domingo, 15 de abril de 2018


Conto: O corpo do rio

Bom dia amigos, excelente domingo a todos nós.
O corpo dório é a história que faz parte este mês da Revista Conexão Literatura. Espero que gostem, abraços,
Míriam



             - Um corpo, vejo um corpo preso a um galho! É um corpo, um corpo! – Grita com toda força uma garganta qualquer em meio a tanta gente caminhando na manhã chuvosa de sexta-feira. E o homem aponta para dentro do rio.

            Consegui entender e ver o que acontecia porque me enfiei no meio da multidão que se formou na ponte, que não me recordo o nome, mas que fica bem próxima à Ponte Vecchio, em Firenze, na Itália.

            Olhei ao redor e tudo parou, até mesmo o trânsito para ver o corpo no rio - que depois de dois dias consecutivos de chuva no final de inverno em março - estava cheio, barrento e trazia consigo tudo o que conseguia arrastar: galhos, folhagens etc. E o tronco em questão que trazia um corpo acabou ficando preso em uma das pilastras da ponte.

            Em poucos minutos a polícia tomava conta da cena, isolando a área e com especialistas que entraram na água para retirar o corpo de uma jovem mulher. Vi que a pele era branca e cabelos escuros, mas como entrelaçara-se ao tronco, não se conseguia ver mais que isso, o que aguçou a curiosidade dos presentes e também a minha.



            Assim que cheguei ao hotel Palazzo Vecchio, perto da estação ferroviária liguei a televisão, que mostrou todo o minucioso trabalho da polícia, desde a evacuação das pessoas, o isolamento da área, os profissionais que atuavam na retirada do corpo até as poucas informações do paradeiro da moça, cuja nacionalidade ainda era uma incógnita, já que não era italiana e aparentava uns vinte e poucos anos.

            E o corpo do rio tornou-se o assunto do momento em Firenze, noticiado em todas as emissoras de televisão e jornais impressos. E aquilo me intrigou, já que fotos da moça começaram a aparecer bem nítidas na imprensa. Até que num estalo da mente, achei a jovem familiar.

            - Mas de onde eu a conheço? – Indagava incessantemente até ficar com dor de cabeça de tanto forçar a memória, e a resposta não vinha.

            Passaram-se quatro dias desde o ocorrido com a moça e eu não me importava mais com os noticiários, havia deixado prá lá. E as férias seguiam como a programei quando alguém bate na porta do quarto do hotel. Ao abrir, eram dois policiais e eu os deixei entrar. Me entregaram um mandato de busca e intimação para que eu comparecesse à delegacia, pois queriam o meu depoimento no caso da moça do rio.

            - Mas o que eu tenho a ver com isso, estou passando férias – Indaguei.

            - Você tem a ver mais do que pensa, respondeu-me um dos policiais. – Por favor, nos acompanhe.

            Peguei a mochila com os documentos e passaporte e fui com eles. Eu tremia por dentro e nessas alturas minha cabeça estava a mil por hora.

            Antes de qualquer coisa colheram minha saliva para testes de DNA. Depois fui para uma espécie de interrogatório. Nem sei o que respondi, pois o nervoso era tamanho.

            - Mas porque fui chamado a depor se eu nem conhecia a moça? – Perguntei.

            - Ela era estudante brasileira e tinha 25 anos, estudava arte em Firenzi e foi morta, estrangulada e também encontramos alta dosagem de droga em seu sangue. – respondeu um dos policiais.

            - Nossa que horror, respondi, mas o que eu tenho a ver com isso? – Perguntei-lhe novamente.

            - Colhemos sua saliva para o DNA, pois ela transou com alguém antes de morrer e acreditamos que este homem seja o assassino. Além do mais, após o rosto de Carolina aparecer nos noticiários, recebemos um telefonema anônimo de um homem dizendo que a viu sair da discoteca acompanhada dando alguns detalhes que nos levou até você, respondeu secamente o homem da lei.

            - Não pode ser, isso é uma piada, eu não fui a nenhum lugar esses dias, tudo o que fiz relatei a vocês, e logo o policial cortou minha fala e me dispensou até o resultado do DNA, eu não podia sair do país e nem da cidade. E para onde iria? Não sabia o que fazer e fui direto ao hotel.

Henrique Augusto estava desnorteado e muito contra a sua vontade acabou telefonando ao pai, um grande advogado, que providenciou um voo mais rápido que pode. De tão nervoso após todos os acontecimentos e suspeita de um crime, Henrique não conseguia dormir e tomou um desses comprimidos, aliás, ele tomava sempre essas drogas para dormir quando estava com algum problema.

Uma placa com três letras maiúsculas YAB invadiu o sonho de Henrique, fazendo-o recordar de momentos anteriores ao crime.

- Muitos jovens dançando, bebendo e fumando ao som de DJs renomados e muita curtição. Fui chegando ao balcão para pedir uma bebida e eis que se vira Carolina, a moça morta. Ela trabalhava como garçonete e estava aprontando bebidas a servir, ela sorriu para mim; eu era mais um cliente da noite. Quando voltava para observar a pista de dança, alguém me dá um esbarrão e perco metade do drink, que cai ao chão. O rosto dele, porém, se perde no meio de muitos...

Henrique Augusto é chamado novamente à delegacia, pois a investigação teve outro rumo.

- Senhor Henrique, a autópsia nos revelou detalhes surpreendentes deste caso, uma segunda pessoa está também envolvida e ao que parece deve ser o criminoso, - disse um dos investigadores. E logo que fui chamado meu pai chegara e já estava tomando as providências necessárias sobre o caso, que segundo novas provas, Henrique não era o culpado, e sim, um rapaz que foi noivo de Carolina.

- Agora tudo faz sentido, esse homem me usou para me incriminar, vi isso em meu sonho, ele esbarrou em mim de propósito, depois ficamos conversando e distraído ele colocou alguma droga em minha bebida que me fez esquecer de tudo, nem mesmo me lembro que dormi com a pobre moça, se é que dormi, disse eu ao meu pai.

- Sim dormiu, pois o exame atestou, respondeu o pai.





E logo a polícia conseguiu encontrar o criminoso, que se escondera para fugir no momento oportuno, mas se desesperou e acabou sendo morto pela polícia ao reagir à prisão. Luiz Gustavo, de fato, premeditou todo o crime tentando incriminar outra pessoa. Ele fora noivo de Carolina e nunca se conformou que ela trocou o noivado com casamento marcado para estudar na Itália, bolsista trabalhava na  YAB Disco Club Restaurant, famoso clube de Florença localizado bem no centro da cidade. Ele bolou o crime envolvendo um estranho, drogando-o e o conduzindo a um encontro com ela após o fechamento da boate. O Estranho, no caso Henrique Augusto, já estava no local arranjado, e Luiz Gustavo conseguiu convencer a moça a acompanha-lo ao final do expediente; não se sabe ao certo como ele conseguiu tal proeza, já que estavam separados há dois anos, mas, enfim, ele levou a ex-noiva ao quarto para transar com Henrique e depois a enforcou e a jogou ao rio. Henrique drogado nada sabia, nem mesmo que havia dormido com a moça, sendo ele a prova do crime com confirmação do ato sexual incriminador. Só que Luiz Gustavo não contava que Carolina na luta pela sobrevivência arrancara partículas de pele nas unhas, prova que o colocou como o principal suspeito. Como Luiz Gustavo reagiu à prisão e foi morto não poderemos esclarecer detalhes de como ele sozinho conseguiu fazer tudo aquilo.

... 

Depois de esclarecido o caso o famoso advogado pai de Henrique conseguiu trazê-lo de volta ao Brasil. Os amigos do jovem o receberam com grande festa para que ele se sentisse em casa depois de tremendo susto.

A vida de Henrique retornara quase à normalidade, se não fosse os sonhos!

...

As noites de Henrique tornaram-se terríveis, verdadeiros pesadelos! Ele sonhava com Firenze, a boate e Carolina! Há, Carolina, tão bela e com um final tão triste! E a lembrança da fatídica noite veio por completo e Henrique lembrou-se de quase todos os detalhes, até mesmo de como a jogou ao rio! O sonho meio acordado foi se desenrolando passo a passo e assim que o ex-noivo tentou enforca-la, mas não teve coragem, Henrique terminou o serviço e depois se livrou do corpo jogando-o ao rio.  Ele se viu transfigurado seu rosto e personalidade eram de um monstro!

Não bastasse essa moça Henrique Augusto também começou a lembrar-se de outras garotas, rostos apavorados apareciam e desapareciam de sua mente perturbada.

            Acordou assustado e rastejando ele amparou-se na parede do quarto para se levantar. Entrou no banheiro para lavar o rosto quando olhou-se no espelho. Por um momento, ele não reconheceu a imagem de si mesmo, de seu verdadeiro eu, de tantas lembranças malignas que vinham a tona perturbando-o e o deixando cada vez mais confuso de quem era ele realmente, o bem, ou o mal!


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