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Olá, bom dia e excelente quinta-feira a todos nós.
Consegui terminar e enviar meu conto para a edição de agosto da Revista Conexão Literatura, e para quem ainda não leu, disponibilizo Costanza, que faz parte da edição deste mês. Espero que gostem, abraços, Míriam.


Conto: Costanza 

Costanza se deixava encantar. Dela não se esperava muito além do que as crianças de sua idade normalmente estão acostumadas a fazer em seu pouco tempo na terra, e aprendem desde cedo que nada é mar de rosas, pois o cotidiano está presente na vida de todos os seres humanos e nos amimais de estimação, que são doutrinados a cumprirem regras de convivência.
Conheci Costanza num shopping em São Paulo, Iguatemi, quando passeava e vi Gladys minha amiga de faculdade passar com uma linda criança. O que me chamou a atenção é que Gladys estava casada há muitos anos e nunca desejou a maternidade.
Ao me aproximar ela logo me reconheceu, passamos uma tarde relembrando o tempo de faculdade, os planos para o futuro de nossas profissões quando todos da turma fizemos votos de sempre nos encontrarmos, mas com a vida agitada só nos vimos duas vezes e depois cada colega seguiu seu caminho, eu consegui estágio e depois me classificar em concurso logo após a prova da OAB, assim como Gladys, mas alguns amigos não tiveram a mesma sorte e não conseguiram atuar na área.
Ao decorrer da conversa, a surpresa seria a filha de Gladys, pois minha amiga já estava com idade avançada para gestação, já que na época da graduação ela tinha dez anos ou mais de minha idade.
- Você deve estar se perguntando sobre a Costanza, não?
- Sim Gladys, respondi.
- É uma longa história, já que sempre fui contra o desperdício de tempo com crianças e até parece que roguei uma praga a mim mesma, disse sorrindo.
- Ela tem o que, cinco, seis anos?
- Isso mesmo, seis anos.
Olhei para ela e nem parecia e mesma pessoa de outrora. Completamente moldada pelo tempo, a vida lhe ensinou outro olhar para o mundo, para os sentimentos sinceros e para a felicidade.
Fiquei feliz que ela estava tão diferente. Radical e impulsiva, muitas vezes agressiva em todas as questões, o temperamento impossível a excluía de todos os trabalhos em grupo e sempre eu lhe estendia as mãos para que ela participasse conosco, por isso, Gladys era uma pessoa de poucos amigos.
E o que vejo bem a minha frente é uma Gladys totalmente passiva, meiga, mãe exemplar!
- Você me olha deste jeito, disse ela, porque está me avaliando desde os tempos da faculdade, não é isso Júlia?


E rimos, nem precisei falar nada.
A menina era tranquila e estava se divertindo na piscina de bolinhas e nós duas tomando um delicioso café e “jogando conversa fora”.
- Você deve estar curiosa sobre ela, né? – Pergunta Gladys.
Sim. Ela pelo jeito modificou totalmente o seu ser e para melhor, acho.
- É verdade, a Costanza desde que a conheci foi amor à primeira vista!
- Fiquei em dúvida se era sua ou não, mas com os tempos modernos...
- Não tão moderno assim com a minha idade. Bem, depois de adotá-la resolvemos lhe dar outro nome para uma vida nova, porque era ainda um bebê de pouco mais de um ano de idade e sua adaptação ao novo nome seria fácil, e ela gostou. Quem na verdade encontrou esse anjo foi o Antônio...
...
- Era quase final de tarde quando o meu marido foi até a padaria comprar pães e um bolo para café. Antes de entrar no estabelecimento uma senhora se aproximou com bebê ao colo e lhe pediu alguns trocados. Ele se virou e viu a mulher com semblante sofrido com a criança também com aparência fragilizada, roupas sujas e rotas.
- Ao sair ele lhe entregou um saco de broinhas e outros pães doces para a mulher, que deixou a padaria e foi caminhando lentamente, deveria estar com a criança não muito longe dali, já que era moradora de rua e essa população triplicou em Santos de 2017 a 2019. E pelo que observamos, a cada dia mais pessoas e famílias têm ocupado marquises de estabelecimentos comerciais depois de fechados, se alojando da melhor maneira possível, sob o abrigo de sereno, chuva e vento. É uma legião de miseráveis que cresce a cada dia, sem lar, sem emprego, sem futuro algum. E Costanza estava entre eles, padecendo de todo tipo de necessidade juntamente com a mãe.
- O Antônio, meu esposo chegou arrasado, senti a tristeza em seus olhos ao relatar o acontecido, dizendo-me que sentiu-se inútil em não poder fazer mais nada para elas.
- Nossa, que história triste mesmo, disse eu. Mas como é que vocês...
- Sim, me desculpe interrompê-la, mas a menina e sua mãe, a imagem delas ficou martelando os pensamentos de Antônio, que as procurou pela redondeza sem encontrá-las.  Acontece que a mãe virou moradora de rua depois que ficou doente, ela fazia programa e com a doença não conseguiu mais clientes e acabou nas ruas com a criança.
- Estou chocada, que história, heim? – Mas como vocês conseguiram adotá-la? A mãe simplesmente entregou a menina? Perguntei-lhe impaciente.
- Não. Estávamos já em casa quando vimos uma reportagem muito dolorosa na TV Tribuna, emissora televisiva de maior audiência da região. A matéria era sobre uma pequena criança que ficara órfã após o falecimento da mãe. E como ninguém se manifestou enquanto a menina estava no abrigo foi para o Lar de Assistência ao Menor em São Vicente.
- Antônio ficou arrasado, pois reconheceu a “menina dos pães” de imediato. Depois de muita conversa, chegamos a um acordo. Na instituição, a menina ao ver o Antônio, foi logo estendendo os bracinhos, parece que ela já o aguardava, foi um momento mágico!
- A menina chamava-se Fernanda, mas Antônio preferiu dar-lhe o nome de sua avó paterna Costanza, italiana de Roma e desde então essa criança só tem nos dado alegrias.
Júlia residia desde formada em São Paulo, e Gladys passara a tarde na capital paulistana, as amigas prometeram novo encontro e se despediram.
Em seu apartamento na Vila Mariana Júlia não parava de pensar na incrível história de adoção de sua amiga, uma tragédia que teve um final feliz de verdade porque histórias miseráveis nos são apresentadas diariamente em muitos canais de televisão, em jornais impressos e digitais, e o que mais a surpreendeu foi o acaso!
Em seu apartamento na Ponta da Praia de Santos, Gladys e o marido preparavam-se para descansar. Ao terminar de ler para Costanza, Antônio beija a menina, que já pegara no sono.
- Durma bem minha filha, diz ele beijando a cabeça da criança, conseguir encontrá-la foi o meu maior trunfo. Este será sempre o nosso segredo; que pensem no acaso, para mim isso não existe!  

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