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Poe forever

 

Olá, bom dia e excelente quinta-feira a nós todos.
Dias difíceis com muitas matérias na assessoria, atividades cotidianas maravilhosas, mas nestes tempos de novas gestões estão cansativas demais o que me deixa sem condições de postagens.
Aos leitores que seguem a página e as dicas da Língua Portuguesa, coluna do dia, deixarei para a próxima semana o curso normal da atividade, por conta de comemoração ao autor Edgar Allan Poe, um dos melhores de todos os tempos, em homenagem ao dia de seu falecimento a 7 de outubro de 1849.
A história foi veiculada na Revista Conexão Literatura de outubro.

Abraços.

 

Conto: Poe forever  

Nós amamos com um amor que era mais do que amor.
(Edgar Allan Poe)

O calendário sinalizava dia 03 de outubro de 1849.
Depois de eu procurá-lo em sua residência, percorri por várias ruas de Baltimore até encontrá-lo na mais profunda solidão em uma pracinha, sem uma viva alma, a poucos minutos das seis da manhã de outono. Poe trajava roupas que não pareciam suas, pois eu conhecia as poucas vestes de meu mestre, e posso afirmar que a calça e camisa eram de outra pessoa.
Aproximei-me dele e vi que falava e gesticulava, não notando minha presença. Fiquei ali em pé e toda sua face se contorcia num olhar vazio e triste.
Seus lábios trêmulos, assim como o resto de seu corpo repetiam uma palavra o tempo todo. Pelo estado em que se encontrava não poderia deixá-lo ali, como um “Zé ninguém”. Com sacrifício o levei para casa.
Consegui fazer o mestre deitar-se, ele pegou no sono em poucos segundos, precisava descansar. Dormiu por 24 horas ininterruptas.
Ao acordar eu estava sentado ao lado da cama e ele muito fragilizado disse que não tinha fome, mas mesmo assim, fiz com que tomasse um pouco de sopa.
- Não sei onde estou e não me lembro de você, mas vagamente sua imagem me ajudando a levantar do banco e me conduzir até esta confortável cama me recordo e sou grato.
- Ora, é o mínimo que posso fazer pelo senhor, respondi-lhe.
- Qual seu nome? Desculpe, mas minha memória está me deixando!
- Não tem problema, o senhor está doente. Eu sou o Antony, trabalhava também na Burton’s Gentleman’s Magazine, ajudava o senhor, já que era o editor assistente.
- Sim, consigo me lembrar, mas não de você.
- Virginia, Virginia, onde está?...
E a cada vez que pronunciava o nome da falecida mulher amada, o grande amor de sua vida, os delírios voltavam e a mente do grande escritor, poeta, editor e crítico literário, autor de tantas histórias de mistério e terror, encontrava-se refém do sombrio estado de espírito, da mente perdida após a morte da esposa.
E eu que sempre o admirei e compulsivamente lia e relia suas histórias passei a amá-lo assim mesmo com temperamento difícil e perdido em seu triste passado nas lembranças de quando a mãe faleceu após dar a luz sua irmã e o pai que os abandonou antes até do nascimento do bebê. Separado dos irmãos foi adotado por uma família cujo pai adotivo nunca o amou, mesmo dando seu sobrenome, contando apenas com o carinho da mãe adotiva. Se contarmos quantas pessoas têm vida parecida ou até pior, a conta perde-se de vista!
- Antony, gostaria de sentir um pouco o calor dos raios solares pela última vez, pois sei que não tenho muito tempo.
- Não diga isso senhor Poe, eu o admiro demais, farei tudo o que puder por sua melhora de saúde.
- Agradeço por sua gentileza, mas sinto não poder corresponder mais ao que esperam de mim, meu coração está despedaçado após a morte de Virginia e não tenho mais ímpeto em viver.
- Uma pessoa assim como o senhor, uma mente e intelecto de nível altíssimo, não se entregue, precisamos de seus escritos!
- Precisamos? Quem precisa meu caro, sou um fracasso e mal consigo viver de minhas publicações, Histórias Extraordinárias foi um insucesso financeiro.
- Mas tenho certeza de que no futuro será um marco da literatura norte-americana, o senhor será reconhecido pelo mundo todo!
- O futuro só a Deus pertence, eu precisava do sucesso agora, já e não consegui!
- Não diga isso, o senhor sempre será referência na literatura! Os Assassinatos na Rua Morgue, por exemplo, que foi publicado pela primeira vez em abril de 1841 na Graham’s Magazine, pode-se dizer que é precursora em histórias de investigação, pois é um marco, o senhor é um gênio mister Poe!
- Mas nada disso adiantou e aqui estou sem sucesso e reconhecimento.
- Vamos, levante-se, ânimo! Quero que se cure e siga sua vida em frente.
- Virginia, Virginia! Venha meu amor, sinto a sua falta!...
E os delírios voltavam assim como a fraqueza espiritual abalando a saúde do grande autor.
Vi que realmente ele se entregara, que não haveria solução para alguém que deixou de querer viver. Um grande luto para a Humanidade, pois sei que ele há de ser um dos melhores escritores já lido!
E a doença se agravou de vez. Percebi que minha vontade não era soberana na saúde alheia e Edgar precisava de ajuda médica. Fui pedir socorro no Washington College Hospital, local onde ele faleceu, no dia 7 de outubro.
Mesmo assim tão fraco Allan Poe era um homem fantástico e sua brilhante mente literária me fascinava a cada vez que ele em momentos de lucidez ditava-me ideias de histórias no intuito de que eu as escrevesse, que continuasse seu legado, mas eu não tinha o seu talento e a sua perspicácia no sabor do mundo, no sentimento do bem e do mal, do estado da mente doentia e perversa. Eu era um iniciante na literatura, sabia que tinha muito a aprender.
Suas últimas palavras foram dedicadas à Virginia, um poema em que ele eternizou a amada ao doce sabor da beleza eterna, sentimentos tão apurados em seu leito de morte. E ditando cada sílaba da poesia sua voz foi ficando baixa e fraca, mas ele continuou até o último ponto final. Consegui levar os versos à publicação em um jornal. Fiz uma cópia colocando no terno em que Poe foi sepultado, assim como a única foto de Virginia que ele carregava no bolso da calça, uma fotografia gasta, mas que ainda refletia a beleza do rosto angelical.
Ele não teve velório, mas consegui com que amigos e parentes fossem prestigiá-lo no enterro. Derrubei as últimas lágrimas ao ver o caixão ser coberto de terra. Minha mente divagava em não aceitar que se fora aos 40 anos de idade, com tanto ainda a escrever. A mente brilhante e invejável que conduziu milhares de seguidores a uma literatura rica e inovadora fechou os olhos para sempre, abaixando no palco da vida a cortina de sua trajetória na terra.
E cuidei para que sua memória e obra fossem levadas aos quatro cantos do mundo!

A história é uma singela homenagem ao grande e espetacular escritor Edgar Allan Poe. Berenice, O Retrato Oval, A Máscara da Morte Rubra e O Mistério de Marie Rogét são alguns de seus contos. Já dentre as poesias, destacam-se Silence, Alone,
O Corvo e Eldorado, entre outras. 

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