domingo, 23 de setembro de 2018


Conto Nevoeiro

Olá, excelente domingo a todos nós.
O conto Nevoeiro foi o destinado ao mês de setembro para a Revista Conexão Literatura, espero que gostem. Abraços.

         Um barco à deriva, a costa encoberta e o nevoeiro. “Bip”, “bip” e “bip”. 
         Um grito ecoando no nada, um barco perdido no nevoeiro. “Bip”, “bip” e “bip”.
         Esse barulho infernal me acordou! Não consigo distinguir que som é esse, mas é alto e entrou direto em meus ouvidos!
         ...
         Tudo cessou. Nada de som nem de bip, nenhum ruído. Sinto calmaria e escuridão. É como se minhas forças estivessem terminando numa sensação de leveza do corpo e a cabeça também leve de culpas, pesadelos e pensamentos. Mas algo interrompeu este processo, é como se uma manivela girasse uma imensa roda, sons alternados, imagens em flashes desconexas aparecendo e desaparecendo e um imenso clarão! ...
         ...
         Pera aí! Como vim parar aqui? ...
         ...
Segunda-feira, 20 de agosto de 2018, e o denso nevoeiro deixa boa parte da costa litorânea da Baixada Santista encoberta. A solicitação é de que barcos, balsas e navios mantenham-se atracados enquanto a névoa estiver prejudicando a visibilidade. E assim permaneceu boa parte da manhã atrasando funcionários que dependem de barcas e balsas para atravessar o canal que liga Santos a Guarujá, municípios do litoral de São Paulo.
         E mesmo com toda essa precaução, o biólogo marinho Hermann Gerber, 27 anos, solteiro ignorou e resolveu colocar o pequeno barco n’água e partir para sua pesquisa na Laje de Santos. - Para situar o leitor, a Laje é uma ilha localizada em frente à cidade de Santos, fazendo parte do Parque Estadual Marinho da Laje de Santos (PEMLS), criado em 27/09/1993, através do Decreto Estadual nº 37.537. O PEMLS é o primeiro parque marinho dentre as Unidades de Conservação do Estado de São Paulo e tem como objetivo a proteção do ambiente marinho. – E Hermann, apaixonado pelo lugar, realiza constantes pesquisas para a Fundação Florestal, órgão da Secretaria do Meio Ambiente do Estado o qual é funcionário.
         Mas era um dia em que nada disso importava, pois a segurança ainda prevalece em qualquer área de atuação do ser humano.
         Ignorando a preservação de sua própria vida, o biólogo pegou seu pequeno barco a motor e partiu para a Laje.
         Quando caiu em si estava sozinho no meio do canal, era como se estivesse num vácuo onde nada se enxergava e quase nada se ouvia, nem gaivotas, apenas o barulho do motor “cortando” a água do mar. O frio do medo estalou desde a primeira vértebra até a última de sua coluna terminando num tremor que o chacoalhou por inteiro e quando se deu conta, não conseguia mais enxergar seu rumo.
Engolindo em seco Hermann tirou uma bússola dos pertences e o mar revolto sacudiu o barco e a fez cair de suas mãos. E essa situação ficou mais frequente fazendo a proa subir e bater com força no mar. Até Hermann ouvir um apito curto e depois prolongado que o fez entender um navio se aproximando, o que não deveria acontecer devido a pouca visibilidade, mas o navio, assim como ele, prudentemente, não poderia estar ali naquele momento.
Ao avistar o barco de Hermann o navio começou a apitar e a tocar o sino com frequência, pois em breve, o pequeno barco seria sugado colidindo com o navio.
Meu Deus me ajude! Gritou o jovem biólogo em desespero tentando tirar da reta seu barco. Sem enxergar a distância ele tentou desviar mesmo com probabilidade de bater num rochedo.
Pelejando contra a corrente em desespero o navio se aproximava de seu barco. E vinha rápido. Os apitos enlouqueciam a alma, torturando-a numa disputa de sobrevivência, numa luta em que o maior e mais forte sempre vence, ou quase sempre!
Suando, chorando e gritando ajuda ao Divino Hermann viu o navio chegar. Num piscar de olhos o barco foi sugado batendo lateralmente no navio. Destroçado ele sentiu sua cabeça bater forte no casco, que o fez desmaiar. A enorme onda ocasionada pela colisão, por sorte, o arremessou para longe, ficando Hermann preso entre dois rochedos. E o navio seguiu em frente. Os marinheiros e o capitão avisaram a polícia costeira pelo rádio.
Depois de algumas horas, quando a névoa já se dissipava a polícia conseguiu avistar Hermann e partiu para o resgate. O jovem estava muito machucado. Com a cabeça ensanguentada o biólogo desacordado encontrava-se com roupas rasgadas, uma das pernas com um corte de cima em baixo e os braços com várias escoriações. O grupo de resgate ficou boquiaberto como ele ainda poderia estar vivo depois do que aconteceu...
...
E, de repente, Gerber dá um suspiro e o corpo se ergue na cama. Com os olhos esbugalhados e a máquina apitando alto, o jovem consegue sair do coma.
Foram dez dias de sofrimento para a família que não aceitava aquele quadro gravíssimo em que se encontrava Hermann.
Aos poucos a memória foi voltando e a lembrança da vida no Rio Grande do Sul com a família descendente de alemães do contato com os primos e amigos e a vinda para São Paulo, da conquista da faculdade federal em Campinas e do emprego na secretaria que ele tanto lutou para conseguir foram aparecendo em sua mente.
Já com alta médica e restabelecido novamente Hermann foi aos poucos retornando à sua normalidade. Ele agradeceu a todos que estiveram com ele nos piores momentos de sua vida e especialmente pela segunda chance de vida, pois poucos conseguem retornar após brutal acidente em que a alma fica dividida entre o Céu e a Terra. 

Um comentário:

Ricarte disse...

bem legal