terça-feira, 13 de novembro de 2018

Conto: O hospital

Olá, bom dia e excelente terça-feira.
O conto O hospital de minha autoria faz parte da edição de novembro da Revista Conexão Literatura, disponível para baixar gratuitamente.
Espero que gostem, abraços.


Depois de dias frequentando quase diariamente o primeiro hospital do Brasil, a Irmandade Santa Casa de Misericórdia de Santos - que inclusive no dia 1º de novembro completou 475 anos de fundação por Brás Cubas, em 1543 - a vi pela primeira vez.
Tudo começou quando fiquei extremamente doente com sintomas de gripe forte, depois suspeita de dengue, catapora e até febre Chikungunya, mas descartando tudo isso sem diagnóstico definido porque alguns vírus são difíceis de identificação, recebi alta depois de dias de internação. Tantos anos de tecnologia e em pleno século XXI ainda não se consegue saber tipos de doenças, transmitidas em transportes coletivos, em filas de banco ou almoço por quilo são tantas possibilidades de contágio que nem vale a pena ficar matutando onde peguei a bendita doença, que me deixou prostrado e convalescido na cama. O pior foram dores pelo corpo todo, febre e erupções avermelhadas.
E foi numa das vindas ao pronto socorro antes da internação quando aguardava fazer exames que a vi passar no final do corredor. Juntamente com vários pacientes que assistiam “Segundo Sol”, novela das nove da noite da TV Globo, pois aguardavam para consultas ou exames naquele corredor largo, com pé direito alto, bem ventilado e piso quadriculado marrom da década de 40 (quando o novo edifício da Santa Casa foi inaugurado no bairro Jabaquara, em 1945) eu vi a menina parada ao final desse corredor.
Perguntei à minha esposa se tinha visto, mas ela não.
Depois de procedimentos fui liberado.
Retornei ao pronto atendimento e na espera do mesmo procedimento, avistei novamente a menina. Desta vez, quando ela percebeu que estava sob meu olhar, correu. Aquilo me intrigou profundamente, ainda mais porque eu não estava em condições de fazer nada, como por exemplo, tentar correr atrás dela.
Eu e outro homem com problema semelhante ao meu acabamos internados no mesmo dia, aliás, ficamos no mesmo quarto. Aparentemente bem mais novo Gustavo estava com muito medo por não sabermos o que tínhamos.
Quando se está hospitalizado os dias são intermináveis, você fica vulnerável a doenças e tudo.
E o querido leitor deve estar se perguntando, o que a menina do corredor tem a ver com isso? Sim, muita coisa, pois bem...
- Ei senhor Luiz, me chamava de uma em uma hora o companheiro de quarto Gustavo. – Eu já falei pro senhor que fiquei doente porque minha mulher me deixou?
- Sim, meu caro, já me contou, no mínimo, umas vinte vezes em tão pouco tempo que estamos aqui. Se acalme para melhorar, não vê que sua inquietação só está piorando seu estado de saúde? - Dizia eu, com a maior paciência, mesmo sentindo uma imensidão de dor pelo corpo todo.
- Estou aqui e ninguém vem me visitar. Começava ele em menos de cinco minutos, e a ladainha era arrebatadora! E só parava depois de muito chorar. Um ser humano totalmente perdido em sua fraqueza de espírito, em seus conflitos internos.
Já estávamos internados há dois dias. Chovia muito naquela noite, o que deixou Gustavo ainda mais depressivo. E com tanta agitação recebeu prescrição de remédio para dormir. E o bendito fez efeito e ele nem se deu conta de mais nada. Eu na cama ao lado com o quarto levemente iluminado porque Gustavo tinha medo de escuro, estava quase tentando dormir quando vi um vulto se aproximando. Fiquei quieto como se estivesse dormindo. O vulto vinha devagar. Já tinha parado de chover. Era a menina. E no raio de luz consegui ver detalhes que de relance não notara: vestia-se com blusa de renda branca, saia xadrez comprida, mas não até o chão, pois vi que calçava botas e cabelo estilo “Maria Chiquinha”. Vendo-a de costas, pela altura, deveria ter uns 10 anos de idade. Se aproximou de Gustavo e levemente tocou-lhe a face.
Ela se virou para mim e quando vinha em minha direção, ao ouvir o barulho da maçaneta, a menina correu novamente.
- Moça, disse à técnica em enfermagem, para onde foi a menina?
- Menina? Acho que o senhor estava sonhando quando cheguei, era um sonho com a sua filha? – Pergunta-me ela já acendendo a luz para medicar-me.
- É verdade, era com minha filha sim, disse-lhe sem detalhes, já que ela não iria acreditar mesmo. E também não comentei com Gustavo para não deixá-lo ainda mais nervoso e ansioso. Mas aquela “visita” me deixou intrigado e confesso, com certo temor!
Na noite seguinte, era eu quem estava agitado pensando na menina.
Gustavo já dormia e eu estava na fase de transição do estado desperto para o sono quando vi o vulto se aproximar novamente. Era a menina vestida do mesmo jeito. Ela caminhou bem devagar e parou ao lado da cama de Gustavo tocando-lhe levemente a mão e mesmo dormindo ele apertou a mão dela soltando aos poucos até a mão cair na cama. A menina então se aproximou do rosto dele acariciando-lhe a face. De repente, ela ergueu as mãos para o céu e as posicionou sobre o corpo dele. Em seguida, se aproximou da face dele novamente, mas desta vez, ao tocar-lhe a testa, a menina começou a crescer até a altura de um adulto. Com o coração acelerado apertei forte com as duas mãos a boca para não gritar e ela de costas não viu. A menina, ou melhor, aquele ser, depois de tocar a fronte de Gustavo abaixou-se até o ouvido e falou-lhe algo que não consegui escutar.
Eu suava tanto que a camiseta já estava toda encharcada. Foi quando ela deixou Gustavo e se virou para mim. Daí eu não aguentei e comecei a gritar e gritar conseguindo apertar o botão e chamar a atendente.
Não consegui ver direito o rosto da menina, se com aquela altura ela ainda permanecia com o rosto infantil ou não. O medo me cegou por uns segundos e na gritaria o ser desapareceu.
Mesmo com todo o reboliço Gustavo não acordou.
Eu gritava e chorava dizendo que alguém entrara no quarto e havia feito alguma coisa para o Gustavo, dizia que ele deveria estar morto, entre outras tantas bobagens. Sedaram-me as três atendentes que vieram correndo e não vi mais nada.
Já passava das dez da manhã quando acordei com o sol em meu rosto. Olhei e Gustavo não estava na cama. Gritei por seu nome e ele não estava no banheiro também, pois não respondeu.
Pronto, morreu meu Deus! Comecei a chorar e amaldiçoar aquela coisa infernal que viera sorrateiramente durante a noite e tirara a vida do rapaz.
Gritava em ataque de fúria e choro quando Gustavo entra no quarto.
- Senhor Luiz, fiquei preocupado as moças disseram que o senhor teve um ataque no meio da noite, como está passando? – Disse o rapaz, que estava barbeado e todo arrumado. Seu semblante transmitia paz e serenidade.
Por um momento não soube o que falar, mas ele não deixou no silêncio e disse que já havia recebido alta médica.
- Mas como? Disse eu, sem entender nada. – Você estava com os mesmos sintomas, e as manchas nos braços?
- Olhe, ele arregaçou as mangas da camisa e pude ver que pouco restava do estágio semelhante ao meu, que permanecia do mesmo jeito.
- Não sei dizer, mas estão sumindo! Também não tenho mais dor no corpo, nem febre. Estou me sentindo bem. E também não pensei mais naquelas bobagens, o senhor sabe.
- Bobagens, quais bobagens que você não me falou?
- Bem, fiquei muito deprimido porque minha mulher me largou, ela foi embora para o Rio Grande do Sul, disse que estava apaixonada por outro homem. Isso me deixou doente demais, só pensava em morrer, que minha vida não tinha mais sentido... Acho que cheguei a comentar alguma coisa. Na noite passada sonhei que um anjo havia entrado no quarto e tocado em mim. E esse anjo me disse para ter fé em Deus e me agarrar no bem mais precioso do mundo que eu seria curado. Como pode ver, entendi que minha vida é esse bem.
Ele se despediu e partiu.
Nos dias seguintes em que fiquei sozinho no quarto a menina não mais retornou. Pensei muito sobre isso, questionei as enfermeiras se haviam casos paranormais no hospital, mas ninguém soube informar.
        
Esta é uma história de ficção com lampejos de verdade dos personagens fictícios e com o lado histórico do hospital, que completou 475 anos no dia 1º de novembro. E sobre a fé, que seja eterna para aqueles que creem em Deus, em anjos ou em toda força que traz harmonia e amor à Humanidade! 

Um comentário:

Ricarte disse...

muito bom como sempre!