Olá! Mais uma
semana se passou e estamos novamente na segunda-feira!
Para hoje,
deixo um conto, O Estranho, e espero que gostem.
Abraços,
Miriam
Conto
O Estranho
Laurence tinha pouco mais de 65 anos, mas a aparência era
de um senhor de quase 75 anos, devido a saúde que sempre fora debilitada, pois
desde criança adoecia fácil, apesar da boa situação financeira, e nunca teve
muita resistência, ficando doente com frequência.
Como vivia sozinho, uma vez por semana uma enfermeira o
visitava para medir a pressão e falar sobre vários detalhes. Mesmo assim,
Laurence vivia feliz com sua rotina e não reclamava de nada. E assim Laurence
foi sobrevivendo e comemorando cada ano de vida, mesmo sem nada aproveitar.
Laurence só teve uma namorada e não conseguiu se casar. Esse
grande amor de sua vida ele a conheceu no hospital, fazendo hemodiálise e ela
morreu aguardando na fila de transplantes, ansiosa por um doador.
Naquela manhã, saudoso por seu passado, Laurence pegou um
álbum de fotos e cuidadosamente abrindo cada página foi deixando as lembranças
refrescarem sua mente; folha por folha, uma história a recordar. No começo de
sua trajetória de vida, as fotos de seus pais, sempre presentes, em todos os
momentos. E as primeiras lágrimas que desceram por seu rosto, sentimento esse
de felicidade e de agradecimento por tudo o que fizeram por ele.
Depois chegou a vez de Laura, o grande amor de sua vida.
As fotos do noivado o fizeram reviver toda aquela alegria que durou tão pouco!
Laura também era uma pessoa feliz e meiga. Assim como ele, lutava pela vida e
nunca desistiu, sempre teve esperanças de que conseguiria um doador para
substituir um rim, mas o tempo foi passando e ela não mais resistiu. Desde
então Laurence sempre esteve à frente de campanhas em prol da doação de órgãos,
foi uma luta constante na vida dele, conseguindo que muitas pessoas deixassem a
ignorância e a desinformação de lado e se tornassem doadores. Foram anos em
prol dessa campanha e Laurence teve a certeza de que conseguiu mudar a história
de muitos que aguardavam na fila por um transplante.
E Laurence acariciou foto por foto. Era linda e
tão jovem! — pensou ele e mergulhou num choro emocionado, por ter
vivido poucos momentos ao lado dela.
Deixou as recordações de lado e foi lavar o rosto, pois a
lembrança de Laura sempre o deixava abatido. Cansado, largou o álbum numa
mesinha ao lado da cama e deitou-se.
Na manhã seguinte, Laurence estava melhor. Ao levantar-se
da cama, olhou para o seu precioso álbum e ao fechá-lo para guardar, uma foto
se desprende e, lentamente, foi planando até pousar suavemente ao chão.
Laurence abaixa-se para apanhá-la. Então depara-se com uma pessoa que não via
há muito tempo, um velho amigo, um dos poucos que fizera parte de sua
jornada.
Ao segurar a fotografia, Laurence senta-se na cama
novamente e não teve como impedir as recordações que aquela foto trouxe à sua
mente.
E flashes de tempos longínquos na Capital paulista foram
invadindo o passado de Laurence novamente...
...
Era o ano de 1975. Lembro-me que eu passara no vestibular
para História na USP e iria começar as aulas. Logo no primeiro dia, devido à
imensidão da universidade, me perdi e cheguei atrasado à aula e assim também
aconteceu com um jovem, Arthur. Sempre adorei estudar fatos e movimentos
históricos e tudo o que se relacionava à razão da Humanidade me fascinava.
E nós perdidos conseguimos encontrar a sala e daí surgiu a
nossa amizade.
Ah, Arthur, era bem apessoado, agora me lembro dele,
depois de olhar a miúde para essa foto. Alto, de cabelos e olhos negros numa
pele muito branca. Tinha dentes maravilhosos e branquíssimos e um sorriso
cativante. Ele era três anos mais velho que eu, e dissera que seus pais se
divorciaram quando ele era pequeno, então, vivia sozinho, trabalhava meio
período e complementava o salário com dinheiro que o pai lhe deixara. Bem, essa
foi a história de vida que ele me contou, pois uma vez perguntei porque nunca
havia visto seus pais, nenhuma fotografia e nenhum parente. Dissera-me que a
família inteira vivia no Sul do País.
Arthur era resolvido em todos os aspectos, de uma certeza
do que almejava na vida que até parecia mais velho; sim, tinha a cabeça de um
velho, num corpo jovem, falava eu sempre a ele.
Apesar de chamar a atenção das garotas, Arthur não
namorava ninguém, dizia que tinha muito a estudar e que ainda não havia
aparecido aquela que preencheria seu coração. Ele tinha uma educação refinada,
era inteligente e falava dois idiomas. Um dia o apresentei a meus pais, que
gostaram muito dele.
Terminamos o ano e um dos colegas convidou todos da classe
para uma festa, era mais um dos tradicionais bailinhos de casa, costume
naqueles tempos.
— Laurence, será um festão e não me venha com nenhuma
desculpa para não ir, passarei na sua casa para irmos juntos! — Disse Arthur
baixinho ao meu ouvido, pois eu não participava de quase nada em todos aqueles
tempos que nos conhecemos.
E desta vez tomei coragem e fui. Chegando a casa de
Renato, o anfitrião, os colegas todos estavam lá.
Arthur dançou a noite toda com várias garotas, que se
derretiam nos braços dele.
Já era tarde quando questionei para irmos embora, pois eu
estava exausto. Como a festa era perto de minha casa, fomos caminhando e
conversando. Arthur todo glorioso por ter dançado com as moças e eu contando a
minha façanha de ter ficado apenas com uma. De repente, um bêbado pára em nossa
frente e nos importuna. Ele queria dinheiro. Não demos ouvidos e continuamos a
andar. Ele então virou-se e segurou o meu braço. Enraivecido, Arthur o ameaçou
a largar-me, mas o homem não ligou e continuou a apertar o meu braço.
Arthur então lhe deu um safanão com tanta força que ambos,
eu e o bêbado, caímos ao chão.
— Rápido, levante-se, disse Arthur para mim.
— Então vamos embora, puxei o meu amigo pelo braço.
— Não, vá, vou ter uma conversa com ele, disse Arthur.
— Não, vamos embora agora, gritei eu.
— Já disse que não! E ele me empurrou, me afastando dali.
Quando olhei para os olhos de Arthur me aterrorizei, pois avermelharam-se e seu
semblante não era mais do jovem que eu conhecia, parecia outra pessoa, estava
irreconhecível!
Sai correndo e me escondi atrás de um poste, junto a um
carro parado na rua, a poucos metros dali. Arthur não me viu. O homem ainda
estava jogado ao chão, tamanho o seu estado de embriaguez. Arthur chegou perto
do bêbado e se agachou, ficando bem junto ao homem com o corpo sobre o dele.
Arthur segurou bem firme os dois braços do bêbado com mãos e em seguida
posicionou sua boca encostando na dele. Consegui ver que ele apertava os braços
do homem, que não se movia. A cena durou poucos minutos.
Arthur então se levantou. Arrumou-se e olhou para todos os
lados, e não me viu. Eu, quando ele se ergueu, me agachei e fiquei encolhido o
máximo que pude para que ele não me visse. Eu tremia dos pés a cabeça e estava
aterrorizado. Por sorte, Arthur foi na direção contrária e sumiu na noite.
Levantei-me trêmulo e com dores no corpo todo tamanha era a minha tensão. Sem
muita coragem, fui ver o que tinha acontecido ao bêbado.
Chegando perto, vi que o homem estava irreconhecível! Com
os cabelos completamente brancos, o homem estava velho, aparentando ter mais de
90 anos.
Não consegui ver mais nada, vomitei e com o resto de
forças sai correndo para minha casa. Entrei e me joguei no sofá.
Lembro-me que amanheci febril e fiquei de cama. Não tive
coragem de contar, disse para minha mãe que havia comido e bebido e que algo me
fizera mal.
Depois desse dia, o medo que senti de Arthur consumiu
minha alma.
Jamais tive coragem também de indagar algo do que
aconteceu. Depois de um tempo, aquela cena horrível foi lentamente deixando
minha mente e a imagem do pobre homem foi desaparecendo.
Discretamente eu evitava ficar sozinho com Arthur, sempre
dava uma desculpa qualquer bem condizente para ele não perceber. E assim passou
mais um ano.
Lembro-me que aconteceu outro incidente, agora na USP,
pois encontraram um estudante do mesmo modo que morrera o bêbado. Foi um
tumulto que deixou todos da universidade aterrorizados.
Ninguém soube o que aconteceu, repórteres tentaram de
tudo, assim como a polícia para descobrir, mas nada foi provado. Como não havia
câmeras, nunca se soube quem foi o autor do crime. Menos eu que fazia ideia de
quem era. Um jornal famoso daquela época, O Notícias Populares, publicou muita
matéria a respeito, mas nos textos, um monstro enorme era o autor e a história
prevaleceu por algum tempo, o que deixou ainda mais nervosos e amedrontados os
frequentadores da universidade.
Depois desse episódio, tudo voltou à normalidade e eu
desisti do curso. Tentei várias vezes falar com alguém a respeito, mas não tive
coragem, por medo de Arthur e de me acharem um louco.
Fui anos mais tarde fazer outro curso em outro lugar.
Depois do incidente da USP, acompanhava o jornal
diariamente, mas não li nada mais a respeito. E isso sossegou meus pensamentos,
me senti aliviado e a pensar que Arthur não mais cometera outros crimes.
Laurence olhou novamente para a foto dele junto a
Arthur com copos na mão brindando, lembrando que fora feita na noite do
bailinho pelo pai de Renato que estava fotografando todos os amigos do filho,
entregando-as no início das aulas.
A foto, como ela veio parar comigo? Perguntou-se Laurence,
pois a fotografia ficara com Arthur. Não me lembro de ter pedido ou solicitado
o negativo ao pai de Renato para revelar. E Laurence ficou pensativo tentando
desvendar aquele mistério.
No dia seguinte, estava com a enfermeira Rosa em casa
quando a campainha toca.
Rosa atende e convida a visita a entrar.
— Senhor Laurence, um amigo veio visitá-lo, ele o está
aguardando no sofá, disse Rosa.
Laurence guardou o pente e foi caminhando devagar até a
sala. Ao chegar perto da pessoa, uma dor forte no peito e um tremor o fez
sentar-se.
— É você? Não pode ser! — Disse Laurence completamente
desfigurado de pavor.
— Como pode, você continua jovem, assim como o conheci!
Exclamou Laurence, esfregando os olhos para ver se a imagem era real.
Laurence então despachou a enfermeira, dizendo que estava
bem e que o amigo lhe faria companhia.
— Como você descobriu o meu endereço depois de tantos
anos? E como pode você estar do mesmo jeito, com a mesma idade? — Questionou
Laurence.
Arthur riu e coçou a cabeça.
— Me diga o que fez desde o dia em que matou aquele
estudante, quantos mais? — Indagava Laurence furioso. — Eu sei que foi você, só
não tinha como provar, foi por isso que nunca o delatei e também porque fiquei
com medo de você. — Acrescentou Laurence.
— O que é você? Diga-me, que tipo de monstro? — Arrematou
Laurence.
— Olha, eu não vim aqui para isso, Laurence. Vim porque
sei que você está doente e que não tem muito tempo de vida, então estou aqui
para me despedir de você. — Disse Arthur.
— E tem outra coisa, disse Laurence, como a foto de nós
dois veio parar aqui? Tenho certeza de que foi você quem ficou com ela. Disse
Laurence.
— Quando você disse a outro colega de classe que iria
desistir do curso, num certo dia eu a levei até sua casa, disse a sua mãe que
era uma surpresa e para que ela a guardasse em seu álbum, pois você iria ficar
feliz quando a visse, já que iria sair da USP, e sua mãe ficou feliz com a
recordação e aceitou a foto, esclareceu Arthur.
— Pelo jeito você demorou muitos anos para abrir seu álbum
de fotos. Acrescentou Arthur. — Eu não sou um monstro Laurence, não gosto que
me chamem assim, disse Arthur.
— Mas não tem outra explicação para defini-lo, disse
Laurence. Você chegou a matar novamente? Não li mais nada nos jornais,
perguntou Laurence.
Arthur então deu uma gargalhada e voltou-se a Laurence com
uma voz diferente.
— É claro, como você acha que estou com essa aparência
jovem até hoje? — Disse ele. — Depois daquele incidente na USP, comecei a tomar
mais cuidado e não deixar os corpos aparecerem, disse Arthur.
— Oh, meu Deus! — Quantos mais, Arthur?
— Já chega disso, de querer saber mais sobre a minha vida,
falou raivosamente Arthur, deixando-se avermelhar os olhos.
Laurence lembrou-se daquela aparência e ficou em silêncio,
pois sabia o que viria depois.
Arthur foi se acalmando e se recompondo. — Laurence, meu
amigo, depois de todos esses anos estou feliz em vê-lo, porque eu sempre te
considerei. Eu sempre desconfiei que você sabia dos incidentes, mas como não
contou a ninguém, fiquei agradecido. — Disse Arthur. — Naquela noite do bêbado,
ao levantar-me, senti o seu cheiro e sabia que você estava por perto e que
acompanhara tudo. Deixei para lá. — Completou Arthur.
— Digo que as mortes foram necessárias, e nada mais. —
Esclareceu Arthur.
E Laurence estava boquiaberto e sem saber o que dizer.
— Então, porque me poupou? — Questionou Laurence.
— Laurence, tenho esse afeto por você porque eu me lembro
de uma pessoa muito especial que apareceu em minha vida, há muitos anos atrás,
ele foi um amigo leal e dedicado e por você ser parecido com ele, sempre o
considerei, acrescentou Arthur.
— Nada mais posso contar-lhe, pois vim até aqui somente
para me despedir e não para me redimir ou falar sobre o que aconteceu,
finalizou Arthur.
— Adeus amigo. Arthur levantou-se foi até Laurence o
abraçou e foi embora.
Laurence continuou sentado sem forças. Naquele resto de
tarde ele pensou em tanta coisa, tentou entender o que Arthur havia contado-lhe,
mas nada fazia sentido. À noite chegou e Laurence permanecia imóvel no sofá da
sala e sua cabeça ainda se remoia.
Naquela noite Laurence não se sentiu bem, mas não chamou a
enfermeira, sabia que sua hora chegara e aguardou.
Antes de partir para o outro mundo, a imagem de Arthur
veio pela última vez em sua mente, mas desta vez Laurence ficou aliviado, pois
sabia que Arthur, mesmo sem saber o que era, fora o único amigo em toda a sua
vida, pois todos desistiram dele ao decorrer dos anos.
E assim, Laurence fechou seus olhos para sempre.



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