segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Conto: Abismo: nada além da escuridão, o outro lado da vida

Olá meus amigos, um bom início de semana a todos nós.
Quem tiver interesse em participar da edição de dezembro da Revista Conexão Literatura ainda dá tempo.

Segue o site da revista:

Há, e também o meu conto, que faz parte desta edição.
Obrigada, abraços,
Míriam

Lugar escuro e sombrio seres horríveis! Monstros sem cabeças seres rastejantes e grandes, sangue e perversidade. Correm atrás de pessoas apavoradas de medo no meio da lama da sujeira e da brutalidade.
Uma moça que pula de um abismo faz aquilo todos os dias. Seu rosto pálido e sem vida olha para o vazio da imensidão e ela se atira. O corpo cai rapidamente e o grito ecoa naquela imensidão de podridão, os seres param, e em minutos o mundo infernal recomeça. Aqui, não há esperança para ninguém!
Almas vagueiam torturadas por seus pecados e corpos amontoados como lixo!
Lembro-me de como vim para cá! Estava desgostosa com a vida e tomei um frasco de remédio para dormir. Acordei neste lugar! Não sei quanto tempo permanecerei, mas tenho certeza que será por um longo período.
Chegou a hora. Os vermes já estão à espera da horrenda cena. Sedentos por ver a pobre pecadora, que a cada dia, reafirma sua eterna estadia.
Aguardam com água na boca. Tudo cessa à espera dela. Ela vem caminhando devagar. Lágrimas escorrem por seu rosto. Ela passa por entre as criaturas e continua andando. A mulher chega à beira do abismo...
Para e sorri. Um sorriso iluminado.
E naquele exato momento, tão aguardado pela maldade, a moça tem um repente celestial e tudo muda num piscar de três segundos. Uma luz divina ilumina a pobre garota e ela desaparece.
Uma alma foi salva! Pensei eu, que não tinha a menor ideia de quanto tempo perambulava ali. E mesmo sem saber, me sentia arrependida por ter jogado tudo fora.
Naquela noite mesmo adormeci com a cena da pobre jovem na cabeça, quando ela subiu finalmente aos céus! E fiquei feliz por ela.
O que é mais terrível naquele lugar, sem dúvida, dormir e acordar, abrir os olhos e ver que ainda está ali e daí dá tanta vontade de tomar novamente um frasco de remédio... e é essa justamente a fraqueza que a mantinha ali, a vontade de nunca ter existido, a falta de vontade de lutar por melhora e compreendo ser esse o motivo de muitos que cometem o mesmo erro. E bem de longe ouvia- se uma gargalhada sinistra que zombava da fraqueza humana. Foi quando resolvi questioná-lo, o dono da gargalhada.
- Novamente você veio a mim? Você não está preparada ainda. Já tentou algumas vezes e quando caiu aqui novamente veio pior, para quê deseja?
Mesmo escutando tudo aquilo, indaguei que esta era a vez, que gostaria de tentar novamente e pedi com tanta fé, que uma luz me guiou para fora daquele buraco imundo, contrariando a vontade “dele”.
...
Como num sonho, quando dei por mim caminhava no calçadão, era bem cedinho e não havia muita gente, apenas o pessoal da limpeza das praias, os que retiram o lixo e automóveis apressados a seus destinos. Continuei caminhando lentamente e sentei-me em um banco. Senti o aroma da manhã, do belo e imenso jardim da orla de Santos, reparei em detalhes que nunca havia contemplado, estava feliz pela oportunidade em retornar ao mundo que nunca devia ter partido, pelo menos daquele jeito cruel.
Caminhava agora em passos apressados, a dor no coração e a ansiedade em chegar a casa eram imensos e num piscar de olhos estava em pé na porta do prédio onde residia. Abri o portão e entrei. A porta de acesso estava aberta, como de costume e subi os três andares até chegar ao meu apartamento.
Entro, ou não? O pensamento e a insegurança balançaram-me. O medo do que enfrentar lá dentro quase me fez recuar. Respirei fundo e entrei. Dei de cara com um gatinho, que arregalou os olhos e correu. Era um bichinho rajado, não era o meu gato preto. A decoração, os quadros não eram meus muito menos as fotos na parede, desconhecidas para mim. Espiei nos quartos e as pessoas que ainda dormiam não era minha família.
Sai correndo e desci rápido. Para onde foram todos? Venderam, alugaram? E um imenso vazio ecoava dentro de minha cabeça.
Ao sair do prédio trombei com um rapaz, bem, ele trombou de propósito, era muito branco, cabelo escuro e liso, sorriso sarcástico... Não nos conhecemos? Perguntei logo, sem hesitar.
- Sim, respondeu ele. Porque a cara de choro? Questionou o homem. Você não queria retornar, então, acho que já é o suficiente.
Então você é...
- Sim, de lá, respondeu. “Ele” disse que você não estava preparada, então vim para cá para ajudá-la. Eu não sei o que você pensava em encontrar aqui, sua vida agora se resume a cinzas. Não, pela sua cara, você por um acaso não está pensando que retornou em carne, né? (Risinhos irritantes...).
E a tristeza tomou conta de mim naquele exato momento. Sim, gritei alto, pensei que havia retornado em corpo físico. É duro saber que não existo mais neste mundo, que não posso mais ficar com a minha família, amigos e tudo o que sempre amei.
- Você devia ter pensando nisso antes de tomar o vidro todo do remédio para dormir, então, você conseguiu dormir para sempre! Naqueles exatos 40 segundos o seu pensamento só se fixou no fim de tudo. Você jogou fora o que batalhou para conseguir, você escolheu o outro lado da vida! Disse ele com vigor e rispidez.
Duras palavras que agora faziam sentido, que as conseguia ouvir sem correr, em aceitar a verdade. Não adiantava mais nada, estava condenada a pagar o preço.
Saímos da porta do prédio. Eu só queria saber há quanto havia morrido. E ele respondeu: - dez anos.

Eu não tinha essa noção, é o tempo cronológico de lá é bem diferente deste.
- Venha cá, disse, e me puxou para perto dele entrelaçando suas mãos nas minhas. Vou te ajudar a recuperar a sua memória.
E assim como num flash, num cinema, o filme foi rebobinando para trás com rapidez. Ele tinha esse poder de mexer com o tempo da lembrança. Rápido me via em todas as cenas, até que as imagens desaceleraram, e em tempo real, parou onde exatamente eu queria. – Você tem certeza de que quer continuar? Perguntou. E acenei a cabeça que sim.
... Retornava para casa após um dia de trabalho. O rádio do carro dizia que muita chuva cairia naquela noite de julho, mas não fazia frio por ser inverno. Estava chateada por ser repreendida no serviço por algum engano   que cometi. Para variar, deixei-me levar por pensamentos negativos, que aceleraram meus nervos. Ao retornar a casa, briguei com o marido por nada, pois de cabeça quente discuti por bobeira. A rotina de cuidar da casa e dos afazeres domésticos eu os sentia tão reais, a insatisfação de sempre me perturbavam e a minha aceitação de vida também. Gritei muito com ele, nosso relacionamento não ia bem e senti o coração dele infeliz. Ele bem irritado se arrumou e saiu. Fiquei sozinha em casa. Tremendo e com raiva, fui até o armário da cozinha e achei o vidro de remédio para dormir. Trêmula, e naqueles 40 segundos onde minha mente se esvaziou por completo, abri a tampa e virei o que pude para dentro da boca, tomando água para descer melhor os comprimidos. Deixei o vidro vazio cair dentro da pia da cozinha e cambaleando consegui chegar a cama. Senti o meu coração batendo cada vez mais fraco, a pulsação bem devagar, os órgãos internos do meu corpo parando um a um até que o coração cessou de vez. Em um último instante, antes do sopro final, lágrimas escorreram de meus olhos, desceram reto até molhar o lençol. Pude sentir e ver a tristeza da alma já arrependida ao lado do corpo sem poder fazer nada com a matéria que se foi.
Nisso, com força me desprendi das mãos dele e sentei-me ao chão. Mas aquilo não foi motivo! Como pude ser tão fraca?
- São imbecilidades dos seres humanos, melhor dizendo, egoísmo. É o egoísmo de achar tudo ruim, que a vida não vale nada, que mereciam mais, digo no plural porque é o que todos pensam e cometem esse erro sem volta. O que pretende fazer agora? Perguntou ele, que pacientemente aguardou 20 minutos até eu me recompor e deixar de chorar.
Não sei. Terei de retornar para lá? Indaguei.
- Acho que sim. O que pretende fazer por aqui, este não é mais o seu mundo, disse o guardião da lembrança. Não podemos interferir na vida dos humanos.
Levante-me depois de grande frustração, estava raivosa comigo mesma, decepcionada e sabia que nada podia interferir. Queria saber sobre a minha família e o guardião, que sabia dos meus pensamentos, foi logo completando.
- Seu marido está casado novamente e com filhos. Ele demorou a aceitar, fez tratamento, se achou culpado. Foi difícil para ele, mas teve de seguir a vida, vendeu o apartamento e se mudou para a capital, onde conheceu a atual esposa.
Sabia que não tinha como fugir do guardião e “ele”, como todos devem estar pensando ser o diabo, mas era o guardião do limbo, aterrorizava as almas pagãs, zombava de todos os que cometem esse crime contra si próprios, pois aquela era a função dele naquele lugar horroroso, com serem imundos e analisando bem a situação, quem é o mais cruel, “ele” ou nós mesmos?


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