Primavera, poesia e pólen
Poema
de Tânia Fusco
Bom dia, um pouco da poesia de Tânia Fusco, jornalista
que reflete o momento do país em meio à beleza da estação do ano mais florida.
Espero que possam apreciar, abraços,
Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.
Deveria ser obrigatório ler poesia. Ainda que
fosse uma por dia. E nesse menu não poderia faltar Fernando Pessoa – ele
próprio e todos os seus heterônimos, em prosa, inclusive.
Deveria ser obrigatório ler poesia na
primavera, no verão, no inverno, no outono. Qualquer que fosse a estação. De
esperança ou pânico. Ou medo.
Deveria ser obrigatório começar o dia lendo
poesia, antes das notícias, antes de responder o primeiro zap do dia, de abrir
o face, de esbarrar com a primeira maldade dita e assinada por um desses que,
numa penada, podem mudar coisas na vida de todos - dos tolos e dos nem
tanto.
Fosse a poesia obrigatória, quem sabe, teríamos
menos tolos a aprovar maldades, desgraceiras e descasos como se só bobagens ou
tolices fossem. Não são. Nem bobagens, nem tolices. São direções e
caminhos que a próxima primavera, talvez – e tomara! – faça entender.
Pelo andar da carruagem – que ganha mais
cavalos e perde eixos e rodas -, na próxima primavera pode faltar espaço para a
poesia.
Diz-se que nem vamos mais lamentar a não
obrigatoriedade da poesia. Mas a falta dela.
Frotas pedem essas mudanças. Há a convicção que
não é preciso de provas. Notas, só as oficiais. Sem perguntas.
Aulas de inglês, matemática e português – sem
poesia - serão ministradas com gráficos em PowerPoint básico – bolinhas com
setas convergindo para uma bolona no centro das convicções.
Estima-se que, para evitar surpresas, o
ministro chefe, de véspera, avisará: podem ficar sossegados, amanhã tem mais...
convicções. Para bom entendedor, linha direta. Facilita. Simplifica.
Esqueça, então, a filosofia e as artes.
Exercícios só em corridas de fuga da polícia. Há estudos que, sem treinos
prévios, ficará mais fácil alcançar e prender rebeldes.
Diz-se também que, além da poesia e assemelhados, humor e humoristas serão banidos. Mas tudo isso pode ser revisto e desmentido, amanhã, em notas oficiais.
Diz-se também que, além da poesia e assemelhados, humor e humoristas serão banidos. Mas tudo isso pode ser revisto e desmentido, amanhã, em notas oficiais.
O pólen da primavera sempre mexe com a
imaginação. Também provoca espirros, coceiras, insônia. Costuma desencadear
alergias.
E, se até a belezura da floração tem efeitos
colaterais, imagine que desacertos podem causar os golpes de vento? Melhor
evitá-los.
Primaveras são sempre lindas. E o pólen não é
do mal. Faz a polinização, que é quando os mais variados animaizinhos
pousam nas flores e levam para outras os minúsculos grãos de pólen. Espalhado,
o pólen faz a germinação de novas vidas.
Simples. Eterno.
Deveria mesmo – e enquanto há tempo – ser
obrigatório ler poesia. São curativas. Aliviam dores, minimizam perplexidades –
essas que, se não houvesse Fernando Pessoa/Alberto Caeiro, invernizariam até
as primaveras.
Tânia Fusco é jornalista, mineira, observadora,
curiosa, risonha e palpiteira, mãe de três filhos, avó de dois netos. Vive em
Brasília. Às terças escreve sobre comportamentos e coisinhas do cotidiano –
relevantes ou nem tanto.


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