegar e aquele lugar. Será que a mulher acusada de bruxaria sou
eu? Será que tive um passado tão
ruim? Anna divagava durante o seu desjejum.
Largou o café e foi procurar em seus
álbuns fotos sobre o lugar do sonho. Anna sabia que aquelas casas eram
familiares e se perguntava se não havia estado em visita durante alguma viagem
que fizera. Em vão, em suas fotos não encontrara nada e o mistério permanecia
em sua mente. Destinada a encontrar o lugar de qualquer jeito, recorreu à internet
e foi aí que Anna achou algumas fotos parecidas com as de seus sonhos, e não
estava tão longe de sua casa. Aproveitaria as férias próximas e desembarcaria
em Santa Catarina, em Florianópolis para visitar e tentar descobrir se era lá que
ela vislumbrava nos sonhos.
E
assim aconteceu...
No dia seguinte à sua estadia, Anna
alugou um carro e foi visitar a capital catarinense. Mesmo encantada com a
região, se informou sobre o Ribeirão da Ilha, pois era desse lugar que emanava
seus sonhos.
Chegando a seu destino, Anna ficou
surpresa com a paisagem, pois era exatamente igual ao que sonhara, as casinhas
coloridas em frente ao mar, a pracinha com a igreja ao topo, Anna ficou
estarrecida de emoção. Foi seguindo pela rua da costa, caminhando lentamente e
olhando o visual. Parou defronte ao mar e começou a sentir uma vibração
estranha, e seus pensamentos se voltaram para o local, algo que nunca sentiu assim
antes em lugar algum.
—
Você está se sentindo bem? — Indagou um rapaz que passeava pela praia e viu que
Anna parecia desfalecer.
— Estou sim, obrigada. — Virou-se ao
homem, abrindo um sorriso em gratidão.
— O que a trouxe até aqui? Você tem
algum parente no Ribeirão? — Questionou o homem, que olhava fixamente para
Anna.
— Bem, você me parece uma pessoa bem
atenciosa e vou contar-lhe um segredo. É que eu sonhei com este lugar, o
estranho é que o sonho não era recente, pois as roupas eram de outro século,
mas as casas não estão tão mudadas assim, as ruas são iguais, mas estão
asfaltadas e a igreja, o cemitério e a praça estão no mesmo lugar do sonho, mas
agora com um acabamento mais moderno, um pouco diferente de antes.
— Nossa, que coisa esquisita! —
Retrucou o jovem.
Anna se apresentou ao homem e perguntou
se ele não poderia ajudá-la a desvendar o mistério que a atraíra para lá, pois
teria de pesquisar e como não conhecia a região, qualquer ajuda seria bem-vinda.
— Posso ajudá-la sim, pois também estou
em férias, sabia? Meu nome é Arthur, e minha família é tradicional da ilha, de
antigo pescadores que vieram de Portugal, desembarcaram em Santa Catarina e
escolheram o Ribeirão para viver. Assim aconteceu com várias famílias de
imigrantes, é por isso que tem muitos descendentes de portugueses por aqui,
explicou o homem.
— Anna escutava tudo com muita atenção
e estava entusiasmada em ter aquela pessoa maravilhosamente simpática em sua
ajuda. O rapaz tinha uma beleza morena de cabelos e olhos castanhos, alto e um
sorriso de fazer qualquer mulher vibrar. Que
férias, mesmo que eu não encontre nada, só a companhia dele já valeu a viagem!
Pensava Anna, ao discretamente olhar o rapaz de cima em baixo.
Os dois resolveram sentar-se e admirar
a praia. Estava um lindo dia de maio, sem frio e com um sol aconchegante.
Arthur convenceu Anna a hospedar-se no
Ribeirão, para facilitar a pesquisa sobre a região e, claro, para ficar mais
perto dela.
Instalada agora em uma pousada, Anna
sonhou novamente com as pessoas na porta daquela casa gritando e tentando agarrar
a suposta bruxa, o nevoeiro e a beira do rio.
Anna acordou molhada de suor e
aterrorizada, mais uma vez. Tentou lembrar-se dos rostos das pessoas, mas em
vão. No dia seguinte, Arthur foi buscá-la para conhecer uma senhora muito
querida na ilha.
Aguardem a continuação...


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