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segunda-feira, 8 de julho de 2019


Cantinho da Poesia traz o poeta Raul Duarte

Olá, bom dia ensolarado e não tão frio aqui na Baixada Santista.
Hoje é dia da coluna Cantinho da Poesia e para marcar o  feriado de Nove de Julho amanhã, destaco o poeta (não conhecia, confesso) Raul Gama Duarte, autor da poesia Em surdina.

Em surdina

Paulista, meu conterrâneo
Contemplo um teu instantâneo
Já treze anos depois…
Comparo, com muito afinco
Teu voto em quarenta e cinco
Teu porte de trinta e dois!
Qual foi a data do engano?!
Quando acusaste o tirano
Com a boca de teu fuzil?
… ou quando lhe deste o voto
De um fervoroso devoto
Ao ditador do Brasil?
Pois bem. Mudaste? É um direito.
Corrige, então, teu conceito:
Poupa-te as horas amargas.
Vai a teu quarto. Há um lembrete;
Escreve em teu capacete:
– Votei no Getúlio Vargas
Festeja, meu voluntário!
Pega o fuzil lá no armário,
Dispara todas as cargas,
Grita com espalhafato:
– Triunfou meu candidato!
Votei no Getúlio Vargas!
Olha teu dedo, paulista,
Vês? Há um anel passadista,
Uma aliança maldita
Que te atrapalha e confunde,
Pega esse ferro. Refunde
Faze do anel a “marmita”
Abre uma outra gaveta!
Transforma tua baioneta
Em ferramenta “civil”;
Pega a arma, sai pra rua;
Faze do sabre a gazua
E abre o Banco do Brasil!
Evoca as marchas guerreiras
Que ardiam pelas trincheiras
Na boca da soldadesca!
A letra mais nada encerra
Entoa os hinos de guerra
Com letra carnavalesca…
O pavilhão dos paulistas,
“Bandeira das treze listas”,
É hoje um mau estribilho.
Rasga esse trapo e o poema,
Cobre a legenda e o emblema
Com o busto do teu caudilho!
Fecha no tapa e no peito
A academia de Direito
(taxaste-a de arruaceira)
Põe tudo na tua bitola;
Tira teu filho da escola!
Ensina a passar rasteira.
Vai à rua onde há uma placa;
Perfura o nome, esburaça,
Apaga o “Nove de Julho”.
Deixa a história definida,
Muda o nome da Avenida
Para:- “Avenida Getúlio”
Depois convoca os pracinhas,
Distribui as bandeirinhas,
Requisita o trem blindado!
Faze o serviço perfeito,
Levanta o braço direito
Dá um “Viva” ao Plínio Salgado!
Vai a um terreno baldio
Cheio de cruzes, sombrio,
De covas fundas e largas.
E fala, lembrando o vulto
De teu irmão foi sepulto!
– “Votei no Getúlio Vargas!”
Enfim… meu paulista estulto
Se achares que assim te insulto.
Com tanta verdade clara
Conto contigo, meu bravo,
Porque te tornas escravo
De quem de cospe na cara!!!
Poesia Revolucionária de Raul Gama Duarte
Raul Gama Duarte nasceu em 1912, tinha 20 anos quando eclodiu a Revolução Constitucionalista de São Paulo. Os paulistas perderam a Revolução, mas Getúlio nunca foi efusivamente homenageado em São Paulo. 
Em sinal de protesto, Raul fez um poema e espalhou por avião os folhetos por toda cidade. Raul Duarte faleceu em 2002, aos 90 anos e nos deixou este fabuloso poema.

Abraços e até amanhã.

Fonte: site de Maurício Garcia

Um comentário:

Ricarte disse...

Muito boa essa postagem. Miriam, te mandei um e-mail; dá uma olhadinha lá. Abraço.