quarta-feira, 16 de agosto de 2017

Conto: A casa sombria

Bom dia e excelente quarta-feira a todos nós.
A casa sombria faz parte da Revista Conexão Literatura deste mês. Interessados em participar da revista é só verificar com o editor.
Espero que gostem da história, abraços,
Míriam

A casa sombria ficava duas quadras de onde eu morava.
Na minha infância foi uma casa que sempre admirei. Aquela imensa casa, diziam, ser mal assombrada, pois coisas estranhas aconteciam à noite.
Era uma propriedade enorme e antiga, mas bem cuidada, sempre limpa, com árvores altas e muito espaço para correr e brincar. Nunca se via ninguém no casarão. Eu, pelo menos, não me lembro de ter visto os moradores.
Falavam os meus amigos que a casa era assombrada porque os moradores foram mortos e enterrados em algum lugar do jardim, então, à noite, os fantasmas andavam pela casa.
Bem, particularmente, acho que os fantasmas deveriam ter o que fazer durante o dia, porque só estavam na casa durante a noite. Não é estranho isso? Dizem sempre que os fantasmas aparecem à noite. Então, será que são vampiros também, além de fantasmas? Sempre me perguntei sobre isso. Bem, enfim, continuamos com os tais acontecimentos.
Quando vi a casa pela primeira vez tinha meus 13 anos e foi numa sexta-feira 13! Arrepiei-me na época, ainda me lembro.
Fiquei parada em frente ao imóvel tentando avistar alguém. Tudo tranquilo, nenhum sinal de ser vivo na casa. Permaneci por alguns minutos na porta, os muros não eram altos, então eu conseguia ver bem o que se passava pelo terreno. Nada de estranho me chamou a atenção. Desisti da história do assombro.
Eis que um dia minhas amigas me tentaram a ir a tal casa. Eu, que sempre gostei de coisas assombrosas, topei. Marcamos que entraríamos a todo custo na casa e para ver os fenômenos que aconteciam, teria que ser quando escurecesse.
O grupo era formado por cinco mocinhas, inventamos uma boa desculpa a nossos pais e fomos para a casa avermelhada, a tal mal assombrada.
— E aí, estamos aqui na porta e não vejo nenhum movimento lá dentro. A casa está às escuras, sinal que não tem ninguém. — Dizia minha amiga Rosa, segura de si.
— Bem, e se os moradores estiverem trabalhando e retornarem agora à noite? — Dizia outra amiga, Pina, com uma voz trêmula.
— Bobagem gente, vamos entrar ou não? — Finalizaram Claudia e Teresa, já sem paciência e nos chamando de medrosas.
Com aperto no coração e mãos geladas, todas nós, as meninas da vilinha onde morávamos, abrimos com facilidade o portão e entramos no terreno.



Bem devagar e todas de mãos dadas, seguimos vistoriando o local, que não tinha nada de estranho. Subimos os degraus bem devagar. Dava para escutar a respiração acelerada de todas.
Eu, na frente, fui abrir a porta. Para minha surpresa, não estava trancada. Parei, mas a minha curiosidade era tanta, que a empurrei escancarando-a. Entramos. Eu era a única que tinha lanterna.
Iluminei o interruptor e acendi as luzes, e não ouvi reclamação de ninguém, pois queríamos ver tudo e com a lanterna não tinha condições.
Andamos pela sala, de grande tamanho, móveis clássicos em madeira, sofás forrados com veludo vermelho, objetos antigos decoravam o ambiente, assim como quadros, muitas pinturas de homens e mulheres, acho que foram os habitantes da casa.
Passamos para o outro cômodo, a sala de leitura, lá, me encantei com a quantidade de livros que estavam na estante que pegava uma parede inteira, até o teto. Na sala pendiam dois lustres e um sofá grande, perto da janela.
A casa estava bem cuidada e limpa. Andávamos na direção da cozinha. Pisávamos em “ovos” para não fazer nenhum barulho, quando Teresa se desequilibra e bate num objeto que cai ao chão. O estrondo fez até meu coração sair pela boca.
Nisso, alguém grita perguntando quem estava ali. Os passos apressados começam a ficar mais nítidos e a voz de mulher com uma fala rouca chega cada vez mais próxima de nós. Alguém descia as escadas apressadamente.
Saímos correndo e vi a mulher. Era uma senhora, com vestido longo e um avental. Ela gritava, mas eu não conseguia entender mais nada o que falava. Derrubei minha lanterna. A mulher agora berrava. Olhei para trás e vi seu rosto branco, sua boca espumando de raiva, os olhos enormes esbugalhados, ela segurava o vestido e com passos rápidos tentava agarrar uma de nós.
A porta, que deixamos aberta, “voamos” para fora, descendo os degraus “a jato”, abrindo o portão da rua e desaparecendo na escuridão.
Ninguém olhou para trás. Chegamos a nossas casas tão rápido que nem acreditei. Caladas e pálidas como defuntos, permanecemos na porta da vila para o coração voltar ao normal. Nenhuma de nós ousou comentar alguma coisa naquela noite; e cada uma entrou para sua casa.
Nunca mais retornamos ao casarão e até passávamos por outra rua só para não aparecermos na frente do imóvel.
Não soube mais nada sobre a senhora que morava na casa e nem quem era ela. O fato foi desaparecendo aos poucos de nossas vidas, até sumir por completo.

Para mim, a cena sempre ficou em minha mente, pois não sei como acabei ficando com uma cicatriz na perna esquerda, pois não me lembro de ter me cortado em nada e ainda hoje, ao dormir, escuto os gritos da velha da casa sombria.

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