Tenham um bom dia, feriado aqui em Santos, Dia
da Consciência Negra e sexta-feira batente novamente.
Para relaxar um conto de Carlos Drummond de
Andrade.
Bem, por hoje é só.
Grande abraço,
Miriam
Conto Caso de chá
De Carlos Drummond de Andrade
A casa da velha senhora fica na encosta do morro, tão bem
situada que ali se aprecia o bairro inteiro, e o mar é uma de suas riquezas
visuais. Mas o terreno em volta da casa vive ao abandono. O jardineiro
despediu-se há tempos; hortelão, não se encontra nem por milagre. A velha
moradora resigna-se a ver crescer a tiririca na propriedade que antes era um
brinco. Até cobra começou a passear entre a folhagem, com indolência; é uma
cobrinha de nada, mas sempre assusta.
O verdureiro que faz ponto na rua lá embaixo ofereceu-se para matá-la. A boa senhora reluta, mas não pode viver com uma cobra tomando banho de sol junto ao portão, e a bicha é liquidada a pau. Bom rapaz, o verdureiro, cheio de atenções para com os fregueses. Na ocasião, um problema o preocupa: não tem onde guardar à noite a carrocinha de verduras.
O verdureiro que faz ponto na rua lá embaixo ofereceu-se para matá-la. A boa senhora reluta, mas não pode viver com uma cobra tomando banho de sol junto ao portão, e a bicha é liquidada a pau. Bom rapaz, o verdureiro, cheio de atenções para com os fregueses. Na ocasião, um problema o preocupa: não tem onde guardar à noite a carrocinha de verduras.
– Ora, o senhor pode guardar aqui em casa. Lugar não falta.
– Muito agradecido, mas vai incomodar a madame.
– Incomoda não, meu filho.
A carrocinha passa a ser recolhida nos fundos do terreno.
Todas as manhãs o dono vem retirá-la, trazendo legumes frescos para a gentil
senhora. Cobra-lhe menos e até não cobra nada. Bons amigos.
- Madame gosta de
chá?
– Não posso tomar, me dá dispepsia, me põe nervosa.
– Pois eu sou doido por chá. Mas está tão caro que nem tenho coragem de comprar. Posso fazer um pedido?
– Pois eu sou doido por chá. Mas está tão caro que nem tenho coragem de comprar. Posso fazer um pedido?
Quem sabe se a madame, com esse terreno todo sem
aproveitar, não me deixa plantar uns pés, pouquinha coisa, só para o meu
consumo?
Claro que deixa. Em poucas horas o quintal é capinado, tudo
ganha outro aspecto. Mão boa é a desse moço: o que ele planta é viço imediato.
A pequenina cultura de chá torna alegre outra vez a terra abandonada. Não faz
mal que a plantação se vá estendendo por toda a área. A velha senhora sente
prazer em ajudar o bom lavrador. Alegando que precisa fazer exercício,
caminhando com cautela pois enxerga mal, ela rega as plantinhas, que lhe
agradecem a atenção prosperando rapidamente.
– Madame sabe: minha intenção era colher só uma pequena quantidade. Mas o chá saiu tão bom que os parentes vivem me pedindo um pouco e eu não vou negar a eles. É pena madame não experimentar. Mas não aconselho: se faz mal, não deve mesmo tocar neste chá. O filho da velha senhora chegou da Europa esta noite. Lá ficou anos estudando. Achou a mãe lépida, bem disposta.
– Madame sabe: minha intenção era colher só uma pequena quantidade. Mas o chá saiu tão bom que os parentes vivem me pedindo um pouco e eu não vou negar a eles. É pena madame não experimentar. Mas não aconselho: se faz mal, não deve mesmo tocar neste chá. O filho da velha senhora chegou da Europa esta noite. Lá ficou anos estudando. Achou a mãe lépida, bem disposta.
– E eu trabalho, sabe, meu querido? Todos os dias rego a
plantação de chá que um moço me pediu licença para fazer no quintal. Amanhã de
manhã você vai ver a beleza que está.
O verdureiro já havia saído com a carrocinha. A senhora estende o braço, mostra com orgulho a lavoura que, pelo esforço em comum, é também um pouco sua. O filho quase caiu duro:
– A senhora está
maluca? Isso nunca foi chá, nem aqui nem na Índia. Isso é maconha, mamãe!O verdureiro já havia saído com a carrocinha. A senhora estende o braço, mostra com orgulho a lavoura que, pelo esforço em comum, é também um pouco sua. O filho quase caiu duro:


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