terça-feira, 20 de novembro de 2018


Exposição “Isso é coisa de preto: 130 anos da abolição da escravidão”

A mostra pode ser conferida até dia 31 de dezembro, no Museu Afro Brasil.

 Jargão racista e ainda muito comum no Brasil, "isso é coisa de preto" ganha novo significado nessa exposição. Sob curadoria de Emanoel Carneiro, destaca a excelência e resistência negra nas mais diversas áreas do conhecimento durante os últimos 130 anos após a abolição da escravidão no Brasil, da arquitetura ao idioma, passando pela literatura, costumes, artes plásticas e dança.


E nem mesmo o esporte fica de fora. Homenageando o talento e a resistência negra também nos campos de futebol, integram o time dos jogadores retratados alguns dos principais responsáveis pelas três primeiras conquistas mundiais do Brasil, como os craques Pelé, Djalma Santos, Garrincha, Coutinho, Jairzinho, Barbosa, Zózimo e Fausto.
O público trava ainda contato com a produção artística de dois países de população predominantemente negra: Haiti e Cuba. Há, sobretudo, obras provenientes do sincretismo religioso nessas regiões, resultantes da união entre a prática de cultos do vodu e da religião católica.

Serviço
Exposição “Isso é coisa de preto: 130 anos da abolição da escravidão”
Quando: até 31 de dezembro – de terça a domingo, das 10h às 17h
Local: Museu Afro Brasil (Sul) - Avenida Pedro Álvares Cabral, s/nº - Portão 10, Ibirapuera, São Paulo
Ingresso: R$ 6
Mais informações: (11) 5579-0593  

segunda-feira, 19 de novembro de 2018


Cantinho da Poesia
Especial dedicado ao Dia da Consciência Negra

Olá, bom início de semana a todos nós.
A coluna Cantinho da Poesia é especial e dedicado ao Dia da Consciência Negra nesta terça-feira, dia 20 de novembro.
Pesquisei alguns sites para trazer uma poesia à data e gostei muito do Demonstre – Atividades para Professores (link ao término da postagem).

Me gritaram negra
Victoria Santa Cruz

Tinha sete anos apenas,
apenas sete anos,
Que sete anos!
Não chegava nem a cinco!
De repente umas vozes na rua
me gritaram Negra!
Negra! Negra! Negra! Negra! Negra! Negra! Negra!
“Por acaso sou negra?” – me disse
SIM!
“Que coisa é ser negra?”
Negra!
E eu não sabia a triste verdade que aquilo escondia.
Negra!
E me senti negra,
Negra!
Como eles diziam
Negra!
E retrocedi
Negra!
Como eles queriam
Negra!
E odiei meus cabelos e meus lábios grossos
e mirei apenada minha carne tostada
E retrocedi
Negra!
E retrocedi…
Negra! Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Negra! Negra!
E passava o tempo,
e sempre amargurada
Continuava levando nas minhas costas
minha pesada carga
E como pesava!…
Alisei o cabelo,
Passei pó na cara,
e entre minhas entranhas sempre ressoava a mesma palavra

Negra! Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Negra!
Até que um dia que retrocedia, retrocedia e que ia cair
Negra! Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Negra! Negra!
Negra! Negra! Negra!
E daí? E daí?
Negra!
Sim
Negra!
Sou
Negra! Negra! Negra!
Negra sou
Negra!
Sim
Negra!
Sou
Negra! Negra! Negra!
Negra sou
De hoje em diante não quero alisar meu cabelo
Não quero
E vou rir daqueles, que por evitar – segundo eles –
que por evitar-nos algum dissabor
Chamam aos negros de gente de cor
E de que cor!
Negra!
E como soa lindo!
Negro!
E que ritmo tem!
Negro! Negro! Negro! Negro!
Negro! Negro! Negro! Negro!
Negro! Negro! Negro! Negro!
Negro! Negro! Negro!
Afinal
Afinal compreendi
Afinal
Já não retrocedo
Afinal
E avanço segura
Afinal
Avanço e espero
Afinal
E bendigo aos céus porque quis Deus
que negro azeviche fosse minha cor
E já compreendi
Afinal,
Já tenho a chave!
Negro! Negro! Negro! Negro!
Negro! Negro! Negro! Negro!
Negro! Negro! Negro! Negro!
Negro, Negro
Negra sou!


Acesse o site e conheça outros poemas:

Victoria Santa Cruz

A poeta Victoria Eugenia Santa Cruz Gamarra é uma expoente da arte peruana; compositora, coreógrafa e desenhista, com destaque na arte afro-peruano e no combate ao racismo nos anos 60 a 70. Ela participou, em 1958 (com seu irmão, o famoso poeta Nicomedes Santa Cruz), no grupo Cumanana.



Estudou em Paris, na Universidade do Teatro das Nações (1961) e na Escola Superior de Estudos Coreográficos. Ao voltar a Lima fundou a companhia Teatro e Danças Negras do Peru, que se apresentou em inúmeros teatros e na televisão. Este grupo representou o Peru nas comemorações dos Jogos Olímpicos do México (1968), sendo premiada por seu trabalho. Em 1969 realizou turnês pelos EUA; quando voltou a Lima foi nomeada diretora do Centro de Arte Folclórica, hoje Escola de Folclore. No primeiro Festival e Seminário Latino-americano de Televisão, organizado pela Universidade Católica do Chile em 1970, venceu como a melhor folclorista. Foi diretora do Instituto Nacional de Cultura (1973 a 1982). 
Seu poema Me Gritaron Negra é uma bandeira na luta contra o racismo. Ele relata aquilo que todo negro já viveu, e o faz interiorizar uma autoimagem que nega sua autoestima, mas, num crescente, a palavra “negra”, que começa como insulto, se transforma em afirmação valorosa da identidade e da humanidade negra.  

domingo, 18 de novembro de 2018


42ª Mostra Internacional de Cinema

Como parte da programação da 42ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, o CineSesc inaugurou seu mais novo anexo com a instalação Chalkroom, criada por Laurie Anderson (EUA, 1947). A artista experimental multimídia colaborou nessa obra com o artista taiwanês Hsin-Chien Huang (Taiwan, 1966), um dos nomes mais proeminentes da vanguarda tecnológica nas artes visuais e no cinema. Após o trabalho ganhar o prêmio de melhor experiência em realidade virtual, no 74º Festival de Cinema de Veneza, em 2017, o público agora tem a chance de vê-lo em São Paulo.



Chalkroom é uma obra interdisciplinar em realidade virtual, na qual é possível vagar através de enormes estruturas feitas de palavras, desenhos, histórias, poeira e sombras, em uma galeria composta por vários corredores, rampas e edificações escuras cujas paredes pretas estão cobertas por inscrições em giz branco. Uma vez imerso, o espectador está livre para perambular pelos ambientes.
Nessa jornada onírica e solitária por histórias e fragmentos de linguagens, a voz ecoante da também cantora, letrista e compositora Laurie Anderson traz questionamentos e provocações. Junto ao desenho sonoro, sua fala acolhe o espectador, sem pautar a experiência ou induzir qualquer tipo de ação. A proposta é deslumbrar-se visualmente e cognitivamente, sem necessariamente ter de fazer algo determinado lá dentro.
Há, portanto, um sentido permanente de liberdade permeando o trabalho da artista. Os espaços do novo anexo do CineSesc — unidade da rede Sesc São Paulo desde 1979, localizada na famosa Rua Augusta, a duas quadras da Avenida Paulista — foram envelopados com a arte da instalação, e uma das paredes foi transformada em uma grande lousa para que os visitantes possam desenhar, no mundo físico, após experimentar a obra virtual. Portanto, durante três meses, o público local terá a possibilidade de conhecer o trabalho desenvolvido por Laurie Anderson e Hsin-Chien Huang.

Serviço
Chalkroom
Quando: até dia 16/12 – das 14h30 às 21h30
Local: Sesc CineSesc – Rua Augusta,2075, Cerqueira César, São Paulo
Mais informações: (11) 3087-500/3087-0501
Entrada gratuita



Confira a programação da 42ª Mostra Internacional de Cinema, acesse o site:

sábado, 17 de novembro de 2018

Pedido de Casamento no Sesc Santos

Olá, segue dica cultural que acontece no Sesc Santos, com ingressos entre R$6 a R$20.
Abraços.

Hoje e amanhã, sempre às 20 horas, tem apresentação da peça Pedido de Casamento, com a Cia. do Estômago, no Sesc Santos.
A peça (um ato) foi escrita por Anton Tchekov em 1889, uma farsa que satiriza o casamento das classes privilegiadas da sociedade do século XIX.
Conta a história de Ivan Vassílievitch, um hipocondríaco de 35 anos que decide pedir a mão de Natalia Stepanovna. A partir daí, surgem cenas hilariantes, retratando pequenas situações banais que esbarram na violência e chegando mesmo a se transformarem em tragédias individuais no microcosmo do autor. Tudo facilmente reconhecível e oportuno para os dias de hoje. Ou seja, através da farsa, é exposto o ridículo da violência e da intolerância.

Autor: Anton Tchekov - Direção: Neyde Veneziano
Elenco: André Mendes, Anne Pelucci, Giba Freitas e Lindsay Castro Lima
Músico: Denis Antunes
Figurinos: André Mendes
Iluminação: Giba Freitas
Produção: Mariana Mantovani


Serviço
Pedido de Casamento da Cia. do Estômago
Quando: dias 16 e 17/11 – às 20 horas
Local: Sesc Santos – Rua Conselheiro Ribas, 136, Aparecida
Ingressos: venda online no portal e nas bilheterias do Sesc
Valor: R$ 20 (inteira), R$ 10 (meia) e R$ 6 (credencial plena)
Não recomendado para menores de 12 anos
Mais informações: (13) 3278-9800

sexta-feira, 16 de novembro de 2018


Dica de leitura “1822”

Muito bom dia a todos nós. Calor e tempo nublado aqui na Baixada.
Sei que muitos de vocês já devem ter lido o livro “1822”, de Laurentino Gomes, mas eu ainda não e gostei da dica de minha mãe, que terminou de ler e indica a leitura.
Abraços.


Nesta nova aventura pela História, Laurentino Gomes, o autor do best-seller "1808", conduz o leitor por uma jornada pela Independência do Brasil. Resultado de três anos de pesquisas e composta por 22 capítulos intercalados por ilustrações de fatos e personagens da época, a obra cobre um período de quatorze anos, entre 1821, data do retorno da corte portuguesa de D. João VI a Lisboa, e 1834, ano da morte do imperador Pedro I. "Este livro procura explicar como o Brasil conseguiu manter a integridade do seu território e se firmar como nação independente em 1822", explica o autor. "A Independência resultou de uma notável combinação de sorte, acaso, improvisação, e também de sabedoria de algumas lideranças incumbidas de conduzir os destinos do país naquele momento de grandes sonhos e perigos", diz Gomes.
O livro  fala ainda do Grito do Ipiranga, das enormes dificuldades do Primeiro Reinado, da abdicação de D. Pedro, em 1831, sua volta a Portugal para enfrentar o irmão, D. Miguel, que havia usurpado o trono, e a morte em 1834. 
Um livro que desvenda os acontecimentos históricos com uma metodologia sem falhar e que se lê com um sorriso nos lábios. Foi como um simples tropeiro, às voltas com as dificuldades naturais do corpo e de seu tempo, que D. Pedro proclamou a Independência.
Editado pela Nova Fronteira no Brasil em 7 de setembro de 2010 (primeira publicação), também ganhou edição em Portugal, pela Porto Editora.

Laurentino Gomes
Nascido em Maringá, Paraná, a 17 de fevereiro de 1956, José Laurentino Gomes é escritor e jornalista, da Universidade Federal do Paraná.
Principais trabalhos: 1808, 1822 e 1889. 

quinta-feira, 15 de novembro de 2018


Dicas da Língua Portuguesa
Futuro do Subjuntivo

Olá, bom dia! Bom feriado, Dia da Proclamação da República a todos nós! E não estou de plantão!
Para a coluna desta quinta, sempre é bom relembrar alguns tempos verbais, nesta semana, o Futuro do Subjuntivo com simples exemplos.
Obrigada, abraços.



Fonte: Imagem pública  

quarta-feira, 14 de novembro de 2018

Dica cultural
Espetáculo de Dança e Música Flamenca 

Olá, bom dia! E hoje quarta-feira com cara de sexta!
Uma amiga participa do evento, repasso para quem tiver interesse.
Obrigada, abraços.

Neste sábado, dia 17/11, às 20h30, acontece apresentação de dança flamenca no Teatro Guarany, em Santos, no Centro, em frente à Praça dos Andradas e Rodoviária.
Interessados podem adquirir o ingresso no Shopping Praiamar - Quiosque OakBerry.



Dança e música Flamenca

Pessoal como muitos não conhecem ainda a dança e música flamenca, pesquisei e achei explicação bem interessante no portal São Francisco, que tem vasto material.

dança flamenca serviu como cartão postal da cultura espanhola durante muitos anos, apresentada como manifestação folclórica daquele país.
Porém a Arte Flamenca nunca conseguiu manter-se na categoria de dança folclórica, pois não é uma manifestação cultural de um povo específico. Devido a sua amplitude, aos poucos foi sendo rotulada como dança étnica e, até hoje, é vista dessa maneira nos países estrangeiros à Espanha.
Flamenco compreende muito mais que um estilo, ou uma simples modalidade de dança. Seu significado envolve toda uma forma de expressão artística que reflete a cultura da Andaluzia (região sul da Espanha).
Originada primeiramente nas ginaterias (bairros pobres ciganos), tornou-se uma arte popular tecnicamente elaborada e com grande expressão emocional, sendo passada de geração para geração pela família cigana, e que ao longo dos anos se difundiu a nível mundial transformando-se, provavelmente, na mais conhecida expressão da cultura espanhola. O Flamenco é uma forma de expressão artística que reflete a cultura da Andaluzia, região sul da Espanha, que ao longo dos anos se difundiu a nível mundial transformando-se, provavelmente, na mais conhecida expressão da cultura espanhola.
Podemos dizer que a Arte Flamenca é o resultado da mescla de elementos das muitas culturas que atravessaram a Andaluzia durante séculos, que juntando-se as formas expressivas elaboradas e difundidas pelos ciganos, originaram uma arte popular, tecnicamente elaborada e com grande expressão emocional.

Leia mais acesse:

terça-feira, 13 de novembro de 2018

Conto: O hospital

Olá, bom dia e excelente terça-feira.
O conto O hospital de minha autoria faz parte da edição de novembro da Revista Conexão Literatura, disponível para baixar gratuitamente.
Espero que gostem, abraços.


Depois de dias frequentando quase diariamente o primeiro hospital do Brasil, a Irmandade Santa Casa de Misericórdia de Santos - que inclusive no dia 1º de novembro completou 475 anos de fundação por Brás Cubas, em 1543 - a vi pela primeira vez.
Tudo começou quando fiquei extremamente doente com sintomas de gripe forte, depois suspeita de dengue, catapora e até febre Chikungunya, mas descartando tudo isso sem diagnóstico definido porque alguns vírus são difíceis de identificação, recebi alta depois de dias de internação. Tantos anos de tecnologia e em pleno século XXI ainda não se consegue saber tipos de doenças, transmitidas em transportes coletivos, em filas de banco ou almoço por quilo são tantas possibilidades de contágio que nem vale a pena ficar matutando onde peguei a bendita doença, que me deixou prostrado e convalescido na cama. O pior foram dores pelo corpo todo, febre e erupções avermelhadas.
E foi numa das vindas ao pronto socorro antes da internação quando aguardava fazer exames que a vi passar no final do corredor. Juntamente com vários pacientes que assistiam “Segundo Sol”, novela das nove da noite da TV Globo, pois aguardavam para consultas ou exames naquele corredor largo, com pé direito alto, bem ventilado e piso quadriculado marrom da década de 40 (quando o novo edifício da Santa Casa foi inaugurado no bairro Jabaquara, em 1945) eu vi a menina parada ao final desse corredor.
Perguntei à minha esposa se tinha visto, mas ela não.
Depois de procedimentos fui liberado.
Retornei ao pronto atendimento e na espera do mesmo procedimento, avistei novamente a menina. Desta vez, quando ela percebeu que estava sob meu olhar, correu. Aquilo me intrigou profundamente, ainda mais porque eu não estava em condições de fazer nada, como por exemplo, tentar correr atrás dela.
Eu e outro homem com problema semelhante ao meu acabamos internados no mesmo dia, aliás, ficamos no mesmo quarto. Aparentemente bem mais novo Gustavo estava com muito medo por não sabermos o que tínhamos.
Quando se está hospitalizado os dias são intermináveis, você fica vulnerável a doenças e tudo.
E o querido leitor deve estar se perguntando, o que a menina do corredor tem a ver com isso? Sim, muita coisa, pois bem...
- Ei senhor Luiz, me chamava de uma em uma hora o companheiro de quarto Gustavo. – Eu já falei pro senhor que fiquei doente porque minha mulher me deixou?
- Sim, meu caro, já me contou, no mínimo, umas vinte vezes em tão pouco tempo que estamos aqui. Se acalme para melhorar, não vê que sua inquietação só está piorando seu estado de saúde? - Dizia eu, com a maior paciência, mesmo sentindo uma imensidão de dor pelo corpo todo.
- Estou aqui e ninguém vem me visitar. Começava ele em menos de cinco minutos, e a ladainha era arrebatadora! E só parava depois de muito chorar. Um ser humano totalmente perdido em sua fraqueza de espírito, em seus conflitos internos.
Já estávamos internados há dois dias. Chovia muito naquela noite, o que deixou Gustavo ainda mais depressivo. E com tanta agitação recebeu prescrição de remédio para dormir. E o bendito fez efeito e ele nem se deu conta de mais nada. Eu na cama ao lado com o quarto levemente iluminado porque Gustavo tinha medo de escuro, estava quase tentando dormir quando vi um vulto se aproximando. Fiquei quieto como se estivesse dormindo. O vulto vinha devagar. Já tinha parado de chover. Era a menina. E no raio de luz consegui ver detalhes que de relance não notara: vestia-se com blusa de renda branca, saia xadrez comprida, mas não até o chão, pois vi que calçava botas e cabelo estilo “Maria Chiquinha”. Vendo-a de costas, pela altura, deveria ter uns 10 anos de idade. Se aproximou de Gustavo e levemente tocou-lhe a face.
Ela se virou para mim e quando vinha em minha direção, ao ouvir o barulho da maçaneta, a menina correu novamente.
- Moça, disse à técnica em enfermagem, para onde foi a menina?
- Menina? Acho que o senhor estava sonhando quando cheguei, era um sonho com a sua filha? – Pergunta-me ela já acendendo a luz para medicar-me.
- É verdade, era com minha filha sim, disse-lhe sem detalhes, já que ela não iria acreditar mesmo. E também não comentei com Gustavo para não deixá-lo ainda mais nervoso e ansioso. Mas aquela “visita” me deixou intrigado e confesso, com certo temor!
Na noite seguinte, era eu quem estava agitado pensando na menina.
Gustavo já dormia e eu estava na fase de transição do estado desperto para o sono quando vi o vulto se aproximar novamente. Era a menina vestida do mesmo jeito. Ela caminhou bem devagar e parou ao lado da cama de Gustavo tocando-lhe levemente a mão e mesmo dormindo ele apertou a mão dela soltando aos poucos até a mão cair na cama. A menina então se aproximou do rosto dele acariciando-lhe a face. De repente, ela ergueu as mãos para o céu e as posicionou sobre o corpo dele. Em seguida, se aproximou da face dele novamente, mas desta vez, ao tocar-lhe a testa, a menina começou a crescer até a altura de um adulto. Com o coração acelerado apertei forte com as duas mãos a boca para não gritar e ela de costas não viu. A menina, ou melhor, aquele ser, depois de tocar a fronte de Gustavo abaixou-se até o ouvido e falou-lhe algo que não consegui escutar.
Eu suava tanto que a camiseta já estava toda encharcada. Foi quando ela deixou Gustavo e se virou para mim. Daí eu não aguentei e comecei a gritar e gritar conseguindo apertar o botão e chamar a atendente.
Não consegui ver direito o rosto da menina, se com aquela altura ela ainda permanecia com o rosto infantil ou não. O medo me cegou por uns segundos e na gritaria o ser desapareceu.
Mesmo com todo o reboliço Gustavo não acordou.
Eu gritava e chorava dizendo que alguém entrara no quarto e havia feito alguma coisa para o Gustavo, dizia que ele deveria estar morto, entre outras tantas bobagens. Sedaram-me as três atendentes que vieram correndo e não vi mais nada.
Já passava das dez da manhã quando acordei com o sol em meu rosto. Olhei e Gustavo não estava na cama. Gritei por seu nome e ele não estava no banheiro também, pois não respondeu.
Pronto, morreu meu Deus! Comecei a chorar e amaldiçoar aquela coisa infernal que viera sorrateiramente durante a noite e tirara a vida do rapaz.
Gritava em ataque de fúria e choro quando Gustavo entra no quarto.
- Senhor Luiz, fiquei preocupado as moças disseram que o senhor teve um ataque no meio da noite, como está passando? – Disse o rapaz, que estava barbeado e todo arrumado. Seu semblante transmitia paz e serenidade.
Por um momento não soube o que falar, mas ele não deixou no silêncio e disse que já havia recebido alta médica.
- Mas como? Disse eu, sem entender nada. – Você estava com os mesmos sintomas, e as manchas nos braços?
- Olhe, ele arregaçou as mangas da camisa e pude ver que pouco restava do estágio semelhante ao meu, que permanecia do mesmo jeito.
- Não sei dizer, mas estão sumindo! Também não tenho mais dor no corpo, nem febre. Estou me sentindo bem. E também não pensei mais naquelas bobagens, o senhor sabe.
- Bobagens, quais bobagens que você não me falou?
- Bem, fiquei muito deprimido porque minha mulher me largou, ela foi embora para o Rio Grande do Sul, disse que estava apaixonada por outro homem. Isso me deixou doente demais, só pensava em morrer, que minha vida não tinha mais sentido... Acho que cheguei a comentar alguma coisa. Na noite passada sonhei que um anjo havia entrado no quarto e tocado em mim. E esse anjo me disse para ter fé em Deus e me agarrar no bem mais precioso do mundo que eu seria curado. Como pode ver, entendi que minha vida é esse bem.
Ele se despediu e partiu.
Nos dias seguintes em que fiquei sozinho no quarto a menina não mais retornou. Pensei muito sobre isso, questionei as enfermeiras se haviam casos paranormais no hospital, mas ninguém soube informar.
        
Esta é uma história de ficção com lampejos de verdade dos personagens fictícios e com o lado histórico do hospital, que completou 475 anos no dia 1º de novembro. E sobre a fé, que seja eterna para aqueles que creem em Deus, em anjos ou em toda força que traz harmonia e amor à Humanidade! 

segunda-feira, 12 de novembro de 2018

Cantinho da Poesia

Bom dia, iniciamos mais uma semana e graças a Deus, curta por conta do feriadão, ufa, amém!!!
Dias difíceis até no final de semana por conta de plantão imprensa, faz parte!
A coluna Cantinho da Poesia traz Al Berto, mais um famoso poeta português para quem não conhece.


Ofício de Amar
já não necessito de ti 
tenho a companhia nocturna dos animais e a peste 
tenho o grão doente das cidades erguidas no princípio doutras 
                                             [galáxias, e 
                                             [o remorso 

um dia pressenti a música estelar das pedras, abandonei-me ao silêncio
é lentíssimo este amor progredindo com o bater do coração 
não, não preciso mais de mim 
possuo a doença dos espaços incomensuráveis 
e os secretos poços dos nómadas 

ascendo ao conhecimento pleno do meu deserto 
deixei de estar disponível, perdoa-me 
se cultivo regularmente a saudade de meu próprio corpo 
  
Al Berto
Al Berto, pseudónimo de Alberto Raposo Pidwell Tavares, animador cultural, poeta, pintor e editor português de Coimbra, nascido a 11 de janeiro de 1948 e falecido em 13 de junho de 1997, em Lisboa.
Dentre seus livros, destacam-se O Anjo Mudo, O último coração do sonho, Vigílias, Lunário, Horto de Incêndio, A secreta vida das imagens, e O medo: trabalho poético: 1974-1997, entre outros.