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Muito bom dia a todos e que a segunda seja excelente.

Semana conturbada que não consegui terminar o conto Senhor Ignácio para o dia 13 de agosto.

Disponibilizo e espero que gostem.

Abraços, Miriam.

 

Conto 
Senhor Ignácio

Era manhã de segunda-feira, do ano de 1960, mais uma semana se iniciava para completar mais um mês na vida do senhor Ignácio, um lavrador de 65 anos de idade, conhecedor da terra, do ar e do ser humano.
Senhor Ignácio, como era denominado pelos habitantes de uma pequena cidade do interior de São Paulo, vivera toda a sua vida no mesmo local, sem interesse em conhecer, pelo menos, a Capital Paulista. O homem residia tranquilamente em sua terra, arada e cultivada com suas próprias mãos e também de sua saudosa esposa, que morrera há quase cinco anos. A esposa era bem mais velha que ele.
Acostumado ao sol forte e à chuva, o homem não temia nada e nunca fez corpo mole para o trabalho, começando cedo no campo. Vivia em uma simples chácara, mas rica em solo, pois tudo o que ele plantava, mesmo não sendo da região, era cultivado em abundância. Por isso, os moradores diziam que o senhor Ignácio tinha “mãos abençoadas”.
Aos domingos, a rotina de Ignácio era a mesma. Acordava cedo, tomava café, e partia para a missa das sete; depois para a cidade vizinha, para levar frutas e verduras frescas a um velho amigo, que tinha um pequeno café na estrada.
E assim prosseguia a vida do senhor Ignácio, cheia de rotinas e afazeres.
Era um domingo ensolarado de abril e Ignácio prosseguia na estrada até o café de seu amigo Hugo, que tinha a mesma idade e também viúvo.
Conduzia lentamente a sua charrete - sim, esse era o único dia em que ele gostava de passear com ela, pois durante a semana dirigia o pequeno caminhão - e de repente, o tempo foi se modificando e o céu ficou acinzentado. Ignácio sentiu uma dor forte na garganta, e começou a sufocar. Encostou a charrete na estrada e começou a massagear o peito até que o ar novamente tomasse conta de seus pulmões. Respirou fundo e esperou até que seus sentidos recobrassem novamente.
O que é isso? Pensou Ignácio olhando para o céu e vendo que o sol brilhava novamente. Algo de ruim aconteceu. Indagou o velho, que tomou as rédeas e partiu para a estrada.
Chegou à cafeteria. Parou a charrete na lateral do café, como de costume, na sombra, para que seu animal ficasse a vontade, mas o cavalo não parecia bem, agitado e com um semblante estranho.  Ignácio acariciou e acalmou o pobre bicho e caminhou lentamente até a porta do estabelecimento, que se encontrava fechada.
Estranho Hugo ainda não ter aberto o comércio. Pensativo estava Ignácio, antes de tentar entrar.
Ao tocar a maçaneta da porta, tomou um choque e sentiu uma leve tontura, mesmo assim, abriu-a deixando escancarada, como deveria estar.
Ao entrar, olhou ao redor e todas as janelas também estavam fechadas. Ele teve certeza de que algo acontecera. Estranho, será que Hugo ficou doente? Pensava o pobre amigo.
Caminhou poucos metros e a porta da rua se fechou, sozinha.
Ignácio não olhou para trás, apenas continuou caminhando lentamente.
O local estava na penumbra.
A cada passo lento, Ignácio lembrava-se do amigo Hugo, do sorriso feliz todos os domingos ao vê-lo e do abraço saudoso ao reencontrá-lo. Em sua mente, os bons momentos e as melhores lembranças da vida em que passara com Hugo. Amigos da juventude faziam quase tudo juntos. Desde a viuvez de ambos, Ignácio passava os domingos no café do amigo, e juntos, superavam a falta das esposas.
Ao caminhar as recordações voltaram e também a mocidade de outrora e isso deu forças a Ignácio.
        O ar do ambiente estava com um cheiro diferente. Não era dos produtos que Hugo limpava o chão, e sim um odor adocicado, como um perfume de mulher. Era algo que o deixava um pouco atordoado e a cada respiração, o perfume parecia querer dominá-lo!
Nisso, Ignácio começou a escutar vozes que vinham de algum lugar, estavam distantes, do alto, mas docemente as vozes femininas falavam com ele. — Mais um para a ceia! — Sussurrava alguém.
— Ele entrou de livre e espontânea vontade. Nem precisou de convite. — Falava bem baixinho outra voz de mulher.
Ignácio sente seu coração bater mais forte, o sangue a alvoroçar-lhe as veias, o corpo quente, e a cabeça a latejar  sensações de prazer. Sentimento que há muito tempo não tinha.
Ignácio para de caminhar por uns instantes e se recompõe, enrijece o corpo e limpa a mente.
Continua a caminhada lentamente até o balcão. Chegando, chama por Hugo.
Ao invés de se aproximar o amigo, vem em sua direção um homem alto, jovem, bem vestido, cabelos aos ombros, de uma beleza nunca vista por aquelas terras, parecia um lorde, um estrangeiro.
O homem para em frente a senhor Ignácio e fita-lhe nos olhos.
— Onde está o meu amigo Hugo? — Pergunta Ignácio ao jovem.
— Ele não estava se sentindo bem e foi embora. — Disse-lhe o estranho.    
— Quem é você que Hugo nunca mencionou? De onde veio? Qual o intuito de sua vinda aqui?
— Quantas perguntas, nossa! Indagou o homem, com um olhar sarcástico. — Noto que sua aparência ficou mais jovem do que quando entrou, disse o estrangeiro a Ignácio. Quem é você? — Perguntou o jovem estranho fitando ainda mais o rosto do velho.
— Eu sou o Ignácio, o melhor amigo de Hugo, aliás, nos consideramos irmãos! — Respondeu o pobre senhor.
E as vozes não paravam de sussurrar e de gemer, aos ouvidos de Ignácio, mas agora ele não dava mais importância.
— Quem mais está com você? — Perguntou o velhote ao belo jovem.
— Meu grupo de amigos. — Respondeu o rapaz. — Nós também somos irmãos... de sangue. — Disse-lhe o estranho.
Pelo olhar e falar do homem, Ignácio percebeu que não era boa coisa, e onde estariam os outros? Pensava o velho.
Nisso, um a um o grupo foi se chegando e de repente, estavam todos atrás do balcão. Olhavam para Ignácio.
Fitando-os, o velho entendeu que aquelas pessoas, que não se sabia de onde vieram e nem para quê, deram fim à vida do querido amigo Hugo.
Ignácio sabia que aquela gente faria com ele o mesmo, ele só não sabia o que havia acontecido.
— Então esses são os seus amigos? — Perguntou o velho ao rapaz.
— Sim, são eles. — Respondeu o homem, que não permitiu que ninguém falasse com Ignácio.
Mesmo sem ver os rostos nitidamente por causa da pouca luminosidade do local, Ignácio pode senti-los verdadeiramente.
De formas arrepiantes, tinham caninos enormes e pontiagudos, sobressalentes em bocas entre abertas.
— Há, agora compreendi o que vocês fizeram com Hugo. — Disse-lhes o velhote, encarando aqueles seres inumanos.
Ignácio, sob o olhar do grupo, sentia pulsar sua jugular e sabia que não tinha muito tempo.
Ignácio então fechou os olhos e deu alguns passos para trás.
O grupo o observava, aguardando ordens do chefe.
Nisso, lentamente Ignácio elevou suas mãos ao céu e um clarão, como um raio de sol, iluminou o ambiente sob o seu comando.
Ignácio virou-se e lentamente foi se desvencilhando do balcão, calmamente caminhando até a porta de entrada do café.
Chegando, abriu a porta e a fechou, sem olhar para trás. Ignácio foi até a sua charrete, passou a mão na cabeça do seu cavalo, subiu e sempre calmo, tomou o rumo da estrada, de volta para casa.
Sem olhar, Ignácio pode sentir e ouvir os terríveis gritos vindos do café, o grupo inteiro suplicava, enquanto o fogo tomava conta do lugar. Trancados na casa, o bando nada pode fazer e o fogo queimou até o local ficar completamente destruído.
         No caminho, Ignácio não pensava em nada. Suspirou e agradeceu a Deus por mais um dia de vida.  

Comentários

Maria Bernadete disse…
História fantástica com muitos desdobramentos, a autora tem muita criatividade, parabéns!

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