quarta-feira, 22 de agosto de 2018


Conto Corpo seco

Olá, bom dia, excelente quarta-feira a todos nós.
Hoje é Dia do Folclore e para comemorar a data destaco o conto de minha autoria “Corpo seco”, que faz parte da edição de agosto da Revista Conexão Literatura.
Espero que apreciem, abraços,
Míriam


Provavelmente, o personagem mais macabro de todos. O Corpo Seco é uma espécie de assombração. Em vida, era uma pessoa que só fazia maldades, maltratando até a própria mãe. Quando morreu, foi rejeitado tanto por Deus quanto pelo diabo, até a terra onde fora enterrado o rejeitou, assim seu destino foi viver, na medida do possível, como uma alma penada assustando os viajantes na estrada.
O Corpo Seco marca minha homenagem à nossa rica cultura, ao Folclore Brasileiro, comemorado no dia 22 de agosto!

         Um homem aparentando uns trinta e poucos anos vindo do nada entra no estabelecimento aos gritos e assustado, branco feito neve e trêmulo, berrando que vira uma assombração. E logo causa um reboliço no pacato restaurante do senhor Jonas, um homem de meia-idade de família portuguesa que se erradicou brasileira, após estar no Brasil há mais de 90 anos, idade do patriarcal da família, o avô Antônio Correia dos Santos.  
         - Meu rapaz, veio correndo com um avental cobrindo a calça tergal cinza escuro e camisa polo branca, marca registrada do senhor Jonas, para socorrer o pobre coitado.
         - Me chamo Afonso e estacionei meu caminhão logo ali – aponta o rapaz a um caminhão médio para transporte de cargas pequenas com placas de BH (Belo Horizonte), Minas Gerais.
         Jonas o fez sentar e trouxe água para acalmá-lo. O homem já não tremia mais e a cor de seu rosto foi voltando, mas a ânsia em contar o que lhe acontecera era tamanha, e o caminhoneiro fixou os olhos no nada e sua língua começou a desenrolar-se e a falar e falar...
         ...
         Com o caminhão carregado Afonso parte de Belo Horizonte rumo a São Paulo, ele pega a Rodovia Fernão Dias à noite, já acostumado com esta rotina, que para ele, era normal. Tudo estava a contento e dentro da normalidade, e o dia em breve amanheceria.
         Afonso vinha em velocidade baixa quando vê um corpo estirado no que poderíamos chamar de acostamento. O caminhoneiro pisa ríspido no freio entra no acostamento e estaciona o caminhão. Desce correndo da boleia e para sua surpresa, não vê corpo algum. Esfrega os olhos, mas ele não está com sono, pois dormira o dia inteiro para poder dirigir tranquilamente à noite. Anda de um lado a outro, passa por ele outro caminhão que buzina, Afonso acena que está tudo bem, o caminhão prossegue, e Afonso também se vira para prosseguir viagem.
         Roda mais alguns quilômetros, quando se assusta novamente ao ver um corpo estirado na estrada. Desta vez, o susto fez seu coração disparar.
         - Novamente não, pensa bravo o caminhoneiro, não vou parar, o que é isso? Mas quando ele vê no retrovisor o corpo se virar e o homem esticar o braço como se estivesse pedindo socorro, Afonso pisa ríspido novamente no freio e entra no acostamento e volta de ré chegando perto do homem. Estaciona e puxa o freio. Desce com pressa e cadê o corpo?


         O medo invadiu Afonso, que sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha de cima a baixo e sentindo algo passar por ele, um tremor o fez sacudir. Afonso fez o sinal da cruz e trêmulo voltou-se para o veículo. Caminhou forçadamente, pois parecia que algo segurava sua perna. Olhou ao redor e nada viu. Com sacrifício ele conseguiu subir os degraus, abrir a porta do veículo e sentar-se, estava cansado e largou o corpo pesadamente. Com o coração acelerado, bateu a porta e quando tentava colocar o cinto de segurança, olhou no retrovisor... e...  pra quê?  Viu o que não devia: o corpo novamente vinha se arrastando em direção ao caminhão, um braço levantava em sinal de socorro. O homem era um farrapo humano, agora conseguia ver nitidamente o que era aquilo. Muito magro, quase um esqueleto, vestia uma calça velha preta com rasgos e assim o era a camisa azul listrada, puída de velha. O cabelo empoeirado e desgrenhado e mesmo assim, aquele corpo conseguia arrastar-se e avançava mais e mais.
         Afonso tremia e suava a ponto de enfartar. Não conseguia prender o cinto de tanto tremer. Ligou o motor assim mesmo engatou a primeira e foi saindo do acostamento. Os olhos novamente de Afonso não se contiveram, e ao espiar no retrovisor, o corpo agora em pé, movia-se rapidamente, queria a todo custo alcançar o caminhão. Afonso acelerou e conseguiu ganhar vantagem...
         ...
- Foi quando vi este restaurante aqui e vim até vocês, explica Afonso.
O senhor Jonas estava boquiaberto quando ele terminou de falar e assim também estavam as outras poucas pessoas, que escutavam calados. Uns achavam que era efeito de algum remédio que ele supostamente estaria tomando para não dormir ao volante e aguardavam uma posição do senhor Jonas sobre o assunto.
- Olha moço que tenho este restaurante há tantos anos e não me lembro de uma história destas, e passam por aqui muitos caminhoneiros e viajantes.
- Não tomei nada, dormi o dia inteiro para poder pegar a estrada à noite. Não bebo e não fumo e tenho uma vida regrada, explicava Afonso, que ficou sem graça ao ver a reação e os olhares das pessoas que ouviram sua história.
- Digo para que você durma aqui esta noite, descanse e tenho até um relaxante se precisar, mas não volte à estrada, aconselha senhor Jonas.
Mas Afonso estava inquieto com o horripilante ser que atormentava sua mente, aquele homem macabro que não saia de seus pensamentos.  
Dando-lhe algo para dormir, Jonas o conduziu para um de seus quartos na espécie de pousada que ficava ao lado do restaurante.
No dia seguinte, Afonso parecia tranquilo ao tomar o café da manhã. Jonas ficou feliz em ver o rapaz bem melhor e descansado. Agradecendo por toda hospitalidade Afonso seguiu viagem.
Ao faltar duas horas de seu destino eis que Afonso avista um jovem pedindo carona. Ele diminui a velocidade do caminhão e vem se aproximando do homem bem devagar, pois queria ver o rosto da pessoa. O caminhão se emparelha com o rapaz que acena para Afonso pedindo para que ele parasse. Quando o caminhão já estava quase parando, um estalo da consciência o fez acelerar e continuar o caminho.
Ao olhar no retrovisor, o homem gesticulava sinais obscenos com os dedos e Afonso riu aliviado.  Sentimento que durou poucos segundos, pois ao olhar novamente no retrovisor, lá estava ele, o corpo estirado no acostamento!


Conversando com colegas da empresa onde fazia as entregas ele ficou sabendo mais sobre a história do terrível homem da estrada, que diz respeito ao Limbo, ou seja, no lugar onde estão os que nem foram salvos nem condenados, e assim se acham suspensos entre o Céu e o Inferno!
- E ainda tenho tantas viagens a fazer na vida, pensou Afonso!
E novamente a imagem horripilante do corpo na estrada foi ganhando vida nos pensamentos de Afonso, que via nitidamente o corpo estirado no acostamento pedindo ajuda! 

Um comentário:

Ricarte disse...

muito bom!!