domingo, 11 de fevereiro de 2018

Carnaval na Jureia

Bom dia amigos e excelente domingão carnavalesco a todos nós.
Aproveitando o feriadão, quem tiver interesse em participar da edição de março da Revista Conexão Literatura com envio de conto, artigo ou crônica, entre outros trabalhos, as inscrições estão abertas, basta entrar em contato com o editor Ademir Pascale.
Também aproveito a oportunidade para disponibilizar o meu conto do mês de fevereiro: Carnaval na Jureia, espero que gostem.
Abraços,

Próxima edição
Para participar ou anunciar em nossa próxima edição de nº 33 (março, 2018), acesse o site: 


Conto Carnaval na Jureia

Mal começou 2018 e fevereiro chegou rápido. Despreocupada com as notícias da região, quando li no jornal A Tribuna nota de falecimento do físico Mauro de Oliveira. 
Olhei bem para a foto e minhas lembranças começaram a construir um pouco da vivência daquele homem na minha vida e minha memória começa a relembrar os detalhes...
...
Depois de trabalhar a semana toda com o pensamento na viagem, a sexta-feira, dia 15 de fevereiro de 1985 chegou e minha mochila já estava pronta desde o final de semana anterior. Para quatro dias que seriam de praia e curtição reservei  biquíni, shots, camisetas, vestidos e casaco, caso fosse necessário. Eu e os amigos que fiz durante o curso esotérico não conhecíamos a Juréia – que no ano seguinte, dia 20 de janeiro, foi oficialmente decretada como reserva estadual dos Itatins, conhecida atualmente como Estação Ecológica da Juréia-Itatins. - Com território distribuído pelos municípios de Iguape, Miracatu, Itariri, Pedro de Toledo e Peruíbe, este último seria o nosso destino durante os quatro dias de Carnaval.
E assim partimos em dois carros, estávamos em oito pessoas. O Mauro, nosso guia era o único que conhecia o lugar. Professor de Física, ele também tinha outros projetos em sua vida e um deles, o que o fez conhecer o lugar, foi pertencer a um grupo de ufologia.
Chegando a Peruíbe continuamos em direção ao Morro do Guaraú (que é limítrofe com a praia principal) e do Rio Verde, na Barra do Una-Juréia, onde ocorrem estranhas anomalias magnéticas.
- Como expliquei a vocês, dizia Mauro – não ficaremos em pousada ou nenhum outro lugar, pois é aqui, bem no “coração” da Juréia onde acontecem os fenômenos UFO, que vocês já devem ter escutado, e como faço parte do grupo de estudiosos sobre esse assunto tenho permissão de pernoitar no alojamento.
E então começamos a descarregar as coisas dos veículos, mochilas, garrafões de água e caixas com alimentos. Mauro na frente apenas com a sua mochila e nós atrás dele, em fila indiana depois de estacionarmos entramos na mata, e por uma trilha partimos em busca do “horizonte perdido” e tudo o mais o que cada um dos colegas imaginavam encontrar por lá.
- Caminharemos cerca de quarenta minutos, vamos rápido, pois é melhor agora que ainda está claro, pois se escurecer precisaremos das lanternas e demorará mais. Depois disso, todos nós andamos rápido, sem falar, para que pudéssemos aproveitar a luz do dia. Logo chegamos a uma espécie de portaria e Mauro se apresentou mostrando sua carteirinha de identificação do grupo UFO e nos deixaram entrar. Na área grande e disposta em círculos os alojamentos, que cabiam quatro pessoas com um banheiro e à frente ficava a enorme cozinha com mesas de refeitório, armários para guardar os mantimentos, uma pia grande e fogão de seis bocas. Tudo era simples, mas limpo e organizado.  
        À noite, na preparação do jantar nos encontramos com dois amigos de Mauro que também foram passar o Carnaval naquele local. E foi uma noite agradável junto ao grupo que formamos, os ufólogos Peter e Gabriel contaram alguns acontecimentos que nos deixou com mais vontade ainda de percorrer a região.
        E quando achávamos que iríamos fazer alguma coisa naquela primeira noite estrelada no “meio do nada”, eis que Mauro disse que precisaríamos descansar para o dia seguinte e assim como todos estavam cansados da viagem não discutimos, apenas obedecemos.
        - Pessoal, dizia Mauro ao grupo, hoje vamos conhecer uma praia paradisíaca, vocês vão adorar, e antes que perguntem, é à noite que os fenômenos acontecem, guardem a curiosidade para mais tarde, após jantarmos cedo, iremos até os portais onde tudo acontece.
      
  E a gritaria foi geral, animados partimos para a diversão que realmente foi especial. Às oito da noite o grupo de jovens aguardava por Mauro que nos levaria a ver os estranhos acontecimentos, mas nada do que falara aconteceu, pois ele saiu com os ufólogos e não retornou no horário marcado.
        - Chega de palhaçada! – grita Ricardo, que sem paciência entra em seu quarto e sai com uma lanterna nas mãos. E assim um a um fez o mesmo. Com casacos, cordas, bússolas e tudo o mais que tínhamos para qualquer eventual situação, partimos em busca do desconhecido, sem conhecermos onde ficavam os tais portais nos enfiamos no meio da mata. Sem saber qual caminho percorrer, Ricardo seguiu a sua intuição acertando em cheio.
        Caminhamos por uma trilha por cerca de trinta minutos até chegarmos a uma espécie de vale. Olhei ao redor e a grama estava toda baixa, amassada e não havia nenhuma plantação, era apenas grama rala e nada mais. Vimos de longe Mauro e os dois colegas agachados por trás de uma enorme pedra. E quando partimos naquela direção, começou a ventar e era tamanha, que mal conseguíamos andar. Nos seguramos com força uns aos outros na tentativa de um lugar para nos abrigar. Vimos Mauro vindo correndo em nossa direção acenando ele tentava dizer para desligarmos as lanternas, mas tarde demais, pois a imensa nave pousou rápido perto de nós, cessando a ventania.
        Alguns colegas trombaram Mauro no caminho e continuaram correndo fugindo dali. Mauro alcançou o resto de nós e juntos fizemos o mesmo, mas de repente, a nave começa a se abrir. Paralisamos de medo, e nada saiu lá de dentro. Otávio, colega de grupo não se conteve de curiosidade e investiu para a nave.
        - Nada me segura – diz Otávio, conhecerei o interior de uma nave espacial. E sai correndo para dentro dela de um jeito que parecia estar hipnotizado.
        - Mauro tenta segurar o braço dele, mas o jovem foi mais rápido. Gritamos para quem não fosse, mas ele nem nos ouviu.
        Otávio fica paralisado na porta da nave. Chacoalha a lanterna que não ilumina mais e a joga ao chão. Respira fundo e lentamente começa a se aproximar cada vez mais da porta de entrada da nave até que some de nossas vistas. A porta fica aberta e nada se escuta lá de dentro. A nave era toda platinada e de forma alongada. Eu nunca tinha visto nada igual!
        Ao longe bolas de fogo e fachos luminosos despontaram no céu distraindo a nossa atenção e quando caímos em si e gritamos o nome de Otávio, a porta da nave começou a se fechar e a ventania se iniciou novamente quando a nave levantou voo para partir e num piscar de olhos, sumiu na escuridão do céu.
        Todos gritaram ao mesmo tempo, desnorteados porque Otávio partiu na nave.
        - Alguém ajude, como pode ser isso, o que vamos fazer? – Se desesperou berrando e chorando Isis, a namorada de Otávio, que tremia sem parar e estava à beira de um colapso nervoso. Acalmamos a moça, eu a abracei e a enrolei num cobertor e a fizemos sentar na grama. Ela aos poucos foi voltando a si, mas as lágrimas escorriam sem trégua.
        Mauro, se sentindo responsável por todos não sabia o que fazer, Peter e Gabriel também não. Voltamos ao alojamento assim que o dia clareou, pois ficamos aguardando a nave retornar, numa grande expectativa, já que a esperança é a última que morre, mas nada aconteceu; absolutamente nada e o mais estranho é que nenhum outro fenômeno foi avistado após esse incidente. Abatidos voltamos e imediatamente os três pesquisadores entraram em contato com o grupo de Guarujá e isso demandou tempo para ajuda, porque naquela época não havia tecnologia. O Carnaval nem preciso dizer que acabou para nós.
       
No dia seguinte vários ufólogos chegaram ao alojamento e os estudiosos montaram estratégias, fizeram pontos de observação no local ocorrido e nada mais aconteceu, era como se os extraterrestres estivem nos obervando de algum lugar do céu, a sensação era como estivessem nos aguardando partir de lá. E foi exatamente o que aconteceu, tivemos que retornar, difícil falar para a família de Otávio o que acontecera.  
        Durante cinco anos a família dele foi procurada por ufólogos, policiais, equipes de reportagem, mas como tudo cessa com o tempo, aos poucos a família de Otávio foi se refazendo. Isis, porém, continuou com terapia e remédios para a síndrome do pânico e do medo que adquiriu depois de tudo isso.
...
        2018

        Isis se tornou minha melhor amiga e muitas coisas fizemos juntas nesses 33 anos de ausência de Otávio. Ela se agarrou à minha amizade e pude ajudá-la em suas síndromes; dizer que ficou totalmente curada é mentira a dizer que nunca se casou, o trauma causou-lhe uma série de dificuldades e uma delas foi a de amar alguém novamente. Primeiro namorado e o grande amor de sua vida, Otávio iria pedir sua mão em noivado durante o Carnaval, ele havia combinado conosco essa surpresa e acabei contando depois de algum tempo.
        O mais inexplicável nesses anos todos é Isis dizer que nunca esteve só, que ele a visita nos sonhos e que vivem o amor em plenitude.
        Ela diz que Otávio se comunica por meio dos sonhos, que para Isis é real! Ela fala que sempre está com ele, que passam as noites juntos e ela retorna ao corpo físico antes do sol raiar.
Loucura ou não nunca saberemos, porque a verdade da vida não está lá fora, e sim, dentro de nós mesmos.    



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