quarta-feira, 20 de junho de 2018


Conto: Prometeu

Olá amigos, excelente quarta-feira a todos nós.
Quase me esqueço de disponibilizar aqui na página o conto Prometeu, que faz parte da Revista Conexão Literatura deste mês em homenagem ao aniversário de 200 anos de Frankenstein, rascunhado em junho de 1816.
Espero que gostem de minha humilde homenagem à obra sem igual de Mary Shelley.

Prometeu

Frankenstein comemora 200 anos! A obra, que mistura elementos de terror e ficção científica, foi criação de uma aposta na casa do poeta inglês Lord Byron, em junho de 1816, que lançou o desafio ao grupo de amigos: Mary Godwin (mais tarde Mary Shelley),
John Polidori, Percy Shelley e Claire Clermont.
           
Manhã de ventos fortes atrapalham o sábado na Baixada Santista, dia 19 de maio de 2018, véspera de um grande dia para os atletas que anualmente participam da competição “10 KM Tribuna FM”. Muitos corredores deixaram para treinar até o último momento e o sábado foi de fortes pancadas de chuva, ventos que derrubaram árvores e causaram alagamentos.
Para mim que não preciso treinar a intempérie do tempo não atrapalhou em nada, muito pelo contrário, pois a natureza clamava por água de chuva!
E essa reclusão temporária devido ao mal tempo me levou a arrumar o armário dos livros e logo que comecei a mexer nas prateleiras, caiu-me nas mãos “Frankenstein”, de Mary Shelley, que recentemente completou 200 anos. Dei uma folheada no livro e imaginei como seria o monstro se ela o tivesse escrito no futuro, e tudo aquilo ficou em minha mente, pois fui adormecendo com o clássico nas mãos...
...
De repente, me deparei com a folhinha pendurada na parede que apontava para maio de 2040.
Como? Indaguei surpresa com os olhos arregalados, não pode ser! Será um sonho? E ao mesmo tempo em que não sabia se sonhava ou vivenciava, me vi na rua, e era tanta gente andando que fiquei atordoada.
- Ei moça, onde estamos? Perguntei a uma jovem que passava com mochila nas costas, ela me olhou atravessada, mas respondeu.
- Bebeu? Estamos na Praça da Sé, não tá vendo a igreja? E continuou o seu caminho apressadamente. Mas parou e veio até mim. – Não sei de onde veio, você é estranha, mas digo que tome cuidado não fique dando mole por aqui a noite, ao cair à escuridão, muitas coisas acontecem nesta região, disse ela, que se virou rapidamente e seguiu seu rumo.
Olhei meu relógio e já eram cinco da tarde, o que ela falou me deixou intrigada, mas continuei caminhando por ali. A catedral continuava a mesma ainda naqueles tempos, com andaimes que indicavam reforma. As escadarias cheias de gente sentadas e outras em uma fila logo na entrada. Vi que alguém distribuía pão aos carentes e eram vários, sim, foi aí que me dei conta de quantas pessoas perambulavam sujos e rotos, aos montes pelo chão com olhos fixos no nada, sem lar, despidos de todas as necessidades que uma pessoa precisa, desnudos até a alma. São os esquecidos da sociedade, do mundo, são pessoas que nasceram nas ruas sem futuro, apenas com a luta diária da sobrevivência.
A igreja já começava a fechar as portas e quem não conseguiu o pão pegaria no dia seguinte. A fila de desesperados se dissipara. Achei estranho que as pessoas não pediam esmolas, se acostumaram com a pobreza.
E a escuridão chegou rápido, normal para outono. Comecei a andar pelo entorno da igreja foi quando me deparei com algumas pessoas mutiladas. Aquela cena me fez recordar minha estada, lá pelos anos de 1980, em Sinop, município do estado do Mato Grosso, no centro oeste do Brasil, conhecida também como a Capital do Nortão, mas naqueles tempos, por não ter um sistema de saúde e hospitais adequados para implantes de órgãos, os funcionários que perdiam os membros em acidente de trabalho em serrarias no meio da mata assim continuam. E essas pessoas, o que será que aconteceu com elas? Indaguei de pena e curiosidade.
Vi que andam com muletas, outros com mangas compridas tentando esconder “cotocos” do que sobrou de braços, já dá para imaginar que cena de horror! Eu os segui e essas pessoas se enfileiraram na porta de um lugar esquisito, era uma casa imensa, escura, sem jardim, com muros altos, janelas grandes com grades e fechadas e uma grande porta ao centro. Apenas o número do imóvel, 438, o identificava.
Cena típica de filmes de cinema: levantei o capuz da blusa e me encostei a lateral do muro da casa ficando de espreita observando. De repente a porta se abriu e alguém aos gritos empurra o pessoal da fila, ele queria passagem a todo custo, era mais um mutilado. Passou e saiu da casa, andava rápido com apenas uma perna e muletas. Novamente a fila foi interrompida por alguém que pedia passagem, só que desta vez, o pessoal saiu correndo e dispersou, e não foi por menos. O que vi sair de dentro da casa caminhando devagar e seguro de si é algo assim nunca visto antes! Fiquei rente ao muro o máximo que pude, bem, até poderia ter ido embora, pois em primeiro momento ele não me viu, mas a curiosidade...
Ele vinha devagar. De baixo para cima olhei os detalhes que pude: os pés deveriam ser enormes, pois as botas negras eram imensas. De calça sarja cinza escura as pernas longas se moldavam à troca de passo; o tórax grande coberto por camiseta negra deixava à mostra os braços musculosos e compridos. O cabelo negro ao ombro emoldurava o rosto perfeito com uma enorme cicatriz do lado esquerdo, que começava na boca e terminava no cabelo. Eu nunca havia vislumbrado um homem como ele em seus dois metros de altura. Dava medo só de olhar!
O homem que ele perseguia gritava e tentava correr o máximo que podia. Continuando a mesma passada, ele tirou de dentro do bolso da calça uma espécie de controle, que rapidamente voou atrás do pobre deficiente uma espécie de drone, porém, em determinado momento, soltou certeiramente uma rede, que o prendeu por inteiro, inclusive a perna e o fez cair ao chão. Tranquilamente o grandão foi até ele. Tirou a rede com uma mão e o pobre homem chorou e suplicou, mas de nada adiantou, pois o imenso o ergueu do chão e num piscar de olhos, pressionou nas mãos o crânio do homem, amassando a cabeça como se fosse uma folha de papel.
Aquilo foi demais para mim, e a Coisa percebeu minha presença por meu grito e vômitos. Sem me dar conta ele estava na minha frente...
...
Acordei dentro do lugar estranho, estava com as mãos amarradas e em pé presa por ganchos fincados em minha roupa. Era uma espécie de laboratório. Tudo organizado, claro, limpo e muita tecnologia. Vi o grandão sentado em uma poltrona. Na mesa o morto com a cabeça coberta, menos mal, mais adiante uma mulher mexia em um aparelho finalizando no computador. De costas pergunta:
- Você quem é? Estava nos espionando? – Questiona a mulher que veio até mim. E vi que o grandão não se mexeu e os olhos parados num vazio.
- Não sou ninguém, não estava espionando, nem sei onde estou, disse-lhe. O que é isto aqui? Pra que ele me trouxe? Perguntei.
- Aqui é meu laboratório e Prometeu é nossa obra-prima! Depois de anos de tentativas conseguimos esse sucesso.
- Há, então as tentativas foram com essa pobre gente mutilada? Vocês foram retirando os órgãos para experimentos? Indaguei.
- Não seja ridícula! Disse ela com sotaque germânico se apresentando como espécie de gerente da equipe, mas no local só estava ela e Prometeu.
- Com tanto avanço científico, para que precisaríamos desses corpos magros, doentes e sujos? Eles trabalham para nós e ficaram assim deformados porque no antigo laboratório aconteceu um grande acidente que atingiu essa gente. Prometeu foi concebido da mais alta tecnologia ele é perfeito, com tez humana, cabelos, dentes, orelhas, olhos e lábios humanos, de embriões congelados que passaram a nosso domínio, embriões escolhidos a dedo de pais inteligentes, belos e saudáveis. Esquecidos em clínicas de fertilização, ficamos com eles e foram desenvolvidos para que pudessem servir ao nosso experimento e ao futuro! Já os órgãos internos, cartilagem e ossos com técnicas das mais modernas.
- Por isso a força inumana, disse eu. E vomitei novamente ao pensar nos embriões. O que farão comigo? Fui logo ao assunto, pois palpitava que meu fim estaria próximo.
- Não sei, por sua boa aparência que me parece bem saudável, acho que deixaremos que Prometeu decida.
E num piscar de olhos vi que o grandão voltou os olhos pra mim. Levantou-se e veio em minha direção.
- Não, nãooo! ...
...
Acordei encharcada de suor. Não consegui me levantar, pois estava tonta. Sentei na beirada da cama até me sentir melhor e segura. Logo que melhorei, corri até a folhinha e o ano de 2018 me deu tremenda alegria e leveza de que tudo aquilo foi um sonho terrível, ou melhor, um pesadelo. Respirei aliviada e fui tomar banho para jantar.
Nem mal sai do banheiro e a mãe foi perguntando onde eu havia andado porque a roupa estava muito suja. A blusa com vômito e a calça inclusive com cheiro de urina...  

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